Admiral Nakhimov: cruzador nuclear de 252 metros volta ao mar após 28 anos e se torna o navio de superfície mais armado da Rússia
O cruzador nuclear Admiral Nakhimov, um dos maiores navios de guerra já construídos, deixou o estaleiro de Severodvinsk, no Mar Branco, em 18 de agosto de 2025. Quem assistiu à saída viu um gigante cinza deslizando lentamente para fora do dique seco: 252 metros de comprimento, superestruturas cobertas de antenas e radares e dois reatores nucleares que estavam parados desde o fim dos anos 1990. Era o Admiral Nakhimov, da poderosa classe Kirov, voltando ao mar após quase três décadas de modernização, tornando-se novamente um dos navios de superfície mais poderosos já colocados em operação.
Classe Kirov: os maiores cruzadores nucleares de guerra já construídos
A classe Kirov, designação oficial russa Projeto 1144 Orlan — palavra que pode ser traduzida como “águia do mar” — representa um tipo de navio praticamente único na história naval moderna.
Com cerca de 28.000 toneladas de deslocamento em plena carga e 252 metros de comprimento, esses navios superam qualquer cruzador ou destróier atualmente em operação no mundo. Eles são menores apenas que porta-aviões, mas maiores que qualquer outro tipo de navio de combate de superfície.
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Analistas militares ocidentais passaram a classificá-los como “cruzadores de batalha”, pois as categorias tradicionais de cruzadores e destróieres não descrevem adequadamente o tamanho e a capacidade dessas embarcações.
Para efeito de comparação, o Arleigh Burke, o destróier mais numeroso da Marinha dos Estados Unidos, desloca cerca de 9.700 toneladas. O Admiral Nakhimov tem quase três vezes esse peso.
Propulsão nuclear permite operação quase ilimitada no mar
Uma das características mais impressionantes do Admiral Nakhimov é seu sistema de propulsão nuclear. O navio utiliza dois reatores nucleares de aproximadamente 150 megawatts cada, capazes de gerar energia equivalente ao consumo elétrico de uma cidade com cerca de 150 mil habitantes.
Graças a essa propulsão, o cruzador pode permanecer no mar por períodos extremamente longos sem necessidade de reabastecimento de combustível. Na prática, o limite operacional deixa de ser a autonomia energética e passa a depender apenas de fatores logísticos como mantimentos da tripulação e ciclos de manutenção.
Essa característica faz dos navios da classe Kirov algumas das embarcações de superfície com maior autonomia estratégica já construídas.
A origem soviética do Admiral Nakhimov
O Admiral Nakhimov foi construído no histórico Estaleiro do Báltico, em Leningrado — hoje São Petersburgo. O navio foi lançado ao mar em 1986 e oficialmente incorporado à Marinha Soviética em 1988, inicialmente com o nome Kalinin, em homenagem a um importante líder político da União Soviética.
Com o fim da União Soviética em 1991, o navio foi renomeado Admiral Nakhimov, em homenagem ao almirante Pavel Nakhimov, herói naval da Guerra da Crimeia no século XIX.
Durante os últimos anos da era soviética, o cruzador operou em missões no Ártico e no Mediterrâneo, representando um dos principais símbolos do poder naval soviético.
A crise econômica russa nos anos 1990 e o abandono do navio
Após o colapso da União Soviética, a Rússia entrou em uma profunda crise econômica durante a década de 1990. Manter uma frota de navios nucleares de grande porte tornou-se extremamente caro para o novo governo russo. Como resultado, muitos projetos militares foram suspensos ou drasticamente reduzidos.
Em julho de 1997, o Admiral Nakhimov realizou seu último cruzeiro independente.
Dois anos depois, em 1999, o navio foi rebocado para o estaleiro Sevmash, em Severodvinsk, para passar por uma modernização planejada. A reforma deveria durar poucos anos. Mas o navio permaneceria parado ali por mais de duas décadas.
O cruzador nuclear ficou mais de 25 anos parado no estaleiro
Enquanto o Admiral Nakhimov permanecia parado no estaleiro, a Rússia debatia o que fazer com a embarcação.
Sucatear o navio era politicamente sensível, já que ele representava um dos símbolos da capacidade naval soviética. Ao mesmo tempo, modernizar um cruzador nuclear daquela escala exigia investimentos gigantescos.
Em 2006, o governo russo tomou a decisão oficial de modernizar o navio. Porém, os recursos financeiros começaram a chegar de forma consistente apenas em 2013, quando a Sevmash assinou um contrato formal com o Ministério da Defesa russo.
Desde então, as previsões de entrega foram sucessivamente adiadas. O cronograma original previa conclusão em 2018. Depois passou para 2021, posteriormente 2023, depois 2024 e finalmente 2025.
Durante esse período, analistas ucranianos passaram a chamar o projeto de “sucata flutuante de 200 bilhões de rublos”, criticando o custo da modernização em meio às tensões militares com a Ucrânia. Apesar das críticas, a Marinha russa decidiu continuar o programa.
O Admiral Nakhimov modernizado que voltou ao mar em 2025
O navio que saiu do estaleiro em 2025 é muito diferente do cruzador que entrou em reforma no final dos anos 1990. Grande parte do armamento original foi substituída por sistemas mais modernos.
