Aos 70 anos, trajetória marcada por trabalho escolar, retomada dos estudos e superação chama atenção ao resultar em aprovação inédita em Pedagogia na universidade estadual.
“Para obter sucesso, você precisa ter determinação, força de vontade, carisma e caráter”.
A frase, que poderia soar como mais um conselho motivacional nas redes sociais, resume a trajetória de Dona Elenice Pereira, 70 anos, aprovada no curso de Pedagogia da Universidade Estadual Norte Fluminense (Uenf) após décadas trabalhando em serviços gerais de uma escola pública e enfrentando atrasos escolares, luto e depressão.
A nova universitária é ex-aluna do Curso Preparatório Popular Goitacá, projeto de extensão do Instituto Federal Fluminense (IFF) – Campus Campos Centro, voltado a estudantes de escolas públicas que se preparam para processos seletivos do próprio instituto e para o Enem.
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Foi com a nota do exame nacional que ela garantiu a vaga na graduação neste ano de 2025, depois de cinco anos frequentando o cursinho e retomando uma relação interrompida com a escola.
Infância, trabalho rural e início da jornada educacional
A história de Elenice começa em Natividade, no interior do Rio de Janeiro, onde cresceu em uma família numerosa, filha de agricultor e uma entre nove irmãos.
Desde cedo, ajudava no plantio de milho e feijão, em uma rotina marcada pela falta de recursos básicos.
“Não tinha roupa para vestir, calçado para calçar. Meu pai tirou meu irmão mais velho com oito anos e colocou ele para trabalhar em uma fazenda e tirou ele da escola porque tinha que trabalhar, pois era ordem do fazendeiro”, recorda.
Aos 16 anos, ela deixou a casa dos pais para trabalhar e contribuir com a renda familiar.

A escola, naquele momento, ficou em segundo plano.
A necessidade de emprego imediato empurrou o estudo para o fim da fila de prioridades.
Retomada dos estudos em Campos e incentivo inesperado
Anos mais tarde, já morando em Campos dos Goytacazes (RJ), Elenice encontrou uma nova chance de voltar à sala de aula.
Com cerca de 25 anos, trabalhava como faxineira e babá quando recebeu o incentivo da empregadora para retomar os estudos formais.
“Eu tinha só a 3ª série e ela me matriculou no XV de Novembro no Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Concluí a 8ª série e depois fui para o Nilo Peçanha e depois para o Liceu. Fiz formação de professora e à tarde estagiava com as crianças de C.A”.
Nesse período, ela passou a dividir o tempo entre o trabalho doméstico, os estudos e os estágios com crianças.
Mesmo assim, a continuidade da formação foi novamente interrompida.
A maternidade, a necessidade de sustentar a casa e a prioridade na trajetória escolar dos filhos falaram mais alto.
Prioridade aos filhos e conclusão do ensino médio aos 51 anos
Embora tivesse o desejo de concluir os estudos, Elenice escolheu colocar a formação dos filhos à frente.

Ela conta que concentrou esforços para garantir o acesso deles ao ensino superior, recorrendo inclusive ao Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).
“Eu precisava pagar a faculdade do meu filho. Com o Fies, eu consegui bolsa de 50% e paguei o curso de Engenharia de Produção dele”.
Somente em 2006, aos 51 anos, ela conseguiu terminar o ensino médio no Colégio General Dutra, já com o filho na faculdade.
A etapa final da educação básica foi marcada por dificuldades em algumas disciplinas.
“Tive muita dificuldade. Não sou boa em Matemática. Gosto mais de Geografia e Português”.
As preferências por áreas de humanas ajudaram a construir a base de conteúdo que ela levaria adiante no cursinho preparatório e, mais tarde, para o Enem.
Luto, depressão e reencontro com a sala de aula
O trajeto até a universidade quase foi interrompido definitivamente em 2013, quando Elenice perdeu a filha, aos 27 anos, vítima de câncer na medula.
O luto desencadeou um quadro de depressão, e ela passou a utilizar medicamentos controlados para dormir e enfrentar a rotina.
“Quando minha filha faleceu, em 2013, eu entrei em depressão, e o Marcelo (filho) já estudava aqui (IFF Campos Centro). Um dia ele chegou em casa e eu tinha tomado um monte de remédio para dormir e ele falou para eu ir conhecer o curso. Isso em 2015. Fiz a minha inscrição, vim para aulas, aos poucos a depressão foi passando e diminui os remédios controlados. Chegava em casa feliz”.
O contato com o Curso Preparatório Popular Goitacá funcionou como ponto de virada emocional e educacional.
A ida ao cursinho, inicialmente um gesto de incentivo do filho, se transformou em projeto concreto de ingresso no ensino superior.
Da limpeza das salas à carteira universitária
Ao longo de 38 anos, Elenice trabalhou em serviços gerais em uma escola pública, cuidando diariamente das salas de aula que agora volta a frequentar em outra condição: a de aluna universitária.
Entre limpar corredores, organizar carteiras e manter o ambiente escolar, ela acompanhou gerações inteiras de estudantes sem poder estar, naquele momento, no papel de aprendiz.
Com a aprovação em Pedagogia na Uenf, obtida pela nota do Enem, ela encerra uma etapa como trabalhadora da escola e inaugura outra como estudante do ensino superior.
Durante o período no cursinho, Elenice valorizou os professores que a acompanharam especialmente em Geografia e Língua Portuguesa, áreas em que demonstrava maior afinidade.
Educação como eixo de transformação e permanência
Ao olhar para o próprio percurso, Elenice sintetiza a caminhada marcada por estudo noturno, trabalho diário e responsabilidades familiares.
“Conforme eu estou olhando o meu passado, a minha infância, minha juventude, o meu sofrimento de estudar à noite e trabalhar de dia, fazer comida, lavar roupa, cuidar de animais, fazer faxina e levar criança na escola e ainda levar puxão de orelha do patrão, eu vejo isso agora que eu consegui ultrapassar meus limites que eu achava que eram muito difíceis e não era tão difícil chegar aonde eu cheguei. Era só ter boa vontade e um pouco de juízo na cabeça. Muitos desistem pelo caminho ou vão para o caminho errado”.
A trajetória revela o impacto de políticas de acesso à educação, como cursinhos populares e programas de financiamento estudantil, sobretudo para quem interrompeu a escolarização e retorna à sala de aula décadas depois.
Ao ingressar na universidade após uma vida inteira cuidando de espaços escolares, Elenice levanta uma reflexão que ecoa para além de sua própria história: quantas outras pessoas com trajetórias semelhantes poderiam seguir o mesmo caminho se tivessem acesso a oportunidades como as que ela encontrou?
Eu conclui o ensino médio com 38 anos, fiz o cursinho Educafro, fiz pedagogia e sou concursada desde 2017, primeiro como auxiliar e já estou na segunda prefeitura como professora, desde 2021, não foi fácil, somente quem trabalhou desde a infância entende a realidade desta senhora, usou os mesmos sapatos e andou pelo mesmo caminho. Para passar em concurso eu via aulas no YouTube, não podia pagar cursinhos. Parabéns e não desiste nunca de seus sonhos.
Uma pena a escolha ser tão ruim. A área da educação só traz prejuízo à saúde.
Pedagogia é um curso que você pode atuar em diversas áreas: educação, saude e etc. Sou pedagoga e há 15 anos trabalho na saude
Uma pena é ela só conseguir estudar com 70 anos e não o curso que escolheu.
Meus parabéns D.Zilda por esta conquista e determinação e um exemplo para muitos que muitas querem desistir! Deus abençoe!