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A Suécia decidiu enterrar lixo nuclear a meio quilômetro de profundidade, gastar bilhões, selar tudo em rocha sólida e apostar que essa solução vai aguentar 100 mil anos sem ninguém nunca mais tocar nisso

Escrito por Bruno Teles
Publicado el 14/01/2026 a las 19:53
Lixo nuclear entra na fase mais profunda na Suécia: em Forsmark, a obra aposta em cápsulas de cobre e uma malha de túneis para isolar combustível irradiado por 100.000 anos.
Lixo nuclear entra na fase mais profunda na Suécia: em Forsmark, a obra aposta em cápsulas de cobre e uma malha de túneis para isolar combustível irradiado por 100.000 anos.
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A mais de 500 metros de profundidade, Forsmark, na Suécia, inicia escavações que vão virar 66 km de túneis, receber 6.000 cápsulas de cobre com combustível irradiado e selar lixo nuclear por 100.000 anos, numa obra de US$ 1 bilhão que só termina quando desaparecer do mapa oficial do país.

Em Forsmark, na Suécia, a decisão de enterrar lixo nuclear a mais de 500 metros de profundidade virou obra: uma rede de túneis está sendo aberta na rocha para guardar combustível irradiado por até 100.000 anos, com custo estimado de pouco mais de US$ 1 bilhão e um cronograma que atravessa gerações.

O plano nasce do velho impasse da energia nuclear desde as primeiras usinas regulares da década de 1950: hoje, essa fonte responde por cerca de 10% da eletricidade mundial, produzida por mais de 400 usinas, mas ainda depende de soluções temporárias para o material de alta atividade, aquele que continua altamente radioativo por centenas de milhares de anos.

O problema que não cabe em piscinas nem em promessas

Lixo nuclear entra na fase mais profunda na Suécia: em Forsmark, a obra aposta em cápsulas de cobre e uma malha de túneis para isolar combustível irradiado por 100.000 anos.

A discussão sobre lixo nuclear começa pela escala do tempo, não pela escala do volume.

Os resíduos de baixa atividade, que somam cerca de 95% do volume total produzido, incluem roupas contaminadas, ferramentas, materiais de limpeza e equipamentos médicos.

Em geral, esse material fica radioativo por períodos menores e costuma ser destinado a instalações de descarte próximas à superfície por algumas centenas de anos.

Os resíduos de atividade intermediária, cerca de 4% do total, reúnem principalmente filtros usados e componentes de reatores.

Eles são mais radioativos, mas não geram calor suficiente para exigir resfriamento.

Dependendo de por quanto tempo permanecem radioativos, podem seguir para locais de descarte mais profundos ou compartilhar estruturas com os resíduos de baixa atividade.

O nó está no último grupo: os resíduos de alta atividade, cerca de 1% do lixo nuclear mundial, compostos em grande parte por combustível irradiado.

Mesmo quando as barras deixam de ser eficientes para uso nos reatores, elas não deixam de ser perigosas.

O combustível irradiado pode permanecer altamente radioativo por até centenas de milhares de anos, exigindo manuseio cuidadoso, blindagem e estratégia de longo prazo.

O que existe hoje: contenção temporária e vigilância constante

Lixo nuclear entra na fase mais profunda na Suécia: em Forsmark, a obra aposta em cápsulas de cobre e uma malha de túneis para isolar combustível irradiado por 100.000 anos.

A rotina mais comum começa dentro das próprias usinas nucleares.

O combustível irradiado vai para piscinas projetadas especificamente para isso, onde a água funciona como escudo contra radiação e como método de resfriamento.

Depois, o material pode ser transferido para o chamado armazenamento em barril seco, recipientes grandes e espessos de aço e concreto que isolam o conteúdo do ambiente.

O problema é que, mesmo quando o resfriamento inicial termina, o sistema ainda depende de monitoramento e manutenção.

Piscinas precisam de circulação e controle de temperatura para evitar evaporação. Sem água, barras de combustível radioativo podem superaquecer e derreter, liberando material radioativo.

O exemplo citado para esse risco é Fukushima, em 2011, quando terremoto e tsunami danificaram sistemas de refrigeração, levaram à degradação catastrófica dos núcleos e a explosões de hidrogênio que liberaram material radioativo no meio ambiente.

Por isso, a promessa de Forsmark, na Suécia, não é só construir, mas substituir o “curto prazo” por uma lógica de isolamento que tente dispensar o ser humano como guardião permanente do lixo nuclear.

