Trajetória impressionante no agro começa em uma lanchonete e vira potência com mais de 100 mil cabeças de gado em sistema de alta eficiência.
Quem atravessa os portões da Fazenda Jaçanã, em Bonópolis, no Vale do Araguaia goiano, depara-se com uma operação agropecuária de alta precisão.
Caminhões transportam toneladas de insumos, colheitadeiras operam guiadas por GPS e o gado, com genética apurada, engorda em pastagens rotacionadas que desafiam a lógica tradicional da região.
O império rural, que hoje movimenta cerca de 100 mil cabeças de gado — entre rebanho próprio e em terras arrendadas —, é comandado por Francisco Sena.
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Do atendimento ao agronegócio de ponta
Aos 58 anos, o advogado e pecuarista personifica uma das ascensões mais notáveis do agronegócio no Centro-Oeste.
Longe de ser herdeiro de latifúndios, sua trajetória começou servindo mesas e fritando pastéis em uma lanchonete em Anápolis, a 380 km de onde hoje concentra suas terras.
“Eu nunca me esqueço do primeiro lote de bois que vendemos, eram 45 cabeças. Eu tinha 18 anos. Hoje, a gente tem capacidade para 20 mil cabeças por ciclo de confinamento e fazemos até quatro ciclos por ano”, relata Sena durante sua participação no podcast Agro em Debate, dimensionando o salto de quatro décadas.
A “faculdade” do balcão
A origem da família Sena remete à simplicidade de Pirenópolis.
O pai, porteiro de colégio, e a mãe, vendedora ambulante, lutavam para garantir o estudo dos filhos.
Francisco recorda, com bom humor, os tempos de infância em que vendia de laranjas a frangos vivos na rua para complementar a renda.

“Essa venda do frango eu nunca gostei, porque uma vez escapou um frango meu. Fiquei com medo do meu pai me bater e desci correndo atrás do frango na rua. Tive que usar uma reserva de dinheiro que eu tinha para pagar o prejuízo”, relembra.
O ponto de virada na vida financeira da família ocorreu quando o pai tomou uma decisão arriscada: vender as 70 cabeças de gado que possuía na pequena chácara da família para comprar uma lanchonete no centro de Anápolis, onde o filho mais velho já trabalhava.
A aposta no trabalho braçal dos filhos pagou-se rapidamente.
Segundo Francisco, o estabelecimento, localizado em frente a um hospital tradicional da cidade, tornou-se uma escola de gestão.
A busca pela qualidade — traduzida na massa de pastel perfeita e no atendimento personalizado — fez o negócio prosperar.
“O movimento explodiu. Quando meu irmão passou no vestibular para medicina em São Paulo, a gente já tinha comprado o gado de volta e triplicado o rebanho”, conta.
O Direito como alavanca de capital
Enquanto trabalhava na lanchonete, Francisco cursava Direito. Formou-se aos 20 anos, em 1987, mantendo uma rotina extenuante que começava às 4 da manhã e terminava às 23h.
O domínio de idiomas e a postura autodidata o levaram a atuar na recuperação de crédito de administradoras de consórcio, um setor que vivia o auge da inadimplência nos anos de hiperinflação.
Sena desenvolveu métodos agressivos e inéditos de cobrança para a época.
“Criei um convênio para negativar não o devedor, mas as esposas que figuravam como avalistas ou nos contratos. Quando a mulher descobria que o cartão de crédito estava bloqueado por causa de uma dívida do marido ou de um amigo dele, a pressão para o pagamento era imediata”, explica o advogado.
A eficiência na recuperação de ativos rendeu a Francisco honorários vultosos.
Ele narra que, em um único mês no final da década de 1990, seus ganhos permitiram a compra de uma área equivalente a 12 alqueires e meio.
“Eu viajava à noite para trabalhar de dia. O volume de cobrança era monstruoso e eu ganhava por resultado”, afirma.
Foi esse capital, acumulado nos tribunais e nas estradas do Brasil, que financiou a expansão para o Vale do Araguaia.
Investimento em tecnologia no Vale do Araguaia
Quando Francisco Sena chegou à região de Bonópolis e São Miguel do Araguaia, a área era vista como a “última fronteira agrícola”, muitas vezes desacreditada pela qualidade do solo e pelo clima.
A transição de investidor urbano para produtor rural de grande porte exigiu quebra de paradigmas.
Ele recorda o ceticismo dos produtores tradicionais quando decidiu introduzir a agricultura em larga escala na região, cerca de 15 anos atrás.

