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A primeira prefeita do Brasil surgiu no sertão e colocou o país nos jornais do mundo

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado el 15/01/2026 a las 11:25
Actualizado el 15/01/2026 a las 11:54
Eleição de 1928 em Lajes levou Alzira Soriano a se tornar a primeira mulher prefeita do Brasil antes do voto feminino.
Eleição de 1928 em Lajes levou Alzira Soriano a se tornar a primeira mulher prefeita do Brasil antes do voto feminino.
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Em 1928, no município de Lajes, no interior do Rio Grande do Norte, Alzira Soriano tornou-se a primeira mulher eleita prefeita do Brasil, vencendo uma eleição municipal antes mesmo de o país reconhecer o direito de voto feminino, em um episódio que repercutiu internacionalmente

Em 1928, a eleição municipal de Lajes, no interior do Rio Grande do Norte, levou Alzira Soriano, 32 anos, à prefeitura, antes do voto feminino no país, com repercussão internacional e registro no The New York Times, evidenciando impactos políticos, jurídicos e sociais do pleito.

Uma eleição local que ganhou repercussão internacional

No dia 8 de setembro de 1928, uma notícia publicada na página 9 do The New York Times destacou um fato inusitado ocorrido no Brasil. O jornal registrou a vitória de Alzira Soriano em Lajes, município do interior potiguar, em um contexto no qual mulheres não tinham direito ao voto no país.

A repercussão chamou atenção porque a eleição ocorreu quatro anos antes da promulgação do Código Eleitoral de 1932, que instituiria o sufrágio feminino nacionalmente durante o governo de Getúlio Vargas. O episódio expôs um descompasso entre a legislação federal vigente e uma iniciativa estadual específica.

Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal de São Paulo, Antônio Sérgio Rocha, a eleição representou um desafio explícito ao marco jurídico da época. Ele define o feito como uma proeza em um período marcado por intensa misoginia e exclusão feminina da política.

A eleição de Alzira Soriano foi viabilizada por uma lei estadual que autorizava a participação política feminina no Rio Grande do Norte. A Lei Estadual 660, de 25 de outubro de 1927, permitia votar e ser votado sem distinção de sexo, conforme registro do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte.

O então governador José Augusto Bezerra de Medeiros justificou a sanção da lei com base na Constituição de 1891. Segundo ele, o texto constitucional se referia apenas a cidadãos, sem estabelecer diferenciação entre homens e mulheres quanto ao direito ao voto.

No mesmo ano da vigência da lei, a professora Celina Guimarães Viana, de Mossoró, requisitou seu título eleitoral, tornando-se oficialmente a primeira eleitora brasileira. Esse ato consolidou a aplicação prática da legislação potiguar no processo democrático local.

Posse de Alzira Soriano na prefeitura de Lajes, junto com seu secretariado

Trajetória pessoal, apoio político e campanha eleitoral

Luisa Alzira Teixeira Soriano integrava uma família rica e tradicional de Jardim dos Angicos, então distrito de Lajes. Casou-se jovem com o promotor pernambucano Thomaz Soriano, com quem teve três filhas. Ficou viúva aos 22 anos, após o marido morrer vítima da gripe espanhola.

Após a viuvez, Alzira retornou com as filhas à casa dos pais e passou a administrar a fazenda da família. Nesse período, começou a se interessar por política por intermédio do pai, um influente líder regional, experiência que ampliou seu contato com articulações locais.

A candidatura contou com apoio do governador Juvenal Lamartine, sucessor de Bezerra de Medeiros, e da líder feminista Bertha Lutz, que visitou o Rio Grande do Norte em 1928. O respaldo político foi decisivo na campanha.

O jornalista Rudolfo Lago, bisneto de Alzira, afirma que ela combinava firmeza e destemor, qualidades necessárias para administrar uma fazenda no sertão e enfrentar o ambiente político masculino. Ele define a eleição como um marco na emancipação política feminina no Brasil e na América Latina.

Resistência social, vitória nas urnas e exercício do mandato

Apesar do caráter histórico, a candidatura enfrentou críticas e ofensas pessoais em uma sociedade patriarcal. De acordo com o Dicionário Mulheres do Brasil, organizado por Schuma Schumaher, adversários associavam mulheres públicas à prostituição e questionavam a participação feminina na política.

Indicada pelo Partido Republicano, Alzira Soriano não recuou diante das pressões. Venceu a eleição com 60% dos votos válidos, superando Sérvulo Pires Neto Galvão. Após a derrota, o adversário abandonou a política e deixou a cidade, segundo registros da época.

Durante o mandato, Alzira precisou se impor em um ambiente político exclusivamente masculino. Lago afirma que o peso político da família contribuiu, mas ressalta que a personalidade forte foi determinante para conquistar respeito e conduzir a administração municipal.

Uma imagem simbólica citada pelo bisneto mostra a prefeita no dia da posse, em 1º de janeiro de 1929, cercada por um secretariado formado apenas por homens. A cena resume o contexto social e institucional enfrentado pela gestora recém-eleita.

Obras, renúncia após 1930 e retorno à política local

O mandato foi relativamente curto. Após a Revolução de 30, Alzira foi convidada a permanecer como interventora municipal pelo governo federal, mas optou por renunciar por discordar dos desdobramentos políticos e do governo Vargas, encerrando precocemente sua gestão.

Mesmo breve, o governo em Lajes ficou marcado por iniciativas concretas. Entre elas, a construção de escolas, obras de infraestrutura viária ligando a sede aos distritos e melhorias na iluminação pública a gás, conforme registros históricos locais.

Após a redemocratização do país em 1945, Alzira retornou à vida política. Elegeu-se vereadora em Lajes por três mandatos, mantendo participação ativa no legislativo municipal e consolidando sua trajetória institucional ao longo de décadas.

A jornalista e cientista política Deysi Cioccari define Alzira como imponente em uma época em que mulheres eram restritas ao espaço doméstico. Para ela, o desconhecimento da trajetória da prefeita revela a produção histórica do sexismo no poder político brasileiro.

O legado e a participação feminina mais de 90 anos depois

Mais de 90 anos após a eleição pioneira, a presença feminina no comando das prefeituras segue limitada. Embora mulheres representem 52,5% do eleitorado brasileiro, apenas 12,2% dos mais de 5,5 mil municípios elegeram prefeitas no primeiro turno das Eleições 2020, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.

Em 2016, o índice havia sido de 11,57%, indicando avanço tímido. Os dados ainda poderiam sofrer alteração após o segundo turno em 57 cidades, realizado em 29 de novembro. Em Lajes, o prefeito eleito foi Felipe Menezes (PP).

O município conta atualmente com 11,3 mil habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, afirmou que o país avança, embora em ritmo inferior ao necessário na inclusão feminina.

Para Antônio Sérgio Rocha, o sistema majoritário valoriza a persona pública do candidato, dificultando a eleição de mulheres sem amplo capital social e visibilidade. Cioccari acrescenta que a sub-representação afeta a formulação de políticas públicas voltadas às mulheres nos municípios.

Rudolfo Lago defende a ampliação do número de “Alziras” no país. Para ele, a participação feminina permanece muito abaixo da representação social brasileira, em um contexto atual que considera de retrocesos no respeito à diversidade, mantendo atual a relevância histórica da pioneira.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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