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Agro movimenta R$ 2,7 trilhões em 2024, mas bancos ficam com a maior parte: veja por que o setor está prestes a virar sua própria infraestrutura financeira

Escrito por Carla Teles
Publicado el 03/12/2025 a las 23:41
Agro movimenta R$ 2,7 trilhões em 2024, mas bancos ficam com a maior parte: veja por que o setor está prestes a virar sua própria infraestrutura financeira
Agro e agronegócio brasileiro criam infraestrutura financeira com crédito rural e fintechs do agro para reduzir a força dos bancos sobre o setor.
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Enquanto o agro sustenta quase um quarto do PIB brasileiro, boa parte do dinheiro não fica no campo e é capturada pelos bancos e intermediários financeiros

O agro brasileiro atingiu em 2024 a marca de R$ 2,7 trilhões de PIB, algo próximo de um quarto de toda a riqueza produzida no país. Produtores, cooperativas, tradings, indústrias e distribuidores formam uma engrenagem que emprega milhões de pessoas, responde por quase metade das exportações e sustenta a balança comercial. Só que, por trás dessa potência, existe um ponto que quase ninguém fala: a maior parte do dinheiro que circula no agro não para dentro da porteira, para na mão dos bancos.

Por meio de crédito rural, adiantamentos, seguros, exportações, operações de câmbio e meios de pagamento, o sistema financeiro se posiciona em cada elo da cadeia.

Os bancos controlam o crédito, intermediam as transações e capturam uma fatia do lucro em cada etapa, muitas vezes sem plantar, colher ou armazenar um único grão. A boa notícia é que esse jogo começou a virar.

O campo está aprendendo a transformar crédito em negócio, pagamento em produto e fluxo financeiro em lucro próprio. Em outras palavras, o agro está prestes a virar sua própria infraestrutura financeira.

O tamanho do agro e o tamanho do buraco financeiro

Para entender a dimensão dessa virada, é preciso olhar primeiro para a escala do agro. A cada quatro reais gerados no Brasil, praticamente um vem diretamente ou indiretamente do campo. São mais de 28 milhões de pessoas envolvidas entre produção, indústria de alimentos e distribuição.

O setor responde por cerca de 49% das exportações brasileiras, com superávit comercial de dezenas de bilhões de dólares.

Mesmo assim, o agro ainda depende fortemente de capital de terceiros para funcionar. O crédito rural segue como pilar central. Na safra 2024/2025, a aplicação de crédito rural já somou cerca de R$ 330 bilhões, com a maior parte dos recursos controlada por bancos públicos e privados.

Mais de 70% do financiamento rural no país ainda vem dessas instituições, o que significa que o grosso do fluxo financeiro do setor passa fora do campo e volta na forma de juros, tarifas e spreads.

Onde o dinheiro do agro realmente para

Por trás da imagem de produtividade e superávit, existe uma dinâmica previsível. O produtor rural:

  • Toma crédito para custear o plantio
  • Compra insumos muitas vezes já financiados
  • Vende a produção para uma trading, muitas vezes com adiantamento
  • Recebe o pagamento em etapas
  • Quita os financiamentos, paga juros e recomeça o ciclo

Em cada passo dessa jornada, há um intermediário financeiro capturando parte do valor que o agro gera. O banco financia o custeio da safra. A trading antecipa parte da produção. A cooperativa intermedia pagamentos. O banco opera o câmbio das exportações. A seguradora cobre risco climático e operacional, sempre cobrando prêmio.

O resultado é aquilo que muitos economistas já enxergam como um gap financeiro do agro. O campo gera valor, mas não captura na mesma proporção. O dinheiro nasce no agro, mas o lucro consolidado tende a parar na cidade, nos balanços de quem controla crédito, informação e meios de pagamento.

As cinco grandes dores financeiras do agro hoje

Video de YouTube

Apesar da força produtiva, o agro enfrenta um conjunto de problemas que limitam sua eficiência financeira e pressionam margens, indo muito além de clima e safra. Entre as principais dores estão:

Fragmentação da cadeia produtiva
O agro brasileiro é formado por milhões de produtores, revendas, cooperativas, tradings, processadores e exportadores. Cada elo tem o próprio modelo de operação, necessidades financeiras e nível de digitalização.
O resultado é um ecossistema desconectado, em que o dinheiro e a informação demoram a circular, gerando ineficiência, custo e perda de poder de barganha para o produtor.

