Plantadas para conter dunas desde 1845, acácias australianas viraram um “ladrão de água” na África do Sul e hoje consomem 3,3 bilhões de m³ por ano.
A África do Sul recebe, em média, 464 milímetros de chuva por ano. É menos da metade da média global. Em doze das suas maiores cidades, o fornecimento de água já é classificado como crítico em pelo menos um trimestre por ano. Mais de 12 milhões de sul-africanos não têm acesso a água corrente.
Diante desse cenário, o dado que segue é difícil de absorver: um conjunto de árvores plantadas intencionalmente pelo próprio governo drena, por ano, mais água do que toda a capacidade de armazenamento do maior reservatório da Cidade do Cabo.
O que veio da Austrália com boas intenções
Em 1845, a administração colonial do Cabo começou a introduzir acácias australianas — em especial a Port Jackson (Acacia saligna) e a rooikrans (Acacia cyclops) — no litoral da Província do Cabo. O objetivo era resolver um problema prático e urgente: as dunas costeiras avançavam sobre estradas, fazendas e infraestrutura.
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As acácias australianas tinham tudo o que se procurava. Cresciam rápido, toleravam solo arenoso e seco, suas raízes fixavam nitrogênio e estabilizavam encostas. Por volta de 1875, as sementes já eram espalhadas diretamente sobre as dunas, misturadas a resíduos orgânicos da cidade para preparar o substrato. Em 1848, a Port Jackson havia sido oficialmente adotada como espécie padrão de estabilização costeira em toda a região.
Naquele mesmo período, uma segunda espécie australiana chegou por razões econômicas. O wattle-negro (Acacia mearnsii) foi introduzido em 1864 pela indústria coureiro-curtidora: sua casca contém concentrações excepcionais de tanino, composto essencial no beneficiamento de couro. O governo sul-africano desenvolveu plantações comerciais ao longo de décadas, e o tanino de wattle-negro tornou-se um dos principais produtos de exportação do país.
Dezesseis espécies de acácias australianas foram introduzidas na África do Sul ao longo do século XIX e início do XX. Nenhuma com intenção de causar dano. Todas com propósito documentado: dunas, estabilização de solo, tanino, lenha, ornamentação.
A propriedade que ninguém considerou
Acácias australianas crescem rápido porque transpiram muito. Em ambientes onde os recursos hídricos são abundantes — como acontece na Austrália, onde a maioria das espécies é nativa de regiões com chuvas regulares — essa característica é neutra. Na África do Sul, onde cada milímetro de chuva precisa ser retido no solo e convertido em escoamento superficial para os rios e reservatórios, o efeito é outro.
Um estudo publicado no South African Journal of Science mediu as taxas de evapotranspiração de densas manchas de wattle-negro em zonas ripárias da Província do Cabo e de KwaZulu-Natal. Os resultados mostraram que infestações consolidadas em margens de rios podem evaporar mais de 1.500 milímetros de água por ano — um valor comparável ao de florestas tropicais úmidas. A vegetação nativa de fynbos que elas substituem evapora uma fração disso.

A diferença não é pequena. Em termos práticos, cada hectare de acácia invasora em zona ripária consome entre duas e cinco vezes mais água do que os arbustos e gramíneas nativos que ocupavam aquele espaço antes.
Multiplicado por 10 milhões de hectares invadidos — a estimativa oficial do governo sul-africano para a extensão total da invasão no território nacional —, o resultado é 3,3 bilhões de metros cúbicos de água consumidos anualmente acima do que seria consumido pela vegetação nativa. O equivalente a 7% de todo o escoamento hídrico do país.
O banco de sementes que não desaparece
O problema hídrico seria grave suficiente por si só. O que torna o caso das acácias sul-africanas particularmente difícil de resolver é a biologia da reprodução dessas plantas.
O wattle-negro produz centenas de sementes por temporada. As sementes têm tegumento endurecido — uma camada protetora que pode permanecer viável no solo por décadas. Uma única árvore adulta cria, ao longo de sua vida, um banco de sementes no solo capaz de regenerar a infestação durante 20 a 30 anos após a remoção da planta.

A Port Jackson e a rooikrans têm comportamento semelhante. E todas as espécies rebrota vigorosamente a partir das raízes quando cortadas, produzindo múltiplos galhos novos antes que o sistema radicular seja eliminado.
O resultado prático é que a remoção mecânica sem tratamento químico complementar frequentemente não elimina a planta — apenas a rejuvenesce. Hectares limpos podem ser reinfestados em dois a três anos a partir do banco de sementes já existente no solo.
30 anos de limpeza, problema ainda maior
Em 1995, o governo sul-africano lançou o programa Working for Water — hoje considerado um dos maiores programas de controle de espécies invasoras do mundo e referência internacional em gestão de recursos hídricos.
O programa foi desenhado com duplo objetivo: remover as plantas invasoras e gerar emprego em regiões com alto desemprego. Desde então, o Working for Water operou em mais de 300 projetos, distribuídos pelas nove províncias do país.

