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Aos 58 anos, ele foi de atendente a dono de mais de 100 mil cabeças de gado: conheça o império agro que começou fritando pastel e hoje movimenta 40 mil hectares, 4 ciclos de boi por ano e adubo próprio

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 04/12/2025 às 17:15
De atendente de lanchonete a líder no agro, Francisco Sena comanda império com 100 mil cabeças de gado no Vale do Araguaia.
De atendente de lanchonete a líder no agro, Francisco Sena comanda império com 100 mil cabeças de gado no Vale do Araguaia.
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Trajetória impressionante no agro começa em uma lanchonete e vira potência com mais de 100 mil cabeças de gado em sistema de alta eficiência.

Quem atravessa os portões da Fazenda Jaçanã, em Bonópolis, no Vale do Araguaia goiano, depara-se com uma operação agropecuária de alta precisão.

Caminhões transportam toneladas de insumos, colheitadeiras operam guiadas por GPS e o gado, com genética apurada, engorda em pastagens rotacionadas que desafiam a lógica tradicional da região.

O império rural, que hoje movimenta cerca de 100 mil cabeças de gado — entre rebanho próprio e em terras arrendadas —, é comandado por Francisco Sena.

Do atendimento ao agronegócio de ponta

Aos 58 anos, o advogado e pecuarista personifica uma das ascensões mais notáveis do agronegócio no Centro-Oeste.

Longe de ser herdeiro de latifúndios, sua trajetória começou servindo mesas e fritando pastéis em uma lanchonete em Anápolis, a 380 km de onde hoje concentra suas terras.

“Eu nunca me esqueço do primeiro lote de bois que vendemos, eram 45 cabeças. Eu tinha 18 anos. Hoje, a gente tem capacidade para 20 mil cabeças por ciclo de confinamento e fazemos até quatro ciclos por ano”, relata Sena durante sua participação no podcast Agro em Debate, dimensionando o salto de quatro décadas.

A “faculdade” do balcão

A origem da família Sena remete à simplicidade de Pirenópolis.

O pai, porteiro de colégio, e a mãe, vendedora ambulante, lutavam para garantir o estudo dos filhos.

Francisco recorda, com bom humor, os tempos de infância em que vendia de laranjas a frangos vivos na rua para complementar a renda.

De atendente de lanchonete a líder no agro, Francisco Sena comanda império com 100 mil cabeças de gado no Vale do Araguaia.
De atendente de lanchonete a líder no agro, Francisco Sena comanda império com 100 mil cabeças de gado no Vale do Araguaia.

“Essa venda do frango eu nunca gostei, porque uma vez escapou um frango meu. Fiquei com medo do meu pai me bater e desci correndo atrás do frango na rua. Tive que usar uma reserva de dinheiro que eu tinha para pagar o prejuízo”, relembra.

O ponto de virada na vida financeira da família ocorreu quando o pai tomou uma decisão arriscada: vender as 70 cabeças de gado que possuía na pequena chácara da família para comprar uma lanchonete no centro de Anápolis, onde o filho mais velho já trabalhava.

A aposta no trabalho braçal dos filhos pagou-se rapidamente.

Segundo Francisco, o estabelecimento, localizado em frente a um hospital tradicional da cidade, tornou-se uma escola de gestão.

A busca pela qualidade — traduzida na massa de pastel perfeita e no atendimento personalizado — fez o negócio prosperar.

“O movimento explodiu. Quando meu irmão passou no vestibular para medicina em São Paulo, a gente já tinha comprado o gado de volta e triplicado o rebanho”, conta.

O Direito como alavanca de capital

Enquanto trabalhava na lanchonete, Francisco cursava Direito. Formou-se aos 20 anos, em 1987, mantendo uma rotina extenuante que começava às 4 da manhã e terminava às 23h.

O domínio de idiomas e a postura autodidata o levaram a atuar na recuperação de crédito de administradoras de consórcio, um setor que vivia o auge da inadimplência nos anos de hiperinflação.

Sena desenvolveu métodos agressivos e inéditos de cobrança para a época.

“Criei um convênio para negativar não o devedor, mas as esposas que figuravam como avalistas ou nos contratos. Quando a mulher descobria que o cartão de crédito estava bloqueado por causa de uma dívida do marido ou de um amigo dele, a pressão para o pagamento era imediata”, explica o advogado.

A eficiência na recuperação de ativos rendeu a Francisco honorários vultosos.

Ele narra que, em um único mês no final da década de 1990, seus ganhos permitiram a compra de uma área equivalente a 12 alqueires e meio.

“Eu viajava à noite para trabalhar de dia. O volume de cobrança era monstruoso e eu ganhava por resultado”, afirma.

Foi esse capital, acumulado nos tribunais e nas estradas do Brasil, que financiou a expansão para o Vale do Araguaia.