Por que Forsmark virou o endereço do risco de 100.000 anos

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O repositório de Forsmark foi desenhado para ser um depósito final e permanente para combustível irradiado, capaz de manter lixo nuclear de alta atividade fora do alcance do ambiente por até 100.000 anos.

O local fica ao lado da Central Nuclear de Forsmark e também próximo ao SFR, o depósito final sueco para resíduos de baixa e média atividade, o que concentra a logística em uma região.

A escolha do subsolo de Forsmark, na Suécia, se apoia em três argumentos técnicos apresentados no projeto. Primeiro, a estabilidade geológica e a baixíssima atividade sísmica.

Segundo, um leito rochoso com poucas ou nenhuma zona de fratura conhecida.

Terceiro, a idade e a estabilidade da rocha, descrita como formada há quase dois bilhões de anos, permanecendo praticamente estável desde então.

A lógica é direta: se o maciço rochoso resistiu por eras, ele pode ser a última barreira para o lixo nuclear.

A geometria subterrânea: rampa de 5 km e uma cidade de túneis

Acima do solo, a instalação parece “comum” para um canteiro de grande obra: depósito para terra e rocha escavadas, edifícios para equipes e equipamentos.

O que muda está embaixo.

A partir da superfície em Forsmark, na Suécia, o projeto prevê uma rampa sinuosa de cinco quilômetros descendo até uma profundidade máxima de 500 metros.

Dessa via principal, nasce a parte que define a escala: uma rede de túneis ramificados que pode somar até 66 quilômetros, espalhada por uma área de 3 a 4 quilômetros quadrados.

Esses túneis são o destino final do lixo nuclear mais perigoso do país, o combustível irradiado que hoje fica em armazenamento temporário.

A engenharia foi pensada para reduzir intervenções diretas: cada cápsula terá seu próprio orifício de deposição vertical no piso do túnel, e a movimentação é descrita como feita remotamente, com veículos desenvolvidos para minimizar exposição humana.

6.000 cápsulas de cobre e a matemática do combustível irradiado

O número que dá forma ao repositório de Forsmark é 6.000. Esse é o total de contêineres de cobre previstos, cada um com cerca de 2 toneladas de combustível irradiado.

A combinação de quantidade e massa explica por que a obra é planejada como um sistema industrial subterrâneo, não como um “cofre” isolado.

As cápsulas são descritas como recipientes de cobre com cinco metros de comprimento e um metro de diâmetro, com revestimento externo de cobre de cinco centímetros de espessura, projetado para resistir à corrosão e às forças mecânicas de movimentos do subsolo.

Dentro do cobre, entra um inserto de ferro fundido, responsável por manter o combustível irradiado firmemente no lugar.

A logística começa antes do cobre.

Após ser usado em uma usina, o combustível irradiado é transportado por navio até a instalação conhecida como Clab, ao lado de usinas nucleares operacionais em Oskarshamn, onde todo o combustível irradiado sueco fica armazenado temporariamente.

A permanência ali é estimada em 30 a 40 anos, período citado para que a radiação se degrade gradualmente antes da etapa de encapsulamento e envio para Forsmark, na Suécia.

KBS-3 em três barreiras: cobre, bentonita e rocha

O método base do repositório de Forsmark é chamado de KBS-3, técnica desenvolvida pela SKB para descarte permanente de resíduos de alta atividade.

A ideia central é replicar, de forma controlada, condições em que materiais radioativos existem naturalmente na crosta terrestre sem contato com humanos por tempos muito longos: enterrados profundamente, em rocha estável, longe do ambiente.

O sistema foi descrito como uma sequência de três barreiras.

A primeira é a cápsula de cobre. Após o inserto ser montado, a vedação é feita com uma técnica chamada soldagem por fricção.

Em seguida, a junta de solda é inspecionada para identificar rachaduras e fragilidades que poderiam comprometer a vedação. Encapsulado, o conjunto segue para Forsmark.

A segunda barreira é um tampão de argila bentonítica, apresentada como absorvente de água e comparada à substância usada em areia para gatos por sua capacidade de formar torrões.

Na função técnica, a bentonita serve para impedir fluxo de água dentro e fora do recipiente.

Quando exposta à água, ela se expande e torna o orifício de deposição mais justo.