Os números acumulados são expressivos. Mais de 2,5 milhões de hectares submetidos à limpeza inicial. Mais de 300.000 pessoas contratadas ao longo de três décadas. Aproximadamente R$ 310 milhões por ano (em valores de 2020) investidos pelo governo federal — cerca de R$ 100 milhões de dólares americanos anuais ao longo de 22 anos de dados analisados em estudo publicado na revista Biological Conservation em 2022.
Na Cidade do Cabo, a limpeza de 46.000 hectares de invasoras nas bacias dos três principais reservatórios da cidade, concluída em 2023, recuperou 15,2 bilhões de litros de água por ano — o equivalente a duas semanas de abastecimento para os 5 milhões de habitantes da região. A própria prefeitura comprometeu R$ 75 milhões adicionais em 2023 para continuar o trabalho. A meta do programa local é evitar a perda de até 100 bilhões de litros por ano até 2050.
O que os dados nacionais revelam
Apesar do volume de recursos e do escopo do programa, levantamentos nacionais da área total infestada indicam que as invasoras continuaram se expandindo.
Um estudo abrangente publicado na Biological Conservation em 2022, com dados de 1998 a 2020, concluiu que o Working for Water cobriu com limpeza inicial cerca de 14% da área estimada como invadida — e que parte significativa dessas operações não foi realizada nas áreas prioritárias para conservação de água e biodiversidade.
O problema, como resume o estudo, é grande demais para ser controlado em todo o território ao mesmo tempo. A escala da invasão supera a capacidade operacional disponível.
O fynbos que está em jogo
A região mais afetada pelas acácias invasoras na África do Sul não é qualquer paisagem genérica. É o fynbos — o bioma de vegetação arbustiva mediterrânea que cobre as encostas e planícies costeiras da Província do Cabo e que concentra mais de 20% de toda a diversidade vegetal do continente africano.
Aproximadamente 70% das plantas do fynbos são endêmicas — não existem em nenhum outro lugar da Terra. A região abriga mais espécies de plantas do que toda a Europa. Em 1995, foi declarada um dos 25 hotspots de biodiversidade do planeta.
As acácias australianas transformam o fynbos por dois mecanismos simultâneos. Primeiro, pela competição direta: crescem mais rápido e mais alto que os arbustos nativos, bloqueiam a luz e formam monoculturas densas onde antes existia diversidade. Segundo, pela química do solo: o wattle-negro, como leguminosa fixadora de nitrogênio, enriquece o solo com nitrogênio em concentrações que o fynbos — adaptado evolutivamente a solos pobres — não suporta. A mudança química favorece plantas oportunistas e prejudica as espécies nativas raras.
Há ainda um terceiro mecanismo, documentado pela Universidade da Cidade do Cabo: as acácias aumentam em até 60% a carga de combustível do fynbos invadido. Nos incêndios do Cabo em março de 2015, todas as propriedades que sofreram danos severos estavam adjacentes a manchas de invasoras. Após os incêndios de 2000 na Península do Cabo, a erosão do solo em áreas de pinheiros foi 60 vezes maior do que nas áreas adjacentes de fynbos nativo.
Limpar é necessário. Suficiente, não é.
O Working for Water é hoje considerado modelo internacional e recebeu mais de 100 prêmios globais. Criou centenas de milhares de empregos, priorizou mulheres e jovens desempregados, e demonstrou que remoção de invasoras pode gerar retorno econômico mensurável em escala de anos.
Mas os próprios pesquisadores que avaliaram o programa em 2022 recomendam o que chamam de triagem de conservação: concentrar os recursos nas áreas de maior prioridade para água e biodiversidade, melhorar o monitoramento pós-limpeza e aumentar a eficiência operacional. Porque o banco de sementes persiste no solo, a manutenção das áreas limpas exige intervenções repetidas — e cada hectare limpo que não recebe seguimento é um hectare que pode ser reinfestado antes do próximo ciclo de limpeza.
Em 1845, as acácias australianas chegaram à África do Sul como ferramentas. Duzentos e oitenta anos depois, o país com menos da metade da chuva média do planeta paga bilhões para desfazer o trabalho que parecia, à época, inteiramente razoável.
Pelo mundo afora a questão de se tentar recuperar um biomassa, reverter traumas ambientais ou construir um novo ambiente na tentativa de de conter o avanço de desertificação, por e emplo, usando a tática de plantio de vegetação ecotica aos mesmos tem levado a problemas de criação de situação de mudanças radicais e prejudiciais tais como o exposto nessa narrativa da África do Sul. Cito situação semelhante na China.