A barragem de Ituango, maior usina hidrelétrica da Colômbia, entrou em colapso operacional em 2018, forçou a evacuação de Puerto Valdivia, colocou o rio Cauca fora de controle e revelou falhas graves de engenharia, cronograma e pressão política
A barragem de Ituango, avaliada em US$ 4 bilhões, entrou em colapso operacional iminente quando um túnel de desvio falhou e o rio Cauca perdeu sua rota de passagem. O alerta de 13 de maio de 2018 levou à retirada urgente de moradores rio abaixo, com 25.000 pessoas evacuadas diante do temor de ruptura.
O impacto imediato foi devastador em Puerto Valdivia: 59 casas destruídas, duas escolas, um centro de saúde, infraestrutura essencial e a ponte da cidade foram atingidos. A cidade virou um vazio, com mais de 400 famílias sem teto, e a volta autorizada não significou retorno real, porque o território havia sido descaracterizado e os problemas sociais se aprofundaram numa região já instável.
O dia do alarme e a evacuação de Puerto Valdivia

Em 13 de maio de 2018, as autoridades acionaram o alarme porque a maior barragem já construída na Colômbia estava prestes a ruir. O plano começou com uma evacuação parcial: 600 moradores deixaram Puerto Valdivia. Poucos dias depois, a evacuação escalou e a cidade inteira teve de ser abandonada, com deslocamento para abrigos temporários.
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O cenário descrito foi o de uma retirada em cadeia, típica de risco hidráulico: quando a ameaça envolve uma barragem e um reservatório, o tempo é curto e a margem de erro é mínima. A magnitude do risco vinha do próprio sistema de Ituango: uma estrutura com 225 metros de altura, mais alta que um arranha-céu, contendo um reservatório que pode alcançar 127 km de comprimento e armazenar até 2,72 bilhões de metros cúbicos de água.
O que foi destruído e por que a cidade virou fantasma

As inundações destruíram 59 casas, duas escolas, um centro de saúde, infraestrutura essencial e a ponte local. O que restou foi descrito como uma cidade fantasma. O deslocamento em massa agravou problemas sociais em um território já marcado por violência e instabilidade.
Mesmo depois de autorização para retorno, poucos quiseram voltar. O efeito social da crise não foi apenas material: mais de 400 famílias ficaram sem teto, e a perda de serviços básicos, além de insegurança e interrupção econômica, prolongou a condição de abandono.
Por que essa barragem era central para a Colômbia

