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A China agora quer erguer fazendas de porcos em arranha-céus: gigante Muyuan leva ao Vietnã um projeto bilionário com granja para 64 mil suínos e fábrica de ração, exportando de vez o modelo que virou aposta nacional

Publicado el 09/03/2026 a las 20:15
As fazendas da China avançam no Vietnã com suínos em arranha-céus e novo complexo bilionário.
As fazendas da China avançam no Vietnã com suínos em arranha-céus e novo complexo bilionário.
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As fazendas chinesas em edifícios altos deixaram de ser uma aposta doméstica e avançam para Tay Ninh, no Vietnã, onde a Muyuan, em parceria com a BAF, planeja investir mais de US$ 450 milhões em uma granja para 64 mil suínos integrada a uma grande fábrica de ração.

As fazendas verticais de suínos, que por anos pareceram uma solução improvável fora da China, começam agora a cruzar fronteiras. O movimento ganha força com a entrada da Muyuan Foods no Vietnã, em um projeto que mostra como um modelo nascido da pressão por eficiência, biossegurança e uso intensivo do solo passa a ser exportado.

A iniciativa será implantada em Tay Ninh, no sudeste vietnamita, e combina criação animal em edifícios de vários andares com uma estrutura industrial de suporte. Mais do que uma simples granja, o projeto revela uma mudança de escala e de lógica produtiva, porque leva para outro país um formato que a China tratou como resposta estratégica para reorganizar seu rebanho suíno.

Como o projeto no Vietnã transforma fazendas em uma operação vertical

A parceria entre a chinesa Muyuan Foods e a empresa local BAF prevê a construção de um complexo com investimento superior a US$ 450 milhões, algo em torno de R$ 2,3 bilhões, segundo os valores informados na base. O plano reúne duas frentes centrais: uma granja com capacidade para 64 mil suínos e uma fábrica apta a produzir quase 600 mil toneladas de ração por ano.

Esse desenho deixa claro que não se trata apenas de erguer prédios para alojar animais. O objetivo é montar uma operação integrada, na qual as fazendas passam a funcionar conectadas a uma base própria de alimentação, ampliando o controle sobre custos, logística e ritmo de produção. A verticalização, nesse caso, não está apenas no edifício, mas também na organização do negócio.

Em setembro, o projeto recebeu aprovação das autoridades da província de Tay Ninh e também das autoridades estatais, o que abriu caminho para sua implantação formal. Esse detalhe ajuda a entender por que a iniciativa ganhou tanto peso: ela não ficou restrita a uma intenção empresarial, mas avançou para a fase de reconhecimento institucional.

Ao ser implantado no Vietnã, o complexo coloca em prática uma ideia que já vinha sendo consolidada na China. A diferença é que agora o modelo deixa de ser visto apenas como uma resposta interna às necessidades chinesas e passa a ser apresentado como uma solução exportável. É esse salto que torna o projeto especialmente relevante no setor.

Por que a China decidiu levar suas fazendas para fora de casa

A origem dessa estratégia está no próprio percurso recente da suinocultura chinesa. Nos últimos anos, a China passou a investir de forma crescente em fazendas de vários andares, inclusive em estruturas que lembram arranha-céus. Um dos exemplos mais emblemáticos são as duas torres de 26 andares em Ezhou, na província de Hubei, com capacidade para criar 1,2 milhão de porcos por ano.

Esse avanço não surgiu do nada. O país já vinha repensando a criação de suínos há bastante tempo, mas o processo ganhou urgência após o impacto da peste suína africana em 2018. O surto devastou rebanhos, provocou abates em escala massiva e expôs a fragilidade de sistemas menos concentrados e menos controlados. A partir daí, a reorganização da produção deixou de ser apenas desejável e passou a ser estratégica.

Em 2019, o governo chinês permitiu formalmente o uso de edifícios de vários andares para criação de suínos. Um ano depois, a Muyuan inaugurou em Nanyang um enorme complexo com cerca de vinte edifícios, capaz de produzir mais de dois milhões de porcos por ano. Isso mostra que a empresa não está apenas experimentando formatos alternativos, mas consolidando um padrão industrial de grande escala.

Ao levar esse desenho ao Vietnã, a China sinaliza que acredita na maturidade do modelo. Não é mais uma aposta limitada ao território chinês, nem uma solução improvisada para um momento de crise. O que era visto como exceção começa a ser tratado como fórmula replicável, com potencial para ser adaptada a outros mercados.

O que torna as fazendas em arranha-céus tão atraentes para o setor

O principal argumento a favor dessas fazendas é a eficiência. Em vez de espalhar a produção em grandes extensões horizontais, o sistema concentra a criação em edifícios de vários andares, reduzindo a necessidade de terra e tornando mais intensa a utilização do espaço disponível. Em regiões densamente povoadas ou com solo disputado, isso pode representar uma vantagem decisiva.

