Ao ampliar a profundidade da mina de Bingham Canyon, em Utah, os Estados Unidos passaram a recuperar o metal oito vezes mais raro que o ouro do refino do cobre, mirando painéis solares de telureto de cádmio, semicondutores ultra puros e menor dependência chinesa na cadeia global de suprimentos estratégicos.
O metal oito vezes mais raro que o ouro entrou no centro de uma disputa industrial porque passou a ser tratado, pelo governo dos EUA, como um dos minerais mais importantes para a economia e para a segurança energética. A substância, cujo nome é ligado à palavra latina para “Terra”, aparece em concentrações baixíssimas, com referência de 0,00003 em uma tonelada e, em rochas analisadas, média de cerca de três partes por bilhão.
A virada acontece porque, além de usos industriais já citados como copiadoras, coloração de cerâmica e vidro e fabricação de borracha durável, o metal oito vezes mais raro que o ouro passou a ser associado ao avanço de células solares de película fina, com destaque para a tecnologia de telureto de cádmio, além de materiais para semicondutores ultra puros.
O que é o metal e por que ele virou “crítico”

No levantamento apresentado, o elemento é descrito como metaloide, um grupo de sete elementos com propriedades entre as dos metais e dos não metais.
-
Garimpeiros de ouro descem por buracos estreitos de até 48 metros no deserto da Mauritânia e passam até dois dias vivendo dentro de túneis em uma cidade subterrânea com mais de mil minas
-
O que está por trás da alta do minério de ferro? China anuncia plano econômico para 2026 com meta de crescimento, mudanças na indústria do aço, expansão do mercado de carbono e medidas para estabilizar o mercado imobiliário que podem alterar o equilíbrio das commodities no mundo
-
Cidade brasileira foi construída «em cima do ouro», e agora empresa coloca muita grana na mesa para tirá-lo de lá, com promessa de milhares de empregos gerados
-
Embrapa usa plantas do Cerrado para recuperar áreas devastadas por mineração de ouro em MG e criar modelo nacional de revegetação
A raridade é tratada como um dado central: o material é apontado como um dos elementos menos comuns na Terra, com presença tão baixa que medições se tornam difíceis.
A origem dessa escassez é atribuída ao processo de formação do planeta: durante a formação nebular quente, o elemento teria formado um hidreto volátil, escapando como gás, o que explicaria por que haveria menos dele na Terra do que “em qualquer outro lugar no espaço”.
A consequência prática é direta: o metal oito vezes mais raro que o ouro passa a ser disputado não por curiosidade química, mas por ser insumo de cadeia industrial sensível.
A ponte com energia solar e semicondutores

O salto de interesse é ligado ao crescimento das células solares de película fina.
A tecnologia citada, baseada em telureto de cádmio, é descrita como capaz de oferecer geração rápida, alta taxa de conversão, coeficiente de temperatura baixo e estabilidade elevada.
O mercado desse segmento é apontado como acelerado: a previsão mencionada é de que o mercado de células solares de película fina ultrapasse US$ 10 bilhões até 2027, mais que o dobro do tamanho registrado em 2021, quando teria sido cerca de US$ 4 bilhões.
Em paralelo, aparece a projeção de que o mercado do próprio material cresça US$ 315 milhões, com taxa anual composta de 9,84% entre 2023 e 2028, impulsionado pela popularidade da energia limpa.
Também há um argumento industrial: módulos de telureto de cádmio poderiam ser produzidos em menos de 4,5 horas, emitindo seis vezes menos dióxido de carbono do que silício, com mais de 90% passível de reciclagem após desativação.
É nesse pacote que o metal oito vezes mais raro que o ouro passa a ser tratado como peça de “segurança energética”.
Quem controla a produção e por que a China pesa
O cenário descrito aponta concentração: um relatório citado como publicado no início de 2024 atribui à China cerca de dois terços da produção mundial em 2023.
Números associados a 2022 também aparecem, com o Japão citado com 68 toneladas e a Rússia com 40 toneladas, enquanto a produção global seria maior do que em 2016 em cerca de 1,6 vez.
A liderança chinesa é explicada por estrutura mineral e capacidade de mineração: a província de Sichuan é citada como sede do único depósito primário independente registrado, e há referência a quase 14.000 toneladas de reservas espalhadas por 16 províncias.
No mar, o material é descrito como 50.000 vezes mais concentrado no fundo oceânico do que em terra, e uma embarcação de perfuração capaz de operar a 33.000 pés é mencionada como parte desse avanço.
Nesse contexto, o ponto político aparece: quando um país concentra a produção de um recurso considerado importante, os demais ficam vulneráveis.
