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Água a R$ 11,90 e Coca a R$ 15 em Guarulhos: por que aeroportos viraram shoppings, lucram mais com lojas do que com voos e quase ninguém fiscaliza no Brasil

Escrito por Carla Teles
Publicado em 03/02/2026 às 14:49
Atualizado em 03/02/2026 às 14:52
Água a R$ 11,90 e Coca a R$ 15 em Guarulhos por que aeroportos viraram shoppings, lucram mais com lojas do que com voos e quase ninguém fiscaliza no Brasil
Preços no aeroporto e comida no aeroporto na área segura: receita não aeronáutica explica o modelo e street pricing é alternativa.
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Este guia explica preços no aeroporto e comida no aeroporto na área segura do aeroporto, o peso da receita não aeronáutica e o que é street pricing.

Nos aeroportos brasileiros, uma garrafinha de água a R$ 11,90 e um refrigerante a R$ 15 costumam chamar atenção. Esses valores não são apenas resultado de decisões pontuais de uma loja, mas de um ambiente comercial com regras próprias e demanda relativamente “cativa”, sobretudo após o raio-X.

Para o passageiro, a experiência é recorrente: pouco tempo, poucas alternativas e preços acima do padrão fora do terminal. Por trás disso, há um modelo em que a área comercial ganhou peso na receita dos aeroportos e influencia diretamente o que chega ao balcão.

Você provavelmente já passou por essa situação. Na área de embarque, cansado e com o horário apertado, comprar ali dentro vira, muitas vezes, a única opção prática.

O impacto aparece na nota fiscal. Água, refrigerante e itens simples podem custar valores comparáveis aos de refeições completas em bairros próximos.

Isso não significa, necessariamente, que exista um “truque” único por trás do preço. O que existe é uma combinação de fatores operacionais e comerciais que torna o consumo no aeroporto estruturalmente mais caro.

A cena em Guarulhos que resume os aeroportos brasileiros

Em Guarulhos, um dos principais aeroportos do país, o contraste costuma ser evidente. Um combo simples com água e refrigerante pode ultrapassar com facilidade o que o passageiro pagaria fora do terminal.

O ponto central é a falta de alternativas comparáveis dentro da área segura. Depois da inspeção, não há “rua ao lado” nem comércio externo acessível sem sair do fluxo e perder tempo.

Esse contexto reduz o poder de escolha do consumidor. Com fila, embarque próximo e deslocamentos mais longos, a comparação de preços perde força na prática.

O resultado é um mercado em que conveniência e restrição de acesso pesam no valor final. Itens básicos acabam incorporando um “prêmio” associado ao local.

Como os aeroportos viraram centros comerciais com infraestrutura de voo

Por décadas, aeroportos foram projetados prioritariamente como infraestrutura de transporte. O terminal oferecia serviços básicos, com foco em embarque, desembarque e operação aérea.

Esse desenho mudou em muitos países. Hoje, é comum que o passageiro percorra áreas planejadas para ampliar permanência e exposição a lojas e alimentação, especialmente após o controle de segurança.

A mudança tem componente arquitetônico, mas é sobretudo econômico. Os aeroportos passaram a buscar, além das tarifas ligadas aos voos, receitas que vêm de atividades comerciais.

Essas receitas são frequentemente chamadas de “não aeronáuticas”. Entram nessa conta lojas, restaurantes, publicidade, estacionamento, aluguel de espaços e serviços como salas VIP.

Em terminais maiores, essa fatia pode representar parcela relevante do faturamento total. Quando isso ocorre, o varejo deixa de ser acessório e passa a ser parte do modelo de sustentação financeira.

Por que os aeroportos dependem cada vez mais do que o passageiro consome

Nos aeroportos concedidos à iniciativa privada, os contratos normalmente combinam obrigações de investimento, metas e padrões de serviço.

A remuneração do operador envolve fontes ligadas à operação aérea, mas a área comercial tende a ter papel importante no equilíbrio econômico do projeto.

Na prática, a lógica é simples: mais circulação e mais permanência aumentam o potencial de consumo. Isso também amplia o valor dos espaços comerciais e dos contratos firmados com lojistas e marcas.

Em muitos modelos, o aeroporto obtém receita com aluguel e também com componentes variáveis. Esses componentes podem estar ligados ao faturamento do ponto, além de taxas e obrigações contratuais do uso do espaço.

Quando a ocupação do ponto é cara, o custo tende a aparecer no preço ao consumidor. O repasse ocorre de forma difusa, distribuído em itens do cardápio e produtos de conveniência.

Por isso, alimentos e bebidas viram bons indicadores do sistema. São itens de compra rápida, com preço facilmente comparável ao que se encontra fora do aeroporto.

