Pesquisadores da Noruega e do Japão desenvolveram um material chamado Sandcrete que utiliza areia do deserto combinada com resíduos de madeira e pressão industrial para produzir blocos de pavimentação, alternativa que busca reduzir a extração de areia de rios e parte das emissões ligadas à produção de cimento
Pesquisadores da Noruega e do Japão desenvolveram um material que transforma areia do deserto, blocos de pavimentação a partir de resíduos de madeira. O novo composto, chamado Sandcrete, surge como alternativa diante da escassez global de areia adequada e das emissões do setor do concreto.
O concreto é atualmente o material de construção mais utilizado no planeta, ficando atrás apenas da água em volume de consumo. Todos os anos, mais de 4 bilhões de toneladas de cimento são produzidas, um processo associado a cerca de 8% das emissões globais de CO₂.
Esse impacto ambiental ocorre ao mesmo tempo em que cresce outro problema estrutural da indústria da construção. A disponibilidade de areia adequada para produzir concreto convencional está diminuindo rapidamente em diversas regiões do mundo.
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Escassez global de agregados e o paradoxo da abundância da areia do deserto, blocos de pavimentação
Nem toda areia pode ser usada para produzir concreto tradicional. Para que o material funcione corretamente, os grãos precisam ter formato e tamanho específicos que garantam estabilidade e aderência na mistura.
Por essa razão, rios são escavados, deltas são dragados e montanhas são trituradas para obter agregados compatíveis. Esse processo tem provocado erosão acelerada, perda de biodiversidade, conflitos sociais e pressão crescente sobre ecossistemas já fragilizados.
Ao mesmo tempo, o planeta possui imensas quantidades de areia em regiões desérticas. A areia do deserto é extremamente abundante, mas sua estrutura ultrafina e arredondada pelo vento impede seu uso no concreto convencional.
Durante décadas, esse tipo de areia foi considerado praticamente inútil para a construção civil. O obstáculo sempre esteve relacionado ao comportamento físico dos grãos dentro das misturas tradicionais de cimento.
Concreto botânico transforma areia do deserto, blocos de pavimentação sem usar cimento tradicional
Diante desse impasse, pesquisadores europeus e japoneses desenvolveram um material chamado concreto de areia botânica. A proposta rompe com princípios tradicionais da construção ao projetar o material a partir das características naturais da areia do deserto.
Em vez de tentar adaptar a areia ao concreto convencional, o processo foi redesenhado para aproveitar suas propriedades. O material combina areia ultrafina do deserto com aditivos de origem vegetal, principalmente pó de madeira.
A mistura é submetida a pressão e calor em um processo industrial de compactação. Diferentemente do concreto tradicional, o material não é simplesmente despejado e deixado secar, mas prensado de forma semelhante à produção de painéis de madeira engenheirada ou cerâmica.
Em laboratório, os pesquisadores testaram diferentes combinações de temperatura, pressão, tempo de prensagem e proporção dos componentes. O objetivo foi encontrar uma formulação que garantisse resistência suficiente sem recorrer ao cimento clássico.
Aplicações iniciais focam em calçadas e áreas de pedestres
Os primeiros usos planejados para o material são aplicações não estruturais. Entre elas estão pavimentação em pedra, pavimentação externa, calçadas e áreas destinadas à circulação de pedestres.
Nesses espaços urbanos, são necessárias resistência mecânica, durabilidade e estabilidade. No entanto, as exigências estruturais são menores do que as necessárias para edifícios ou grandes infraestruturas.
Testes comparativos indicam que o concreto botânico pode alcançar densidade e resistência compatíveis com materiais convencionais. Para isso, o processo de fabricação precisa ser cuidadosamente controlado em relação aos parâmetros de pressão e temperatura.
Até o momento, os experimentos foram realizados apenas em ambiente de laboratório. Esse estágio permite ajustar com precisão as variáveis do processo antes de qualquer tentativa de produção em escala industrial.
Os pesquisadores ainda precisam avaliar o comportamento do material em diferentes condições ambientais. Entre os testes previstos estão ciclos de frio, exposição prolongada à umidade, desgaste mecânico e envelhecimento em condições reais.
Potencial ambiental reduz pressão sobre rios e montanhas
O desenvolvimento de materiais que utilizam areia do deserto, blocos de pavimentação pode reduzir parte da pressão atual sobre os ecossistemas. Caso parte da demanda por agregados seja suprida com areia processada localmente, a extração em rios e a britagem de rochas podem diminuir.
Esse cenário também implica menor necessidade de transporte de materiais pesados. A redução de caminhões, dragagem e operações de mineração pode limitar impactos ambientais cumulativos associados à construção civil.
Outro fator relevante é a simplicidade do processo produtivo. O Sandcrete não exige fornos de temperaturas extremas nem cadeias químicas complexas, o que facilita sua implementação em regiões próximas aos desertos.
A proximidade entre matéria-prima e produção é considerada um ponto essencial pelos pesquisadores. Transportar areia por milhares de quilômetros comprometeria os benefícios ambientais da solução.
Produção local pode transformar a percepção da areia em regiões áridas
Em muitas regiões áridas e semiáridas, a areia costuma ser vista como um obstáculo ao desenvolvimento. Ela interfere na agricultura, na infraestrutura e na ocupação territorial.
A possibilidade de transformar esse material em recurso para construção local altera essa percepção. A areia do deserto, blocos de pavimentação passam a representar uma matéria-prima potencial para infraestrutura básica.
O material ainda não foi projetado para substituir o concreto tradicional em larga escala. Seu papel inicial é diversificar opções e reduzir dependência de agregados obtidos por processos ambientalmente intensivos.
Pesquisadores destacam que o avanço não representa uma solução universal. O benefício ambiental depende do uso local do material e da adaptação às condições específicas de cada região.
A longo prazo, a combinação de areia local, biomateriais e processos industriais relativamente simples pode influenciar novas abordagens na construção sustentável. A proposta busca integrar economia circular, redução de emissões e uso mais eficiente dos recursos disponíveis.

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