O estudo descreve que, em 2019 e 2021, 95% do metal usado pelos EUA teria sido comprado da China, em um momento em que o mercado global de energia solar crescia e a eletricidade renovável já respondia por uma fatia relevante do sistema americano.
A maior mina a céu aberto e a guinada dos EUA em Utah
A reação americana é amarrada a um lugar: Bingham Canyon, no estado de Utah, operada pela Kennecott.
A mina é descrita como ativa desde 1903, com histórico de extração de mais de 17 milhões de toneladas de cobre.
A escala é tratada como um diferencial: profundidade superior a 3.970 pés, largura de 2,5 milhas e área total de cerca de 1.900 acres, além de ter sido declarada Marco Histórico Nacional em 1966.
A indústria de mineração em Utah é apontada como um setor relevante, com faturamento de cerca de US$ 4 bilhões, tendo o cobre como produto mais valioso.
Nesse pano de fundo, o conglomerado Rio Tinto teria investido US$ 1,9 bilhão para estender a vida útil da operação até 2032, com plano de produzir cerca de 1 milhão de toneladas de cobre “puro” no período.
A mudança central vem em 2022, quando a operação teria iniciado o processo de extração do metal oito vezes mais raro que o ouro associado ao refino de cobre dentro da própria cadeia produtiva.
A lógica é explícita: como grande parte do metal é descrita como subproduto de depósitos de cobre, a mina vira um atalho para reduzir dependência externa.
Produção doméstica, números e a aposta na cadeia industrial
O plano apresentado conecta mineração, refino e indústria: o material seria refinado na América do Norte por um produtor descrito como líder global em especialidades, e entregue a consumidores, com ênfase na First Solar, citada como a única empresa americana entre as 10 maiores fabricantes de painéis solares.
Há números de escala: o país receberia cerca de 20 toneladas por ano, com valor indicado de US$ 2,9 milhões, e parte do metal seria destinada também a materiais semicondutores ultra puros em uma fábrica em St. George, Utah.
O estudo lembra que uma produção anterior nos EUA era feita em uma instalação em Amarillo, Texas, que enviava lodo de cobre e oxigênio ao México para extrair o metal, reforçando a narrativa de dependência externa mesmo quando havia atividade doméstica.
Em abril de 2023, a empresa é citada como estimando que a operação se tornaria o sexto maior produtor do mundo, cobrindo cerca de 3% da oferta global.
A conta ganha peso quando o mercado é descrito como pequeno: em 2021, teriam sido produzidas 580 toneladas mundialmente, o que transforma 20 toneladas em um volume relevante para a estratégia dos EUA com o metal oito vezes mais raro que o ouro.
Por que isso mexe com emprego, preço e capacidade solar
O impacto econômico aparece em projeções ligadas à cadeia de painéis solares: até 2026, a produção desses painéis poderia trazer mais de US$ 10 bilhões para a economia americana e US$ 2,78 bilhões em renda do trabalho, com referência a cerca de 30.000 empregos que seriam criados pela First Solar até 2026.
Do lado de política pública, há menção a um plano de US$ 20 milhões do Departamento de Energia para estudos relacionados a células solares e ao material, com objetivos como desenvolver protótipos, reduzir custos, diminuir emissões e aumentar eficiência e vida útil.
O preço também entra como termômetro: em 2022, o custo citado era US$ 70, e em 2023 teria subido para US$ 80.
No cenário de expansão solar, o relatório citado aponta que a capacidade de fabricação de módulos nos EUA ultrapassa 26 GW por ano, e que em 2023 o país adicionou mais de 40 GW de nova capacidade solar.
A participação da energia solar é descrita como 64% de toda a nova capacidade no sistema, com geração anual suficiente para abastecer mais de 37 milhões de casas, enquanto Texas e Flórida liderariam a capacidade instalada, e a Califórnia registraria declínio por uma combinação de fatores.
O que observar em 2026 e depois
O enredo fecha com um movimento duplo: aumentar a oferta doméstica do metal oito vezes mais raro que o ouro e, ao mesmo tempo, ampliar a capacidade industrial que consome esse insumo, especialmente em painéis solares de película fina e semicondutores.
Se a produção interna crescer e sustentar fornecimento, a dependência externa pode cair de forma consistente, num setor em que interrupções de cadeia são tratadas como risco estratégico.
Para acompanhar esse tema sem ruído, vale monitorar três pontos práticos ao longo de 2026: volume anual efetivo de produção, destino industrial das toneladas refinadas e ritmo de expansão da capacidade solar e de semicondutores que depende desse insumo.
Você acha que a estratégia do metal oito vezes mais raro que o ouro vai realmente reduzir a vulnerabilidade dos EUA, ou a cadeia global vai apenas trocar de gargalo e criar outro tipo de dependência?
-
-
-
-
-
-
59 pessoas reagiram a isso.