O que está embutido no preço de uma garrafinha de água

Ao comprar uma água por R$ 11,90, o passageiro paga mais do que o produto em si. O preço incorpora custos de operação e o valor comercial de vender em um ambiente com fluxo garantido.

Um dos fatores é o custo do espaço. Aluguel, taxas e exigências operacionais podem ser mais altos em áreas de circulação intensa e, sobretudo, em ambientes controlados.

Também pesa a operação em horários estendidos e a necessidade de equipes em turnos. A logística interna, o controle de acesso e a padronização de processos tornam a operação mais complexa do que em pontos de rua.

Além disso, o consumidor está em um contexto de tempo limitado. Essa restrição reduz a sensibilidade a preço no momento da compra, porque a alternativa pode significar perder o embarque ou enfrentar deslocamentos longos.

Com esses elementos combinados, o produto ganha um “prêmio de conveniência”. Esse prêmio tende a se repetir em várias categorias, não só em bebidas.

Concorrência limitada e preços que se aproximam entre si

Outro fator é a estrutura de entrada e ocupação comercial dentro de aeroportos. Abrir um ponto costuma exigir capital, conformidade com regras e participação em processos de seleção ou contratação.

Em muitos terminais, o espaço é limitado e concentrado em áreas específicas do fluxo. Isso reduz a quantidade de oportunidades e pode favorecer marcas maiores ou operadores com capacidade de cumprir requisitos.

Mesmo quando há diferentes logotipos, os preços podem acabar próximos. Isso pode ocorrer por custos semelhantes, público com baixa capacidade de substituição e contratos que encarecem o ponto.

Esse comportamento não precisa ser entendido como combinação explícita de preços. Em mercados com restrição de alternativas, é comum haver convergência para patamares altos.

Com poucas opções efetivamente mais baratas, a competição por preço perde força. O passageiro, então, passa a tratar o preço elevado como característica do ambiente, e não como exceção.

Quem regula o quê nos aeroportos brasileiros

No Brasil, a ANAC atua sobretudo em aspectos de aviação civil e infraestrutura aeroportuária. Isso inclui padrões de serviço, segurança operacional, regras de operação e elementos regulatórios ligados ao transporte aéreo.

Já o varejo dentro do aeroporto tende a funcionar sob lógica de mercado. Em geral, não há um teto setorial definindo quanto pode custar água, refrigerante ou refeições na área comercial.

Isso não significa ausência de normas para o consumidor. Regras de transparência e práticas comerciais seguem submetidas ao Código de Defesa do Consumidor, e órgãos como Procons podem atuar em situações específicas.

O ponto é que não existe, como regra geral, uma obrigação formal para que preços internos sigam os preços da cidade. Também não há, de forma padronizada, um mecanismo regulatório equivalente a “preço de rua” para itens básicos.

Na prática, o controle mais rápido costuma ocorrer por reputação e pressão pública. Casos que ganham repercussão tendem a gerar cobranças sobre lojas e administração do terminal, mas sem um padrão único.

O que ocorre em outros países e quais alternativas aparecem no debate

Vídeo do YouTube

Em alguns aeroportos internacionais, existe a prática conhecida como “street pricing”. Nesses casos, as lojas se comprometem a manter preços próximos aos praticados fora do terminal, com certa margem de tolerância.

Em outros modelos, contratos e políticas públicas podem exigir variedade de ofertas. Isso pode incluir opções mais acessíveis, presença de marcas com diferentes faixas de preço e mecanismos de transparência.

Mesmo onde há medidas desse tipo, aeroportos ainda tendem a ser mais caros do que a rua.
A restrição de acesso e os custos operacionais costumam manter algum nível de “prêmio” no preço.

No Brasil, aparecem periodicamente discussões sobre formas de garantir opções básicas mais acessíveis. Entre as ideias, surgem referências a preços comparáveis aos da cidade, exigência de alternativas populares e padrões mínimos de oferta.

Até aqui, porém, o cenário predominante é o de ampla liberdade de precificação no varejo aeroportuário. Nesse contexto, preços altos se explicam mais por estrutura e incentivos do que por um único fator isolado.

O que isso significa para o passageiro

No fim, parte relevante da economia de muitos aeroportos está ligada ao que o passageiro consome enquanto espera o voo.

A água a R$ 11,90 e o refrigerante a R$ 15 se tornam exemplos visíveis de um sistema em que conveniência, restrição de escolha e custo do espaço têm impacto direto no preço.

Para quem viaja, a percepção de caro costuma ser imediata. A discussão, então, gira em torno de quais mecanismos poderiam equilibrar liberdade comercial e proteção do consumidor em um ambiente com alternativas limitadas.

Se você já viveu essa situação, provavelmente tem um número na memória. Quanto você já pagou para comer ou beber em aeroportos no Brasil?

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Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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