Dependência excessiva de crédito de terceiros
Boa parte dos produtores depende de bancos, cooperativas de crédito ou tradings para financiar insumos e operações. Quando o crédito encarece, os juros sobem ou há atraso no Plano Safra, o impacto vai direto na base da produção.
O crédito rural continua sendo essencial, mas ainda é burocrático, concentrado e de difícil acesso para quem não tem garantias robustas ou histórico bancário consolidado.

Baixa integração e gestão de dados
Em muitas regiões, o agro ainda opera com baixo nível de digitalização. Dados sobre safra, clima, estoque, crédito e mercado seguem dispersos, sem conexão entre sistemas.
Isso limita o planejamento, encarece a gestão de risco e reduz o poder de negociação do produtor, já que quem tem as melhores informações sobre crédito, preços e transações são os intermediários, não quem produz.

Risco operacional crescente e margens apertadas
Custos de fertilizantes, defensivos, logística e energia sobem, enquanto volatilidade cambial e de commodities aperta margens.
O produtor lida com incertezas de safra e mercado, mas seus compromissos financeiros são fixos, criando uma assimetria entre o risco da produção e o custo do capital.

Custo logístico e falta de liquidez
Infraestrutura deficiente de transporte e escoamento eleva prazos, estoque e aperta o fluxo de caixa. Em um setor em que o intervalo entre plantar e receber pode passar de um ano, qualquer atraso no crédito ou na liquidação das vendas compromete o reinvestimento na safra seguinte.

    Somadas, essas cinco dores mostram algo evidente: o agro é gigante em produção, mas ainda é carente de estrutura financeira proprietária. E é justamente aqui que nasce uma das maiores oportunidades da história do setor: transformar essas dores em negócios financeiros dentro da própria cadeia.

    Por que o agro tem tudo para ser uma infraestrutura financeira

    Se você olhar com lupa, vai perceber que o agro já tem todos os ingredientes que um banco precisa para operar:

    Fluxo financeiro previsível ao longo do ano

    Base de clientes recorrentes

    Alto volume de transações

    Histórico de relacionamento de longo prazo

    Garantias reais, como terras, máquinas, armazéns e contratos

    O que faltava era tecnologia, regulação adequada e visão de dono sobre o dinheiro que circula dentro do campo. Nos últimos anos, isso começou a mudar por três motivos principais.

    Primeiro, a digitalização acelerada do agro. Fintechs especializadas em crédito e serviços financeiros para o campo, como Trave, Set e Terra Magna, já mostram que é possível operar crédito, seguros e pagamentos de forma totalmente digital, usando dados de safra, clima e produtividade para reduzir custo e risco.

    Segundo, a mudança regulatória. O Banco Central vem estimulando modelos como SCDs e instituições de pagamento, permitindo que empresas do agro ofereçam crédito com recursos próprios ou criem soluções financeiras personalizadas para seus produtores e parceiros.
    O que antes era monopólio dos bancos hoje está aberto para quem entende o dia a dia da fazenda, da cooperativa e da revenda.

    Terceiro, o ativo mais poderoso de todos: dados. O agro é um dos setores que mais geram informações no país. Produção, clima, histórico de pagamento, garantias, comportamento de compra, tudo isso pode ser convertido em inteligência financeira.
    Quando esses dados são usados para avaliar risco, precificar crédito e antecipar inadimplência, o campo passa a controlar o próprio fluxo financeiro e a capturar valor em cima de operações que ele mesmo já movimenta.

