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Após conhecer a criação de abelhas na escola, aluno transforma aprendizado em negócio real, monta apiário próprio, passa a produzir mel em escala e faz da apicultura sua principal fonte de renda

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado el 10/02/2026 a las 11:40
Actualizado el 10/02/2026 a las 11:42
Após conhecer a criação de abelhas na escola, aluno transforma aprendizado em negócio real, monta apiário próprio, passa a produzir mel em escala e faz da apicultura sua principal fonte de renda
Após conhecer a criação de abelhas na escola, aluno transforma aprendizado em negócio real, monta apiário próprio, passa a produzir mel em escala e faz da apicultura sua principal fonte de renda
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Em Campo Erê (SC), aula de apicultura vira negócio rural certificado; Adilso Cúnico transforma educação técnica em renda, produção de mel e impacto local.

O que começou como uma aula prática em sala de aula acabou se transformando em um empreendimento rural estruturado, certificado e com impacto direto na economia local e na produção de alimentos. Em Campo Erê, no Oeste de Santa Catarina, o apicultor Adilso Cúnico é um exemplo de como a educação técnica pode ultrapassar os limites da escola e se tornar um projeto de vida sustentável.

O primeiro contato de Adilso com a apicultura aconteceu ainda como estudante do Centro de Educação Profissional de Campo Erê (Cedup), durante as aulas do professor Nelson da Silva, responsável pela disciplina de apicultura. Na época, o conhecimento parecia apenas mais um conteúdo do curso técnico. Depois de formado, Adilso seguiu outro caminho: trabalhou com máquinas pesadas e atuou como mecânico por anos.

A virada veio em 2020, quando aquelas lições vistas na juventude deixaram de ser lembrança e passaram a se tornar atividade principal. A apicultura deixou de ser complementar e passou a ocupar o centro da sua rotina produtiva.

450 colmeias e apicultura migratória como estratégia produtiva

Hoje, Adilso mantém cerca de 450 colmeias de Apis mellifera, a abelha-europeia com ferrão, trabalhando principalmente com apicultura migratória. Nesse sistema, as colmeias são deslocadas ao longo do ano para diferentes municípios, acompanhando as floradas disponíveis em cada período.

As abelhas migram para cidades como Irani, Ponte Serrada e Água Doce, regiões com maior incidência de determinadas espécies vegetais. O resultado é uma produção diversificada de mel monofloral, como o de Eucalipto e Uva Japão, além do valorizado Melato de Bracatinga, um produto típico do Sul do Brasil, conhecido pelo sabor mais intenso e menor teor de açúcares simples.

Mesmo trabalhando em escala comercial, Adilso mantém duas colmeias de abelhas sem ferrão — das espécies Jataí e Mirim Emerina com um objetivo claro: educação ambiental. As caixas são usadas para conscientizar o filho sobre a importância das abelhas para o equilíbrio dos ecossistemas.

Produção além do mel e certificação que abriu mercados

A atividade não se limita ao mel. Na própria propriedade, Adilso produz cera alveolada e extrato de própolis, realizando o envase localmente. A comercialização acontece de forma diversificada: supermercados, padarias e venda direta ao consumidor final.

Adilso Cúnico é o primeiro apicultor do município de Xaxim a receber o Selo Arte (Foto: arquivo pessoal)

Um marco decisivo veio em 2024, com a conquista do Selo Arte, certificação que permite a comercialização nacional de produtos de origem animal produzidos de forma artesanal, respeitando características regionais, culturais e tradicionais.

Até o momento, Adilso é o único apicultor do município de Xaxim a obter essa certificação, um diferencial que ampliou mercados e consolidou a atividade como principal fonte de renda.

Apoio técnico e políticas públicas fizeram a diferença

Segundo o apicultor, o apoio institucional foi determinante. Ele destaca a atuação da extensionista rural Ires Cristina Ribeiro Oliari, da Epagri. O suporte incluiu orientação técnica, acesso a políticas públicas e programas como o Kit Apicultura.

