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África do Sul derrubou árvores para salvar água, mas o alvo era o ‘verde errado’

Escrito por Alisson Ficher
Publicado el 09/03/2026 a las 11:12
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Política ambiental troca “mais verde” por segurança hídrica ao remover espécies invasoras que drenam mananciais e pressionam bacias estratégicas.

A África do Sul adotou uma política ambiental que, à primeira vista, parece contrariar o senso comum: em vez de ampliar o plantio de árvores, o país passou a remover parte do que já crescia em suas bacias para proteger rios, nascentes e reservatórios.

O foco não está em florestas nativas, mas em plantas exóticas invasoras que se espalharam por áreas estratégicas de recarga e drenagem, elevando o consumo de água no solo e reduzindo a vazão que sustenta abastecimento urbano, agricultura e indústria.

Nesse contexto, o programa Working for Water se consolidou como uma resposta estatal de grande escala, combinando controle de invasoras, recuperação ambiental e geração de emprego, com operações contínuas em diferentes províncias e prioridades definidas por risco e relevância hídrica.

Relatos compilados por organizações internacionais, como o World Resources Institute, e por entidades parceiras do governo sul-africano indicam que as frentes de manejo já somam mais de 1 milhão de hectares tratados contra vegetação invasora.

Água como limite do desenvolvimento na África do Sul

Em grande parte do território sul-africano, a disponibilidade hídrica funciona como um teto para o desenvolvimento, porque a chuva é irregular, a evaporação é alta e a demanda cresce em torno de centros urbanos e polos produtivos.

Por isso, a política pública passou a tratar mananciais e bacias como infraestrutura essencial, onde decisões de uso do solo precisam priorizar vazões mais estáveis ao longo do ano, sobretudo nos meses secos, quando a competição por água tende a se intensificar.

Ao deslocar o debate de “mais verde” para “verde no lugar certo”, o país tornou mensurável um problema que costuma ficar invisível em mapas de cobertura vegetal, já que uma paisagem aparentemente mais arborizada pode significar menos água disponível.

Nesse modelo, a vegetação nativa adaptada ao clima local ocupa um papel distinto do de árvores e arbustos introduzidos, porque espécies de crescimento agressivo e grande porte podem alterar o balanço hídrico quando avançam sobre encostas, nascentes e corredores ripários.

Espécies invasoras e impacto direto na água disponível

O governo sul-africano, em materiais públicos sobre o tema, descreve as plantas invasoras como um problema nacional associado à água, ao registrar que elas se estabeleceram em mais de 10 milhões de hectares no país.

No mesmo conjunto de informações, o programa vinculado ao Departamento de Água e Saneamento afirma que essas plantas “waste 7% of our water resources”, além de piorarem erosão, assoreamento e qualidade da água, com efeitos indiretos sobre estuários e represas.

A dimensão do desafio aparece também no custo de controle, estimado pelo próprio governo em cerca de 600 milhões de rands por ano ao longo de duas décadas, em um cenário em que a inação permitiria a expansão do problema em ritmo acelerado.

Esse impacto não se limita ao volume captado, porque a presença de invasoras pode intensificar enchentes e incêndios em determinadas áreas, elevando os riscos para infraestrutura, moradias e serviços públicos, além de pressionar equipes de defesa civil.

Por que cortar árvores pode aumentar a vazão dos rios

A base da política nasce de um mecanismo simples da fisiologia vegetal: plantas com raízes profundas e alta transpiração retiram água do solo e devolvem parte à atmosfera, o que pode ser equilibrado em ambientes úmidos, mas vira dilema em regiões mais secas.

Quando árvores fora do lugar ocupam bacias sensíveis, esse aumento de evapotranspiração tende a reduzir a água que chegaria a riachos, rios e reservatórios, afetando justamente os períodos em que a demanda humana cresce e a reposição natural é menor.

Pesquisas sul-africanas e artigos em periódicos internacionais descrevem reduções de vazão associadas à invasão de árvores altas em diferentes biomas do país, com destaque recorrente para grupos como pinus, eucaliptos e acácias.

Muitas dessas plantas foram introduzidas ao longo do século passado com finalidades econômicas, ornamentais ou de estabilização de solo, mas encontraram condições para avançar além do planejado, formando manchas densas e substituindo vegetação local.

Ao ocupar áreas de captação, a invasora deixa de ser apenas “mais biomassa” e passa a representar menos água circulando na paisagem, o que altera a segurança hídrica de comunidades e cidades que dependem de vazões regulares.

Working for Water como política pública permanente

Criado em 1995, o Working for Water foi desenhado com foco duplo: controlar plantas invasoras para proteger recursos hídricos e, ao mesmo tempo, criar oportunidades de trabalho, treinamento e renda em ações de manejo ambiental.

De acordo com informações do governo sul-africano e de organizações que acompanham o programa, a iniciativa já reuniu milhares de trabalhadores em operações de campo, com equipes treinadas para remoção, monitoramento e manutenção de áreas restauradas.

A remoção, porém, raramente é um evento único, porque a erradicação completa se torna improvável quando a espécie já se espalhou em larga escala, exigindo manejo contínuo, revisitas e ações para impedir a reinfestação.

Na prática, as intervenções priorizam áreas onde a relação custo-benefício tende a ser mais rápida, como bacias de abastecimento, margens de rios e zonas de recarga, onde reduzir consumo hídrico pela vegetação invasora pode liberar água para usos essenciais.

Além disso, o programa passou a ser apresentado como restauração de paisagens e serviços ecossistêmicos, não como simples derrubada, porque o objetivo declarado envolve recuperar funções hidrológicas e favorecer a retomada de vegetação nativa compatível com o clima.

Desafios técnicos na remoção de vegetação invasora

No campo, o sucesso depende de escolhas operacionais que nem sempre entram no debate público, porque remover vegetação densa pode expor o solo, aumentar erosão e elevar a carga de sedimentos em rios, se a execução não considerar estabilidade e cobertura.

Em áreas ripárias, equipes precisam equilibrar a retirada de invasoras com a proteção de barrancos, evitando turbidez excessiva e novas fontes de assoreamento, já que o remédio mal aplicado pode piorar a qualidade da água que se pretende proteger.

Já em encostas e trechos íngremes, o planejamento de acesso, a destinação do material removido e o controle de rebrota influenciam custos e impactos, além de reduzir a chance de que a área volte a ser dominada pela mesma espécie.

A política também expõe um ponto sensível em agendas globais de restauração, porque árvores costumam ser tratadas como sinônimo de solução climática, enquanto, em regiões com escassez hídrica, espécie e local determinam se haverá ganho ou perda.

Ao diferenciar vegetação nativa de invasoras com alta demanda por água, a experiência sul-africana reforça que a proteção de mananciais pode exigir primeiro remover o “verde errado” para depois recuperar, com critério, o “verde certo”.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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