Investimento em tecnologia no Vale do Araguaia

Quando Francisco Sena chegou à região de Bonópolis e São Miguel do Araguaia, a área era vista como a “última fronteira agrícola”, muitas vezes desacreditada pela qualidade do solo e pelo clima.

A transição de investidor urbano para produtor rural de grande porte exigiu quebra de paradigmas.

Ele recorda o ceticismo dos produtores tradicionais quando decidiu introduzir a agricultura em larga escala na região, cerca de 15 anos atrás.

De atendente de lanchonete a líder no agro, Francisco Sena comanda império com 100 mil cabeças de gado no Vale do Araguaia.
De atendente de lanchonete a líder no agro, Francisco Sena comanda império com 100 mil cabeças de gado no Vale do Araguaia.

“Um grande produtor me abraçou dentro do banco e disse: ‘Quando o senhor nasceu, eu já mexia com boi. Não vai plantar soja aqui, não. Eu já vi lavoura quebrar gente demais’. Hoje, alguns desses vizinhos nos procuram para fazer parcerias.”

A chave para o sucesso foi a tecnologia. Em 1998, Sena conheceu o professor Moacir Corsi, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), que lhe apresentou o conceito de Integração Lavoura-Pecuária (ILP).

O sistema consiste em alternar o cultivo de grãos (como soja e milho) com pastagens na mesma área, recuperando o solo e intensificando a produção.

“A lavoura e a pecuária são irmãs de mesa. É uma revolução porque você aumenta o rebanho e a produção na mesma área. Aquela terra onde você planta a lavoura por quatro meses, depois volta com uma pastagem vigorosa onde cabem sete mil cabeças de gado, algo que jamais seria possível no sistema extensivo”, detalha Sena.

Sustentabilidade e economia circular

Atualmente, o Grupo Sena opera em uma lógica de economia circular. O confinamento, que abriga milhares de animais, gera um subproduto valioso: o esterco.

Em vez de ser um passivo ambiental, os dejetos são processados e transformados em adubo orgânico.

No último ano, a fazenda produziu cerca de 40 mil toneladas de composto orgânico.

O material é utilizado em 100% das lavouras de soja do grupo, reduzindo drasticamente a dependência de fertilizantes químicos importados e protegendo a plantação contra os veranicos — períodos de seca durante a estação chuvosa.

“Plantamos todas as nossas lavouras com composto orgânico de produção própria. A nossa média de produtividade de soja ficou em 74 sacas por hectare, com talhões chegando a 87 sacas. O boi confinado, na prática, paga a conta do adubo”, celebra o produtor.

Crises e visão de futuro

Vídeo do YouTube

Apesar dos números superlativos — que incluem mais de 40 mil hectares de área própria e outros 30 mil arrendados —, Francisco mantém a cautela.

O atual cenário do agronegócio, que ele classifica como “tempestade perfeita”, combina preços baixos da arroba do boi e da soja com taxas de juros elevadas.

Para atravessar o momento, ele recorre a um ensinamento do avô.

“Ele falava que existem os ‘anos de sair vivo’. Não é ano de ganhar dinheiro, é ano de sobreviver. Quando vem uma crise forte, você tem que focar em manter o negócio de pé.”

Crítico da atual política econômica, Sena alerta para o endividamento do setor e a falta de recursos para o Plano Safra a juros compatíveis.

“O crédito rural com recursos livres está com taxas de 22% ao ano. Isso é insustentável. Muitos produtores estão me procurando para pedir orientação sobre Recuperação Judicial, envergonhados. Eu digo a eles: não é culpa só de vocês, é uma conjuntura macroeconômica adversa.”

Sucessão familiar e legado no agro

Olhando para o futuro, Francisco prepara a sucessão familiar.

Seus filhos, formados em medicina e agronomia, já estão integrados à operação.

O desafio agora não é mais abrir mato ou cobrar dívidas de consórcio, mas dominar a inteligência artificial e a agricultura de dados.

“Estamos saindo de uma era analógica para uma digital. Quem vai ficar no mercado é quem assimilar essa transformação”, avalia.

Ao fim da entrevista, o empresário que já teve armas apontadas para a cabeça durante cobranças judiciais e que começou a vida contando moedas para comprar refrigerante, reforça que o maior ativo continua sendo imaterial.

“Meu pai, que não sabia ler nem escrever, me ensinou que combinar não é obrigado, mas cumprir é. Até hoje fecho negócios de milhares de bois apenas na palavra. O papel aceita tudo, mas é a conduta que mantém a gente vivo no mercado”, finaliza.

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Fernando Dacache
Fernando Dacache
05/12/2025 13:28

Parabéns, por mais reportagens como esta!!!

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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