“Sem o apoio da Epagri aos produtores de Santa Catarina, seria muito difícil alcançar esse nível de estrutura e regularização”, afirma Adilso, ressaltando que o acompanhamento técnico foi fundamental para cumprir todas as exigências sanitárias e legais.

Manejo constante, genética e risco zero para erro

A rotina na apicultura migratória é intensa. Adilso realiza troca periódica de rainhas, formação de novos enxames e controle genético para manter a produtividade em níveis elevados sem comprometer a saúde das colmeias. O trabalho só é interrompido quando as condições climáticas tornam o manejo inviável.

Durante as floradas, a exigência aumenta ainda mais. Cada deslocamento precisa ser planejado com precisão. Um erro de tempo ou local pode comprometer toda a produção de uma safra específica. “Na apicultura migratória, não existe espaço para erro”, resume.

Entre as dificuldades enfrentadas, Adilso aponta três fatores críticos: mudanças climáticasuso excessivo de agrotóxicos e expansão das torres de telefonia celular. Segundo ele, o desequilíbrio climático altera o padrão das floradas, reduzindo previsibilidade e produtividade.

O uso de defensivos agrícolas provoca mortalidade direta das abelhas, enquanto as ondas eletromagnéticas emitidas por torres de telefonia podem desorientar os insetos. “Muitas saem para o campo e não conseguem retornar às colmeias”, explica.

Abelhas, polinização e impacto direto na produção de alimentos

Para Adilso, aumentar o número de colmeias vai além da renda. A apicultura fortalece a polinização agrícola, beneficiando culturas como soja, canola, frutas e hortaliças. “Quanto mais abelhas, mais alimento a gente tem na mesa”, defende.

Ele também vê na conversa com a população uma ferramenta essencial. Explicar como as colmeias funcionam e o papel das abelhas na agricultura ajuda a combater preconceitos e reforça a importância da preservação desses insetos.

Jovens, educação técnica e futuro da apicultura

Assim como foi impactado pelas aulas no Cedup, Adilso acredita que outros jovens podem descobrir a apicultura por meio de cursos técnicos, estágios e capacitações oferecidas pelos Centros de Educação Profissional (Cedups) e pelas Casas Familiares Rurais. Para ele, a atividade reúne conhecimento técnico, responsabilidade ambiental e viabilidade econômica — uma combinação rara no meio rural atual.

Santa Catarina no mapa nacional do mel

O caso de Adilso se insere em um contexto mais amplo. Santa Catarina ocupa a terceira posição na exportação de mel no Brasil, atrás apenas de Piauí e Minas Gerais, e é o oitavo maior produtor nacional. O estado conta com mais de 13 mil apicultores cadastrados na Cidasc.

As maiores concentrações de produtores estão no Extremo Oeste (32%)Oeste (18%) e Meio Oeste (16%). Já o Planalto Sul se destaca pela maior quantidade de colmeias e pela obtenção, em 2021, da Indicação Geográfica (IG) do Melato da Bracatinga.

O município de Xaxim, no Oeste catarinense, ocupa a sétima posição no ranking estadual de produção de mel. São mais de 35 apicultores ligados à Associação de Criadores de Abelhas de Xaxim e Região (ACAXR).

Segundo a extensionista Ires Cristina Ribeiro Oliari, a maioria dos produtores atua em regime familiar, com a apicultura como fonte secundária de renda. A diversidade de plantas nativas e cultivadas fornece néctar e pólen abundantes, resultando em um mel reconhecido pela qualidade. A apicultura migratória, prática comum na região, contribui para cores, aromas e sabores distintos.

Quando a escola vira ponto de partida

A trajetória de Adilso Cúnico mostra, na prática, como educação técnica, apoio institucional e gestão cuidadosa podem transformar um conhecimento escolar em um negócio sólido.

O que começou como uma aula no Cedup hoje sustenta uma família, fortalece a polinização agrícola e ajuda a manter viva uma atividade essencial para a segurança alimentar. É a prova de que, quando o aprendizado encontra oportunidade, ele pode literalmente ganhar asas.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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