França suspende importações agrícolas da América do Sul com agrotóxicos e reforça oposição ao acordo comercial com o Mercosul.
A França decidiu endurecer sua política de importações agrícolas ao anunciar a suspensão da entrada de frutas da América do Sul que contenham agrotóxicos proibidos no mercado europeu.
O movimento ocorre justamente em meio às negociações finais do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, o que eleva as tensões diplomáticas e comerciais entre os blocos.
Segundo o governo francês, a decisão será implementada por meio de portarias que entram em vigor ainda nesta semana.
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O objetivo declarado é reforçar os controles sanitários nas fronteiras e proteger os produtores europeus da concorrência externa.
No entanto, a iniciativa também tem impacto direto sobre exportadores sul-americanos, especialmente o Brasil, maior economia do Mercosul.
Medida mira frutas com resíduos de agrotóxicos proibidos
Em uma “carta aberta aos agricultores da França”, Lecornu detalhou o alcance da decisão.
“Portarias serão adotadas pelo governo esta semana para suspender a importação de gêneros alimentícios provenientes de países da América do Sul, como abacates e maçãs, contendo resíduos de cinco substâncias no entanto já proibidas na Europa”, afirmou.
Posteriormente, em publicação na rede social X, o primeiro-ministro especificou quais agrotóxicos motivaram a restrição.
Entre eles estão mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim.
Além de abacate e maçã, a lista de produtos afetados inclui manga, goiaba, cítricos e uvas — itens relevantes na pauta de importações agrícolas europeias.
França promete fiscalização mais rígida nas fronteiras
Além da suspensão das importações, o governo francês anunciou um reforço significativo nos mecanismos de fiscalização.
Segundo Lecornu, “os controles sobre as importações serão maciçamente reforçados, nas fronteiras e dentro do território [francês]”.
“Acabo de endurecer as instruções a esse respeito. Cabe doravante à União Europeia amplificar rapidamente essas ações na escala de todo o mercado europeu”, declarou, sinalizando que a União Europeia pode adotar medidas semelhantes.
Oposição francesa ao acordo comercial não é novidade
A posição da França contra o acordo comercial com o Mercosul não é recente.
O país lidera a resistência dentro da União Europeia, impulsionado pelo forte lobby de agricultores franceses, que temem a concorrência de produtos sul-americanos, geralmente mais baratos e produzidos sob regras ambientais diferentes das europeias.
Em dezembro, poucos dias antes da assinatura final do tratado entre os dois blocos, Paris conseguiu articular o apoio da Itália para adiar o processo.
O argumento central foi a necessidade de salvaguardas adicionais e controles sanitários mais rigorosos, especialmente no setor de importações agrícolas.
Adiamento gera reação no Brasil e aumenta pressão diplomática
O novo adiamento provocou irritação no Palácio do Planalto.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretendia encerrar seu mandato de seis meses na presidência rotativa do Mercosul com a assinatura do acordo, considerado estratégico para ampliar o acesso do bloco ao mercado europeu.
Após conversa com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, Lula concordou em postergar a cerimônia para o início deste ano.
Apesar disso, o governo brasileiro passou a sinalizar que pode abandonar as negociações caso haja nova postergação.
Bastidores indicam resistência contínua da França
Mesmo com a assinatura prevista, a entrada em vigor do acordo comercial ainda depende da aprovação do Parlamento Europeu.
Nesse cenário, a França segue atuando nos bastidores para tentar barrar ou, ao menos, limitar os efeitos do tratado.
Analistas avaliam que o endurecimento das regras contra agrotóxicos funciona como instrumento político para fortalecer a posição francesa nas negociações.
Ao mesmo tempo, a decisão amplia a incerteza para exportadores do Mercosul, que veem nas importações agrícolas um dos principais ganhos do acordo com a Europa.
Impactos podem ir além do comércio de alimentos
Especialistas em comércio internacional alertam que a iniciativa francesa pode abrir precedente para novas barreiras não tarifárias dentro da União Europeia.
Embora justificadas por critérios sanitários, essas medidas tendem a influenciar diretamente o equilíbrio do acordo comercial com o Mercosul.
Enquanto isso, produtores sul-americanos acompanham o desenrolar das negociações com cautela.
O desfecho do impasse definirá não apenas o futuro do tratado, mas também o acesso de diversos produtos agrícolas ao exigente mercado europeu.

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