A barragem de Ituango foi planejada para ser o maior projeto hidrelétrico do país e, eventualmente, fornecer 17% da eletricidade da Colômbia. Ela era tratada como peça de uma estratégia nacional: reduzir risco de apagões, diminuir dependência de usinas térmicas caras e sustentar um boom de infraestrutura associado à ambição de independência energética.
Esse peso estrutural aparece no pano de fundo demográfico citado: a população teria subido de 33 milhões em 1990 para 46 milhões pouco antes do início das obras, chegando a mais de 53 milhões atualmente. Com a demanda crescendo, a pressão por capacidade adicional colocou uma obra dessa escala no centro de decisões políticas e econômicas.
O rio Cauca como artéria de energia, agricultura e transporte
Além de gerar energia, a barragem também pretendia controlar o rio Cauca, descrito como o segundo maior da Colômbia, atrás do Magdalena. O Cauca serpenteia pelos Andes por 965 km, atravessa grandes cidades e deságua no Magdalena perto de Magangué.
A dependência humana e produtiva é ampla. Grupos indígenas e comunidades afro-colombianas dependem do rio para pesca e transporte. O vale do rio abriga milhões de colombianos e forma um dos corredores andinos mais densamente povoados. O Cauca também sustenta o Valle del Cauca, uma das regiões agrícolas mais produtivas do país: a indústria canavieira opera com mais de 200.000 hectares de cana, respondendo por mais de 90% do açúcar do país e 100% das misturas de etanol combustível a partir da cana-de-açúcar, com irrigação captando água diretamente do rio. Mais acima na bacia, especialmente no Eje Cafetero, afluentes do Cauca sustentam outra exportação decisiva: o café.
O mesmo rio que sustenta também destrói. Historicamente, o Cauca causou perdas agrícolas, erosão do solo e danos à infraestrutura por inundações sazonais. A lógica oficial era que o reservatório de Hidroituango poderia atuar como amortecedor, reduzindo picos de vazão em épocas de chuva, protegendo comunidades ribeirinhas e diminuindo custos de recuperação após grandes enchentes.
Um canteiro difícil: Andes Centrais, violência e uma obra em terreno impossível
A construção começou em 2010, e a localização nos Andes Centrais se mostrou extremamente difícil. O desafio era geográfico, mas também político: a região era descrita como violenta, associada a conflito e instabilidade. Há ainda um elemento gravíssimo citado no entorno do reservatório: acredita-se que a área inundada cubra dezenas de valas comuns, e especialistas estimaram 3.500 assassinatos, 600 desaparecimentos forçados e 110.000 deslocamentos entre 1990 e 2016.
O projeto, financiado com dinheiro público, foi promovido como ferramenta de desenvolvimento capaz de trazer paz e prosperidade. No chão real, o acesso exigiu construção de estradas em encostas íngremes como penhascos, com equipamentos grandes transportados por desfiladeiros estreitos, elevando complexidade logística desde o primeiro dia.
O desvio do rio e a decisão que abriu caminho para o desastre
O primeiro passo clássico de qualquer barragem é desviar o rio. Em Ituango, a geografia apertou o projeto: paredes profundas de cânion, sem espaço para canais de desvio convencionais. A solução foi cavar túneis através das montanhas.
Em 2012, quando os túneis de desvio começavam, o projeto se envolveu em controvérsia por processo de licitação fraudulento, alegações de corrupção e atrasos sucessivos. Ainda assim, as obras avançaram. Sem espaço para TBMs, os túneis foram escavados com perfuração e detonação: furos na rocha, cargas controladas, explosões em sequência cronometrada para fraturar o maciço, remoção por carregadeiras e caminhões, aplicação de concreto projetado, além de parafusos de ancoragem, reforços de aço e tela metálica para estabilização.
Como se trata de uma região geologicamente complexa e ativa, com deslizamentos e terremotos descritos como rotina, os túneis exigiam ventilação, drenagem e monitoramento constantes para evitar desabamentos. Em 2014, os túneis foram concluídos e o rio pôde ser desviado, criando a arquitetura operacional que, quatro anos depois, seria o epicentro do colapso.
A pressa, os incentivos e o canteiro 24 horas por dia
A execução ficou sob responsabilidade da EPM, Empresas Públicas de Medellín, estatal de serviços públicos que projetou e construiu a barragem. Em 2015, com atraso acumulado, a EPM assinou um contrato de US$ 100.000 para acelerar a construção. O canteiro passou a operar 24 horas por dia, 7 dias por semana, recuperando 18 meses de atraso.
Havia incentivos financeiros explícitos para manter o cronograma: a EPM receberia US$ 22,3 milhões se o projeto começasse a fornecer energia antes de dezembro. A receita da barragem já havia sido colocada no orçamento financeiro, o que aumentava a pressão por entrega. Em 2017, a obra estava 70% concluída e, em 13 de maio de 2018, restavam apenas semanas para a conclusão total quando o sistema falhou.
O colapso do túnel e o efeito dominó nos túneis de desvio
O ponto de ruptura foi o desabamento de um dos túneis de desvio. O cenário descrito combinou geologia fraturada, falhas geológicas e rochas trituradas propensas a deformações repentinas. A água subterrânea amoleceu o maciço rochoso, reduzindo sua capacidade de suportar carga. A variabilidade do material era extrema em poucos metros, indo de rocha forte a rocha quebradiça, o que dificultava prever estabilidade no longo prazo.
Somou-se a isso a hidrologia: não era estação seca e o período era particularmente chuvoso, elevando o volume de água circulando no sistema. Um pequeno problema escalou rapidamente. Uma deformação no revestimento provocou bloqueio, gerou acúmulo de pressão atrás da obstrução e o túnel virou uma cavidade pressurizada. Sem rota de escoamento, ele colapsou.
Após o desabamento, o rio perdeu a principal rota de desvio e inundou outros dois túneis. Em poucos dias, todos os túneis estavam instáveis ou também haviam desabado. A obra perdeu o controle do rio, exatamente o cenário que torna uma barragem um risco existencial para comunidades a jusante.
A resposta de emergência: elevar a barragem e abrir um vertedouro sem teste
Diante do risco de ruptura, os engenheiros elevaram rapidamente a altura da barragem em questão de semanas, mantendo o canteiro novamente em ritmo 24 horas por dia, 7 dias por semana, com caminhões basculantes e carregadeiras. A motivação, descrita de forma direta, deixou de ser econômica e passou a ser o medo de um rompimento.
O muro foi erguido até 225 metros, altura suficiente para conter a subida das águas. Na sequência, foi necessário abrir e usar o vertedouro, que ainda não havia sido utilizado nem testado. Uma vez aberto, o vertedouro passou a oferecer saída controlada para o rio Cauca, restaurando apenas estabilidade parcial, sem encerrar a crise.
O dano estrutural a jusante e a casa de máquinas inundada
A crise não se limitou ao risco de rompimento. Entre as consequências, houve alagamento não planejado da casa de máquinas, danos estruturais em componentes de captação de água e meses de interrupção do canteiro. A solução envolveu uma operação especializada: um especialista holandês em construção subaquática foi encarregado de isolar estruturas de captação.
Foram fabricados plugues mecânicos personalizados que permitiram a mergulhadores isolar e drenar seções inteiras da barragem. Paralelamente, novos túneis de desvio foram construídos e vários dos antigos foram abandonados, redesenhando na prática o sistema que, originalmente, sustentaria a obra.
O que ficou pendente e o novo prazo de conclusão
Apesar de toda a intervenção, a barragem não foi encerrada operacionalmente com o evento. Ainda faltam quatro turbinas para entrarem em operação. Quando essas peças forem instaladas, a obra ficará praticamente concluída. A conclusão total está prevista para 2027, depois de um processo que começou em 2010, passou pela conclusão dos túneis em 2014 e explodiu em crise em 2018.
A sequência deixa claro que o colapso não foi atribuído a uma represa antiga e degradada. O choque central foi ver uma barragem novíssima, com previsão de conclusão poucas semanas após o desastre, entrar em estado de risco extremo, com evacuação e destruição de cidade.
As lições declaradas: engenharia, pressão política e consulta às comunidades
A leitura final apresentada é dura: dinheiro e pressão política não substituem prática rigorosa de engenharia. Também aparece a crítica social e ambiental: comunidades locais não teriam sido consultadas adequadamente, e relatórios de impacto não teriam incorporado o risco e o custo humano que um fracasso dessa escala poderia impor.
A história de Ituango, com evacuação, destruição de infraestrutura e ameaça a 120.000 pessoas na bacia do rio Cauca, vira um retrato de como megaprojetos podem tanto sustentar um país quanto empurrá-lo para crises quando cronogramas e incentivos atropelam controles técnicos.
Você acha que a pressão por entregar energia e cumprir cronograma pesa mais do que a engenharia quando uma barragem entra em risco real como em Ituango?
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