Os antigos 20 mísseis antinavio P-700 Granit, desenvolvidos na década de 1980, foram removidos. No lugar foram instaladas 80 células de lançamento vertical do sistema universal UKSK 3S14, o mesmo utilizado nas modernas fragatas russas da classe Almirante Gorshkov.

Essas células podem lançar diferentes tipos de mísseis, incluindo o Kalibr, utilizado para ataques de longo alcance contra alvos terrestres, o Oniks, um míssil antinavio supersônico, e o Zircon, considerado um míssil hipersônico de nova geração.
Mísseis hipersônicos Zircon aumentam o poder ofensivo do cruzador
Entre os armamentos instalados no Admiral Nakhimov, o míssil Zircon é considerado o mais relevante estrategicamente. Esse míssil hipersônico pode atingir velocidades próximas de Mach 8 e possui alcance estimado em cerca de 1.000 quilômetros.
Analistas militares americanos afirmam que, devido à velocidade e ao perfil de voo, interceptar esse tipo de míssil com sistemas de defesa aérea convencionais continua sendo um desafio tecnológico significativo.
A presença desse armamento transforma o cruzador em uma plataforma de ataque de longo alcance capaz de atingir alvos navais ou terrestres a grande distância.
Sistema de defesa aérea baseado no S-400 e Pantsir-M
Além do armamento ofensivo, o Admiral Nakhimov recebeu um conjunto moderno de sistemas de defesa. Entre eles está uma versão naval do S-400, o sistema russo de defesa aérea utilizado em terra para proteger áreas estratégicas como Moscou.
O navio também recebeu o sistema Pantsir-M, projetado para interceptar mísseis de cruzeiro, drones e aeronaves em aproximação final. Para combate a submarinos, o cruzador foi equipado com o complexo Paket-NK, enquanto o antigo canhão duplo AK-130 foi substituído pelo AK-192M, uma versão mais moderna do mesmo calibre de 130 milímetros.
O número que define o poder de fogo do Admiral Nakhimov
O dado mais impressionante da modernização do navio é o número total de células de lançamento vertical instaladas. Somando os sistemas de ataque e defesa aérea, o cruzador possui cerca de 174 células de lançamento vertical.
Para comparação, o destróier chinês Type 055, considerado um dos navios mais avançados do mundo em sua categoria, possui 112 células. O destróier americano Arleigh Burke possui entre 90 e 96 células, enquanto o cruzador americano Ticonderoga, que está sendo gradualmente aposentado, possui cerca de 122 células. Nesse aspecto, o Admiral Nakhimov supera todos eles em capacidade de lançamento de mísseis.
O custo da modernização do cruzador nuclear
Estimativas de analistas ocidentais apontam que o custo total da modernização do Admiral Nakhimov pode ter ficado entre 4 e 5 bilhões de dólares. Esse valor é superior ao custo original de construção do navio quando ajustado pela inflação.
Uma parte significativa desse custo foi causada pelas sanções impostas à Rússia após a anexação da Crimeia em 2014, que limitaram o acesso do país a componentes eletrônicos ocidentais e obrigaram a indústria russa a desenvolver substitutos nacionais.
O projeto acabou levando cerca de 11 anos de trabalho efetivo no estaleiro, com atrasos provocados por renegociações de contrato, mudanças no escopo da modernização e restrições orçamentárias relacionadas ao conflito na Ucrânia.
O futuro do cruzador Pyotr Velikiy
Com o retorno do Admiral Nakhimov, o futuro do outro grande cruzador da classe Kirov, o Pyotr Velikiy (“Pedro, o Grande”), tornou-se incerto.
Dos quatro navios originalmente construídos nessa classe, dois já foram desmontados: o Admiral Ushakov e o Admiral Lazarev. O Pyotr Velikiy ainda opera como navio capitânia da Frota do Norte, mas utiliza sistemas militares baseados em tecnologia soviética dos anos 1990.
Com o Nakhimov modernizado, analistas acreditam que o Pyotr Velikiy poderá ser desativado, já que a Rússia dificilmente teria orçamento para manter dois cruzadores nucleares desse porte simultaneamente.
O papel estratégico do Admiral Nakhimov no século XXI
O retorno do Admiral Nakhimov reacendeu um debate entre analistas militares sobre o papel de navios gigantes no século XXI. Por um lado, o cruzador possui enorme poder de fogo, autonomia quase ilimitada e capacidade de lançar mísseis de longo alcance a grandes distâncias.
Por outro lado, conflitos recentes demonstraram que grandes navios de superfície podem ser vulneráveis a ataques modernos. Um exemplo citado frequentemente é o cruzador Moskva, afundado em abril de 2022 por mísseis ucranianos Neptuno durante a guerra no Mar Negro.
Diante desse cenário, muitos analistas acreditam que o Admiral Nakhimov será utilizado principalmente como uma plataforma de lançamento de mísseis de longo alcance, operando a grande distância das zonas de combate direto.
O retorno de um gigante da Guerra Fria
O almirante Pavel Nakhimov, cujo nome batiza o navio, ficou famoso por destruir a frota otomana na Batalha de Sinope em 1853, utilizando artilharia de maior alcance do que seus adversários esperavam. O cruzador nuclear que leva seu nome segue o mesmo princípio estratégico: atingir o inimigo a longa distância antes que ele consiga responder.
Se essa lógica naval, herdada do século XIX, continuará válida no ambiente tecnológico e militar do século XXI, será algo que apenas os próximos anos de operação do Admiral Nakhimov poderão responder.

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