A terceira barreira é a própria rocha. Enterrado a 500 metros no subsolo de Forsmark, na Suécia, o lixo nuclear fica sob rocha geologicamente estável e, segundo o desenho, isolada do ambiente externo.

À medida que as cápsulas entram, o túnel é selado com concreto e argila bentonítica. No fim, a rede de túneis ficaria preenchida e selada, como se nunca tivesse existido.

Cronograma, custo e escala: de 2009 ao ano de 2080

O repositório de combustível irradiado de Forsmark é atribuído à SKB, empresa criada pela indústria nuclear sueca para gerir e descartar resíduos.

O projeto foi proposto inicialmente em 2009 e, após mais de uma década de pesquisa e planejamento, foi aprovado em 2024.

A construção começou em janeiro de 2025, com custo estimado de pouco mais de US$ 1 bilhão.

A sequência de obra citada prioriza estruturas acima do solo antes da escavação total da rede subterrânea.

A estimativa é que o repositório possa armazenar seus primeiros contêineres de cobre até o fim da década de 2030, conforme os primeiros túneis ficarem prontos, enquanto outros túneis continuariam sendo escavados mesmo com a operação iniciada.

A linha do tempo é assumidamente longa.

O preenchimento total do sistema é previsto para 2080. Até lá, a escavação total projetada é de 2,3 milhões de metros cúbicos de rocha e solo, um volume que ajuda a explicar por que o “fim” do projeto não se mede em inauguração, mas em saturação e selamento.

Onde o plano pode atrasar: corrosão, recurso judicial e o peso do improvável

Mesmo com a construção iniciada, o plano de Forsmark, na Suécia, não é descrito como unanimidade. Um estudo do Instituto Real de Tecnologia da Suécia é citado apontando que as cápsulas de cobre, pensadas para resistir à corrosão, poderiam ser mais vulneráveis do que se imaginava.

Além disso, uma ONG sueca entrou com recurso judicial pedindo avaliações de segurança mais rigorosas, com potencial de adiar o projeto por mais alguns anos.

Essas fricções mostram o ponto sensível de qualquer solução para lixo nuclear: não basta que o método funcione em condições normais.

Ele precisa resistir a incertezas de materiais, a mudanças graduais no subsolo e a decisões regulatórias, sem depender de manutenção humana constante.

É justamente essa dependência, típica de piscinas e estruturas temporárias, que o projeto de Forsmark tenta reduzir ao mínimo.

O que fica depois: um local que só “termina” quando some

O desenho final do repositório é quase paradoxal.

Depois de depositar as 6.000 cápsulas de cobre e selar os túneis, o plano prevê que as instalações de superfície sejam demolidas e que o lugar seja propositalmente deixado sem identificação.

A instalação só estaria realmente concluída quando deixasse de existir como obra visível.

Para Forsmark, na Suécia, isso significa transformar um canteiro bilionário num ponto indistinto, enquanto o lixo nuclear permaneceria abaixo, trancado por cobre, bentonita e rocha.

A comparação inevitável: Finlândia e o mesmo caminho

O relato coloca Forsmark como um dos primeiros projetos de depósito final e permanente para combustível irradiado.

A única outra instalação citada como equivalente é Onkalo, na Finlândia, planejada para entrar em operação em algum momento do ano seguinte ao cronograma mencionado, usando a mesma tecnologia e técnicas do modelo de Forsmark.

A existência de dois projetos semelhantes sugere um padrão de engenharia que pode ser replicado, desde que o pré-requisito geológico exista.

Ainda assim, o próprio cronograma e as disputas técnicas lembram que, no mundo real, a solução para lixo nuclear não é um evento, é um processo.

O dilema que não acaba com a escavação

Forsmark, na Suécia, tenta encerrar um capítulo que a energia nuclear abriu nos anos 1950 e nunca fechou de verdade: onde deixar o combustível irradiado quando ele ainda é perigoso por tempos que ultrapassam qualquer ciclo político, industrial ou humano.

A aposta é que túneis profundos, cápsulas de cobre e selamento em rocha consigam fazer o que piscinas e barris secos não conseguem prometer sem vigilância.

Se a Suécia está certa, o lixo nuclear vai virar um problema enterrado, não um problema administrado dia após dia. Se estiver errada, o erro pode ser lento, invisível e caro para corrigir.

Você confiaria seu futuro a um sistema selado em Forsmark, na Suécia, por 100.000 anos, ou acha que lixo nuclear ainda exige alternativas antes de ser trancado para sempre?

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