Ao revisitar a compra das Ilhas Virgens em 1917 por US$ 25 milhões, moradores do território dos Estados Unidos traçam paralelos históricos com as negociações envolvendo a Groenlândia, destacando exclusão política, interesses militares estratégicos e impactos duradouros do colonialismo dinamarquês e norte-americano sobre populações locai
Vestígios do domínio imperial dinamarquês por 250 anos seguem visíveis nas Ilhas Virgens dos Estados Unidos, território comprado em 1917 por US$ 25 milhões, enquanto declarações recentes de Donald Trump sobre a Groenlândia reacendem memórias históricas de anexação sem consulta popular e exclusão política.
Marcas físicas e culturais do domínio dinamarquês nas ilhas caribenhas
Traços do domínio da Dinamarca ainda estão espalhados por St. Thomas, St. Croix, St. John e pequenos ilhotes que hoje formam as Ilhas Virgens dos Estados Unidos. Nomes de cidades e ruas permanecem em dinamarquês, como Frederiksted.
Edifícios históricos utilizam tijolos amarelados trazidos de navio através do Atlântico, e fachadas de antigas plantações de açúcar seguem de pé, locais onde africanos escravizados foram forçados a trabalhar durante o período colonial.
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Esses vestígios convivem com expressões culturais caribenhas vibrantes, como dançarinos com trajes coloridos e músicas guiadas por tambores, além de redes comerciais como McDonald’s e Home Depot, reflexo do status do território como área não incorporada dos Estados Unidos.
Para alguns moradores, a combinação entre herança colonial e influência americana contemporânea evidencia uma continuidade histórica. Essa percepção ganhou força com as recentes negociações envolvendo a Groenlândia, que despertaram lembranças de processos vividos no passado local.
Memória histórica e o temor de decisões sem participação popular
Com as negociações de Donald Trump com a Dinamarca sobre um possível acordo de acesso à Groenlândia, residentes das ilhas relatam a sensação de reviver uma história já conhecida. A afro-caribenha Stephanie Chalana Brown, historiadora visual, afirma que o passado colonial ressurge em novos formatos.
Brown relata que seus ancestrais estiveram entre os primeiros escravizados pelo poder colonial dinamarquês. Atualmente, ela integra grupos que buscam reparações junto à Dinamarca pelos impactos históricos da escravidão e da venda do território.
Segundo Brown, tanto como pessoas escravizadas quanto depois como habitantes de um território transferido da Dinamarca aos Estados Unidos, seus familiares foram negociados sem consentimento. Essa experiência fundamenta sua preocupação com o futuro da Groenlândia.
Ela teme que os moradores da ilha ártica enfrentem situação semelhante, sem participação efetiva nas decisões sobre o uso e o destino de suas terras, repetindo um padrão histórico de exclusão política.
A compra das Ilhas Virgens e seus impactos políticos duradouros
Mais de um século atrás, o então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, adquiriu as ilhas, então chamadas de Índias Ocidentais Dinamarquesas, por US$ 25 milhões, após ameaçar tomar o território pela força.
O contexto era de guerra na Europa, e os Estados Unidos buscavam consolidar sua influência estratégica na América Latina. Wilson justificou a compra com argumentos semelhantes aos usados por Donald Trump em relação à Groenlândia.
O objetivo era garantir novas rotas comerciais e impedir que potências rivais dominassem a região. Naquele momento, a principal ameaça percebida era a Alemanha, envolvida na Primeira Guerra Mundial.
Havia receio de que a Alemanha absorvesse a Dinamarca e seus territórios, o que representaria risco estratégico para os Estados Unidos. Após a compra em 1917, as ilhas tornaram-se um posto militar estratégico no Caribe.
Durante décadas, funcionaram como base de operações navais. No entanto, a estação aérea da Marinha foi fechada em 1948, e o território nunca se tornou o ativo militar de grande relevância inicialmente projetado.
Exclusão política dos habitantes locais após a anexação
Em 1917, cerca de 26.000 habitantes viviam espalhados por St. John, St. Croix e St. Thomas. Eles não foram consultados sobre a aquisição do território, embora a Dinamarca tenha realizado um referendo entre seus cidadãos no continente europeu.
Após a transação, levou mais de uma década para que os moradores das ilhas obtivessem cidadania norte-americana. O direito de eleger o próprio governador só foi concedido em 1970.
Atualmente, assim como outros territórios dos Estados Unidos, os cidadãos das Ilhas Virgens não podem votar para presidente e não possuem representante com direito a voto no Congresso, limitando sua participação política nacional.
Essa condição institucional reforça, segundo moradores, a sensação de decisões tomadas à distância, sem envolvimento direto da população afetada, um fator central nas comparações com o debate atual sobre a Groenlândia.
Reações locais às movimentações militares recentes
Felipe Ayala, integrante do St. Thomas Historical Trust, afirma que o tema da Groenlândia circula principalmente em conversas privadas. Segundo ele, a atenção dos moradores está voltada para ações internacionais mais próximas.
Em dezembro, dois porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos, o USS Gerald R. Ford e o USS Iwo Jima, atracaram nas Ilhas Virgens. Foi a primeira grande presença naval em décadas.
As embarcações participaram de operações relacionadas ao combate ao tráfico de drogas e a ações posteriores envolvendo a Venezuela. Para parte da população, a chegada dos navios representou um impulso econômico temporário.
Outros moradores reagiram com apreensão. Ayala relatou que muitas casas têm vista direta para o porto e a baía, tornando a presença militar visualmente impactante e politicamente inquietante diante do clima regional.
Groenlândia, negociações incertas e preocupações compartilhadas
Após ações militares envolvendo a Venezuela, Donald Trump intensificou declarações defendendo a anexação da Groenlândia e não descartou o uso de força militar. Posteriormente, em 23 de janeiro, recuou parcialmente.
Trump afirmou que os Estados Unidos teriam “acesso total” à ilha por meio de um acordo em negociação, admitindo que a aquisição formal poderia não ocorrer. Ele declarou que qualquer cenário seria possível.
Os detalhes do acordo seguem pouco claros, assim como o papel do parlamento local da Groenlândia nas discussões. Essa indefinição alimenta preocupações entre aqueles com histórico de dominação colonial.
Para Brown e outros habitantes das Ilhas Virgens com laços ancestrais ao colonialismo dinamarquês, o debate despertou empatia pelos 57.000 moradores da ilha de 836.000 milhas quadradas, de clima extremo.
Ela questiona se os groenlandeses estão sendo incluídos nas decisões sobre políticas e presença militar. Segundo Brown, esse tipo de participação nunca foi oferecido aos habitantes das Ilhas Virgens no passado.
A maioria da população da Groenlândia é inuíte, povo indígena também presente no Alasca e no Canadá. A língua groenlandesa é distinta do dinamarquês, assim como suas tradições culturais.
Brown também expressou preocupação com possíveis efeitos de americanização, semelhantes aos que observa nas Ilhas Virgens, onde, segundo ela, influências midiáticas afetam a identidade cultural das crianças, um processo que ela descreve como apagamentto cultural gradual.
Ela afirmou esperar que esse tipo de impacto não se repita na Groenlândia, destacando o valor da identidade local diante de interesses estratégicos globais e decisões tomadas longe das comunidades diretamente envolvidas.
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