Outro ponto importante é a biossegurança. Segundo a própria Muyuan, a substituição de granjas tradicionais de um único andar por unidades de vários andares melhora o uso da terra, favorece a reciclagem de esterco e resíduos e reforça os mecanismos de controle sanitário. Essa promessa de maior controle ajuda a explicar por que o modelo ganhou força depois de anos de perdas e instabilidade.

Também existe um ganho operacional na automação. As grandes torres chinesas associadas a esse modelo reúnem milhares de pontos de alimentação automática e sistemas capazes de coletar, analisar e utilizar esterco animal. Isso indica que as fazendas verticais não dependem apenas da altura dos prédios, mas de uma infraestrutura tecnológica voltada a padronizar processos e ampliar a previsibilidade produtiva.

Na prática, o arranha-céu suíno representa uma tentativa de aproximar a criação animal de uma lógica industrial ainda mais rígida. Tudo fica mais concentrado, mais monitorado e mais conectado. Para os defensores do formato, essa organização transforma limitações físicas e sanitárias em uma vantagem competitiva.

Onde estão os ganhos e os riscos desse modelo de fazendas verticais

As vantagens do sistema aparecem com clareza quando se observa o contexto chinês. O país é o maior produtor e consumidor de carne suína do mundo e, antes do surto de 2018, abrigava cerca de metade da população mundial de suínos. Em um cenário assim, controlar espaço, resíduos, doenças e produtividade deixou de ser uma questão secundária. As fazendas em altura surgem como resposta a essa pressão.

Além disso, a China vem substituindo gradualmente um modelo em que a criação de suínos era comum em ambientes domésticos por outro baseado em operações comerciais de grande escala. Essa transição favorece estruturas mais padronizadas, onde o controle do ambiente é maior e o monitoramento pode ser mais rigoroso. O arranha-céu, nesse contexto, funciona como símbolo de uma produção mais centralizada e industrializada.

Mas o formato também traz riscos relevantes. O principal deles é a possibilidade de disseminação mais rápida de doenças por sistemas de ventilação, justamente porque a concentração de animais em um mesmo conjunto estrutural pode ampliar o impacto de um problema sanitário. Quanto maior a integração, maior também pode ser a velocidade de propagação de falhas.

Por isso, o modelo desperta admiração e desconfiança ao mesmo tempo. Para alguns, ele representa um passo lógico rumo à agricultura industrial de alta eficiência. Para outros, concentra vulnerabilidades demais em uma única estrutura. A expansão para o Vietnã mostra que, mesmo com os riscos, a China considera que os benefícios ainda compensam o avanço.

O que a entrada da Muyuan no Vietnã revela sobre o futuro das fazendas de suínos

A presença da Muyuan no projeto de Tay Ninh tem peso próprio porque a empresa é a maior produtora de suínos da China e uma das mais relevantes do setor em escala internacional. Sua participação não apenas dá dimensão financeira ao plano, mas também reforça a ideia de que o empreendimento vietnamita é uma extensão direta da experiência acumulada no mercado chinês.

Isso significa que o Vietnã não está recebendo apenas capital ou construção civil. Está recebendo um modelo produtivo completo, testado dentro de um dos maiores mercados de carne suína do planeta. Quando uma companhia desse porte decide replicar fora do país uma estrutura que ajudou a consolidar em casa, o sinal é de confiança no padrão adotado.

Ao mesmo tempo, o projeto revela um movimento mais amplo da China: tentar estabilizar seu rebanho, evitar excedentes, sustentar preços e ampliar o alcance de soluções que considera eficientes. Nesse cenário, exportar fazendas verticais passa a ser também uma forma de projetar influência tecnológica e empresarial sobre a cadeia global de produção de suínos.

O caso de Tay Ninh pode acabar funcionando como vitrine. Se a operação se mostrar eficiente, outras iniciativas semelhantes poderão ganhar tração em mercados que enfrentam pressões sobre terra, escala e biossegurança. Mais do que construir prédios, a China está tentando exportar uma lógica inteira de produção animal.

A chegada do modelo chinês de fazendas em arranha-céus ao Vietnã marca um ponto importante para a suinocultura industrial.

O projeto liderado pela Muyuan, com granja para 64 mil suínos e fábrica de ração de grande porte, mostra que uma solução criada para responder a desafios internos da China agora começa a ser apresentada como formato internacional.

Ao mesmo tempo em que promete eficiência, melhor uso do espaço e maior controle operacional, esse sistema também levanta dúvidas sobre concentração de riscos sanitários e sobre os limites de uma produção cada vez mais verticalizada.

É justamente essa mistura de inovação, escala e controvérsia que faz o tema ganhar tanta força. Na sua visão, esse tipo de fazenda representa uma evolução inevitável da produção de alimentos ou um modelo que ainda carrega riscos altos demais para ser tratado como referência?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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