“Um grande produtor me abraçou dentro do banco e disse: ‘Quando o senhor nasceu, eu já mexia com boi. Não vai plantar soja aqui, não. Eu já vi lavoura quebrar gente demais’. Hoje, alguns desses vizinhos nos procuram para fazer parcerias.”
A chave para o sucesso foi a tecnologia. Em 1998, Sena conheceu o professor Moacir Corsi, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), que lhe apresentou o conceito de Integração Lavoura-Pecuária (ILP).
O sistema consiste em alternar o cultivo de grãos (como soja e milho) com pastagens na mesma área, recuperando o solo e intensificando a produção.
“A lavoura e a pecuária são irmãs de mesa. É uma revolução porque você aumenta o rebanho e a produção na mesma área. Aquela terra onde você planta a lavoura por quatro meses, depois volta com uma pastagem vigorosa onde cabem sete mil cabeças de gado, algo que jamais seria possível no sistema extensivo”, detalha Sena.
Sustentabilidade e economia circular
Atualmente, o Grupo Sena opera em uma lógica de economia circular. O confinamento, que abriga milhares de animais, gera um subproduto valioso: o esterco.
Em vez de ser um passivo ambiental, os dejetos são processados e transformados em adubo orgânico.
No último ano, a fazenda produziu cerca de 40 mil toneladas de composto orgânico.
O material é utilizado em 100% das lavouras de soja do grupo, reduzindo drasticamente a dependência de fertilizantes químicos importados e protegendo a plantação contra os veranicos — períodos de seca durante a estação chuvosa.
“Plantamos todas as nossas lavouras com composto orgânico de produção própria. A nossa média de produtividade de soja ficou em 74 sacas por hectare, com talhões chegando a 87 sacas. O boi confinado, na prática, paga a conta do adubo”, celebra o produtor.
Crises e visão de futuro
Apesar dos números superlativos — que incluem mais de 40 mil hectares de área própria e outros 30 mil arrendados —, Francisco mantém a cautela.
O atual cenário do agronegócio, que ele classifica como “tempestade perfeita”, combina preços baixos da arroba do boi e da soja com taxas de juros elevadas.
Para atravessar o momento, ele recorre a um ensinamento do avô.
“Ele falava que existem os ‘anos de sair vivo’. Não é ano de ganhar dinheiro, é ano de sobreviver. Quando vem uma crise forte, você tem que focar em manter o negócio de pé.”
Crítico da atual política econômica, Sena alerta para o endividamento do setor e a falta de recursos para o Plano Safra a juros compatíveis.
“O crédito rural com recursos livres está com taxas de 22% ao ano. Isso é insustentável. Muitos produtores estão me procurando para pedir orientação sobre Recuperação Judicial, envergonhados. Eu digo a eles: não é culpa só de vocês, é uma conjuntura macroeconômica adversa.”
Sucessão familiar e legado no agro
Olhando para o futuro, Francisco prepara a sucessão familiar.
Seus filhos, formados em medicina e agronomia, já estão integrados à operação.
O desafio agora não é mais abrir mato ou cobrar dívidas de consórcio, mas dominar a inteligência artificial e a agricultura de dados.
“Estamos saindo de uma era analógica para uma digital. Quem vai ficar no mercado é quem assimilar essa transformação”, avalia.
Ao fim da entrevista, o empresário que já teve armas apontadas para a cabeça durante cobranças judiciais e que começou a vida contando moedas para comprar refrigerante, reforça que o maior ativo continua sendo imaterial.
“Meu pai, que não sabia ler nem escrever, me ensinou que combinar não é obrigado, mas cumprir é. Até hoje fecho negócios de milhares de bois apenas na palavra. O papel aceita tudo, mas é a conduta que mantém a gente vivo no mercado”, finaliza.

Parabéns, por mais reportagens como esta!!!