No Himalaia, caçadores Gurung escalam penhascos de 90 metros para colher o mel mais raro do mundo. A tradição envolve risco extremo, abelhas gigantes e um ritual ancestral único
Existem histórias que ultrapassam o limite do imaginável e mostram como a tradição, a coragem e a necessidade moldam a vida de povos inteiros. No Himalaia, no Nepal, uma dessas histórias continua viva: a dos caçadores Gurung, que escalam penhascos de até 90 metros para colher o mel selvagem produzido por abelhas gigantes. A cena parece saída de um documentário épico, mas é realidade, e continua acontecendo porque essa prática ancestral ainda sustenta famílias inteiras e mantém viva uma cultura milenar.
A coleta do “mad honey”, como ficou conhecido no Ocidente, é acompanhada por câmeras da National Geographic, pesquisadores de universidades asiáticas e, nos últimos anos, por documentaristas que buscam entender por que, mesmo diante do risco extremo, os Gurung continuam subindo em escadas improvisadas para alcançar colmeias que só podem ser acessadas à beira de abismos.
Este artigo aprofunda os detalhes desse ritual, os perigos extremos envolvidos e o fascínio mundial em torno de um mel que, apesar de raro, carrega um valor cultural e econômico que poucos alimentos no mundo possuem.
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A tradição que desafia a gravidade e o bom senso
No coração da região de Kaski, os Gurung se reúnem duas vezes ao ano para uma das tarefas mais perigosas que um ser humano pode executar. O ritual começa antes do amanhecer, quando os moradores locais caminham até as encostas íngremes onde vivem as colmeias da Apis laboriosa, a maior espécie de abelha do mundo, capaz de medir mais de 3 centímetros.
As colmeias ficam penduradas em falésias que parecem inacessíveis. Para chegar até elas, os caçadores montam uma escada de corda feita à mão, presa por estacas de madeira fincadas no topo do penhasco. Enquanto um único homem desce lentamente, equilibrando-se no vazio, outros ficam em terra firme queimando ervas para acalmar as abelhas. Apesar disso, o ataque é inevitável. Os caçadores são ferroados dezenas de vezes antes de atingir a primeira colmeia.

A cena mais impressionante, registrada em expedições da National Geographic, mostra o líder da caçada pendurado sobre um penhasco de 90 metros, golpeando a colmeia com um longo bastão até que enormes blocos de mel caiam em cestos improvisados. Não há segurança, não há equipamentos profissionais, não há garantias. O que existe é uma tradição transmitida por gerações, que reforça o respeito profundo que esse povo tem pela montanha e pela abelha.
Segundo pesquisadores locais, essa prática existe há séculos e simboliza não apenas uma fonte de renda, mas um elo cultural que une a comunidade e reforça a identidade dos Gurung.
O mel alucinógeno que conquistou o mundo
A fama internacional do “mad honey” começou quando viajantes europeus e cientistas descobriram que esse mel possui propriedades alucinógenas leves. Isso ocorre porque as flores consumidas pelas abelhas gigantes, especialmente o rododendro, contêm grayanotoxinas — substâncias que podem causar efeitos curiosos no corpo humano, desde calor intenso até alterações sensoriais.
No entanto, a mesma toxina que atrai curiosos também pode colocar vidas em risco. Em excesso, o “mad honey” pode provocar queda brusca de pressão, vômitos, tontura e até desmaios. Por isso, os Gurung consomem pequenas quantidades em rituais ou como remédio natural para dores, insônia e problemas de circulação.

No mercado negro asiático, esse mel raro pode alcançar valores muito altos, o que atrai comerciantes, fotógrafos e aventureiros — mas também gera controvérsia. Em 2016, pesquisadores da Universidade Tribhuvan, no Nepal, alertaram para a redução do número de colmeias devido à exploração comercial e às mudanças climáticas na região.
Para os Gurung, porém, a coleta não é um negócio moderno. É um ritual que envolve respeito à natureza e ao equilíbrio delicado entre risco e sobrevivência. Eles insistem que só retiram o necessário e deixam parte das colmeias intacta para garantir o ciclo natural.
O futuro incerto de uma tradição milenar nas montanhas do Nepal
Embora o interesse global tenha aumentado, a existência desse ritual está ameaçada. Reportagens da BBC e de veículos asiáticos destacam que muitos jovens Gurung preferem deixar as aldeias e buscar oportunidades nas cidades, o que reduz o número de homens experientes capazes de realizar a coleta com segurança.
Além disso, as abelhas gigantes enfrentam redução de habitat devido ao aquecimento global, ao desmatamento e ao uso crescente de pesticidas nas regiões mais baixas do Nepal. Ambientalistas temem que, em algumas décadas, a espécie se torne ainda mais difícil de encontrar, colocando fim à produção do mel mais raro do Himalaia.

Mesmo assim, os mais velhos continuam tentando manter viva a tradição. Eles organizam caminhadas coletivas, ensinam as técnicas aos jovens e reforçam que esse ritual é parte essencial da identidade Gurung. Para eles, abandonar a coleta de mel seria como romper com os próprios ancestrais.
Enquanto isso, pesquisadores, documentaristas e turistas continuam viajando ao Nepal para registrar essa prática única. Todos chegam com a mesma sensação: o que os Gurung fazem desafia a lógica, a física e os limites do corpo humano. Mas, para eles, tudo isso é apenas parte de um modo de vida passado de geração em geração.
No fim das contas, a caçada ao mel selvagem não é apenas uma aventura extrema. É um retrato vivo de um povo que resiste, de uma tradição que insiste em sobreviver e de um mel que, mesmo raro e perigoso, carrega histórias que o mundo não consegue ignorar.
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