    Como o agro já está virando sua própria infraestrutura financeira

    Essa transformação não é teoria, o agro já começou a fintexar o campo na prática. Nos últimos anos, surgiram empresas e estruturas que mostram como o setor está criando sua própria infraestrutura financeira:

    • A Set, por exemplo, digitalizou o processo de barter, aquele modelo em que o produtor troca parte da safra por insumos ou crédito. O que antes dependia de papel, cartório e meses de análise bancária hoje é feito digitalmente, do contrato à liquidação. Isso reduz custo, aumenta segurança e abre espaço para financiamento direto, sem depender totalmente dos bancos.
    • A Trave usa inteligência artificial para analisar risco de crédito de produtores e investidores, conectando quem precisa de capital com quem quer financiar o agro, sem passar necessariamente por bancos tradicionais. É o próprio setor aprendendo a usar dados do campo para criar soluções financeiras sob medida.
    • Cooperativas financeiras como Ccred e Ccob ampliaram sua presença digital e passaram a oferecer conta, crédito, seguros e meios de pagamento integrados ao ecossistema agro, entendendo que não basta financiar a produção, é preciso dominar o fluxo financeiro da cadeia.
    • Revendas e trades também se movimentam. Empresas que antes só vendiam ou compravam insumos começam a criar braços financeiros para antecipação de recebíveis, financiamento de clientes e gestão de pagamentos. A Agrofy, por exemplo, estruturou a Agrofy Pay, uma solução de pagamento integrada ao marketplace agro, permitindo que o produtor compre insumos a crédito e pague de forma totalmente digital.

    Quando somamos tudo isso, enxergamos um novo cenário: um agro que não depende apenas de um banco para girar, mas que começa a construir suas próprias estruturas financeiras dentro do próprio setor.

    Passo a passo para o agro capturar o próprio fluxo de dinheiro

    Se o agro quer de fato virar sua própria infraestrutura financeira, o caminho passa por alguns passos práticos:

    Mapear o fluxo financeiro completo
    Entender por onde o dinheiro entra, por onde sai e em quais pontos terceiros capturam margem. Cada taxa de financiamento, cada comissão em pagamento ou seguro mostra um espaço potencial de captura de valor dentro da cadeia.

    Digitalizar relacionamento e transações
    Sem digitalização, não há inteligência financeira nem escala. Plataformas, aplicativos e sistemas integrados precisam centralizar crédito, pagamentos, recebimentos e contratos. É isso que permite transformar relacionamento em produto financeiro.

    Escolher o modelo regulatório adequado
    O Banco Central oferece caminhos como SCDs, sociedades de empréstimo entre pessoas e instituições de pagamento. Além disso, modelos de parceria com instituições já licenciadas permitem começar rápido, testando soluções sem precisar montar um banco do zero.

    Transformar dados em crédito e produtos financeiros
    Usar dados de produtividade, histórico de pagamento, clima e logística para criar produtos como crédito personalizado, seguros inteligentes e antecipação de recebíveis com risco calibrado. Finanças passam a ser uma extensão natural da operação do agro, não um serviço estranho vindo de fora.

    Operar em parceria, não no improviso
    Fintexar o agro não é assumir risco desnecessário, é estruturar modelos sustentáveis, regulados e tecnológicos. Cooperativas, indústrias e revendas que têm dado certo nesse movimento trabalham em parceria com instituições licenciadas, combinando conhecimento do campo com estrutura financeira segura.

      No fim das contas, fintexar o agro não é virar banco no papel, é virar dono do próprio fluxo financeiro. É transformar cada transação, cada boleto, cada linha de crédito em margem que permanece no campo, e não apenas nos balanços dos intermediários.

      O agro como força de inovação financeira

      O agro sempre foi sinônimo de força, produtividade e resiliência. Agora, começa a ser também sinônimo de inovação financeira, usando dados, tecnologia e regulação a seu favor para capturar valor sobre o mesmo dinheiro que já movimenta.

      Essa transformação já está acontecendo com produtores, cooperativas, revendas e indústrias que decidiram olhar para o fluxo financeiro com a mesma atenção que dedicam à safra. Quanto mais o agro entender de dinheiro, menos refém ele será dos bancos e mais protagonista se tornará na própria história.

      E na sua visão, o agro deveria acelerar essa virada para controlar o próprio dinheiro e depender menos dos bancos, ou o modelo atual ainda faz sentido para o setor?

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      Carla Teles

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