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Em pleno deserto e com investimentos bilionários, a Arábia Saudita cria fazendas de peixes no Mar Vermelho para reduzir importações, garantir segurança alimentar e virar nova potência da aquicultura no Oriente Médio

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 10/12/2025 às 08:29
Em pleno deserto e com investimentos bilionários, a Arábia Saudita cria fazendas de peixes no Mar Vermelho para reduzir importações, garantir segurança alimentar e virar nova potência da aquicultura no Oriente Médio
Em pleno deserto e com investimentos bilionários, a Arábia Saudita cria fazendas de peixes no Mar Vermelho para reduzir importações, garantir segurança alimentar e virar nova potência da aquicultura no Oriente Médio
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Com bilhões em investimentos e fazendas no Mar Vermelho, a Arábia Saudita avança no peixe de cativeiro para reduzir importações e garantir segurança alimentar.

Durante décadas, a alimentação da Arábia Saudita dependeu fortemente de importações. Um país com clima desértico extremo, chuvas escassas, solos pobres e ausência quase total de rios não tinha condições naturais para sustentar uma produção relevante de proteína animal em escala. Esse cenário começou a mudar de forma radical nos últimos anos. Hoje, o reino investe bilhões de dólares para transformar o litoral do Mar Vermelho em um dos maiores polos de aquicultura do Oriente Médio.

O objetivo é direto e estratégico: reduzir a dependência externa de alimentos, garantir segurança alimentar e criar uma nova cadeia industrial baseada na produção de peixes em cativeiro, integrada ao megaprojeto econômico do Vision 2030.

A vulnerabilidade alimentar de um país rico em petróleo, mas pobre em água

Apesar de ser uma das maiores potências energéticas do planeta, a Arábia Saudita sempre foi extremamente dependente de importações de alimentos. Mais de 80% do que o país consome vem do exterior. Qualquer crise logística, guerra, pandemia ou sanção internacional expõe imediatamente esse ponto fraco estrutural.

Essa vulnerabilidade ficou ainda mais clara durante a pandemia e, posteriormente, com os choques globais no comércio de grãos, carnes e pescados. O governo passou a tratar a produção de alimentos como questão de soberania nacional, não apenas como setor econômico.

O Mar Vermelho como ativo estratégico da aquicultura saudita

Com mais de 1.800 quilômetros de litoral, o Mar Vermelho oferece um ambiente ideal para a criação de peixes marinhos: águas quentes, alto teor de oxigênio, boa salinidade e grande biodiversidade. Foi nesse ambiente que a Arábia Saudita decidiu erguer seus maiores projetos de aquicultura marinha. Empresas estatais e privadas passaram a instalar:

  • Fazendas costeiras de grande escala
  • Tanques flutuantes em mar aberto
  • Sistemas de recirculação de água
  • Centros de reprodução de alevinos
  • Fábricas de ração marinha
  • Frigoríficos e plantas de processamento

A produção se concentra em espécies de alto valor comercial, como camarões, robalos, pargos e outros peixes marinhos adaptados ao clima tropical e subtropical da região.

Investimentos bilionários para criar uma nova cadeia produtiva do zero

O avanço da aquicultura saudita não ocorre de forma improvisada. Ele está sustentado por investimentos bilionários, liderados por fundos públicos e grandes conglomerados do país. O governo criou linhas de financiamento específicas, garantias de crédito, subsídios energéticos e programas de transferência tecnológica.

Boa parte desses recursos vem do Public Investment Fund, o fundo soberano saudita, considerado um dos maiores do mundo. A meta é transformar a aquicultura em um dos pilares da nova economia pós-petróleo.

Produzir peixe em pleno deserto: o papel dos sistemas fechados (RAS)

Além das fazendas costeiras, a Arábia Saudita também investe pesado em aquicultura em sistemas fechados de recirculação de água, conhecidos como RAS (Recirculating Aquaculture Systems). Esses sistemas permitem criar peixes em galpões climatizados no meio do deserto, com reaproveitamento de até 99% da água utilizada.

Nesse modelo, a água é constantemente filtrada, tratada, oxigenada e reutilizada. Isso reduz drasticamente o consumo hídrico, elimina despejo de efluentes no meio ambiente e permite controle total sobre temperatura, oxigênio, nutrição e sanidade. Essa tecnologia é essencial para viabilizar a aquicultura em regiões onde a água é o recurso mais escasso.

Segurança alimentar como política de Estado

O conceito de segurança alimentar passou a ser tratado no país com a mesma importância estratégica que o petróleo. O governo estabeleceu metas objetivas de aumentar a produção doméstica de proteínas, reduzir importações e estabilizar preços internos.

O peixe ocupa posição central nesse plano por três motivos principais: alto valor nutricional, ciclo de produção mais curto que o da carne bovina e menor impacto ambiental relativo.

A ambição é que, nos próximos anos, uma parcela significativa do pescado consumido no país seja produzida internamente, reduzindo a dependência de fornecedores internacionais.

O papel da aquicultura na transição econômica pós-petróleo

A Arábia Saudita sabe que o petróleo não sustentará indefinidamente sua economia. Por isso, a estratégia do Vision 2030 prevê a criação de novas indústrias estruturantes, capazes de gerar empregos, tecnologia, exportações e estabilidade de longo prazo. A aquicultura entra nesse contexto como:

  • Setor de proteína de alta demanda futura
  • Indústria intensiva em tecnologia
  • Geradora de empregos costeiros
  • Exportadora potencial para Oriente Médio, Europa e Ásia
  • Alternativa sustentável à pecuária tradicional no deserto

Na prática, o peixe passa a ser tratado como ativo estratégico da economia saudita, assim como o petróleo foi no século XX.

Empregos, urbanização costeira e nova dinâmica econômica

A instalação das fazendas no litoral do Mar Vermelho tem provocado uma reorganização econômica em várias regiões costeiras. Cidades antes dependentes de pesca artesanal passaram a receber:

  • Empregos técnicos
  • Operadores de sistemas automatizados
  • Engenheiros de produção
  • Biólogos e veterinários aquícolas
  • Técnicos em processamento de alimentos
  • Operadores logísticos

Isso gera urbanização acelerada, aumento de renda e redistribuição territorial de riqueza, criando novos polos produtivos fora dos grandes centros tradicionais do país.

Desafios ambientais e pressão internacional por sustentabilidade

A criação intensiva de peixes em ambientes sensíveis como o Mar Vermelho traz desafios complexos. A região abriga recifes de corais extremamente frágeis, com biodiversidade única. Qualquer falha de manejo pode gerar impactos ambientais severos.

Por isso, os projetos são submetidos a padrões rígidos de licenciamento ambiental, rastreabilidade, monitoramento da qualidade da água e controle de efluentes. Mercados importadores também exigem certificações ambientais e sanitárias, o que força o país a adotar práticas de alto padrão.

O tabuleiro geopolítico da proteína no Oriente Médio

A produção de alimentos no Oriente Médio é uma questão geopolítica sensível. Países da região, historicamente dependentes de importações, passaram a disputar a autossuficiência como forma de reduzir sua vulnerabilidade estratégica.

Nesse xadrez, a Arábia Saudita busca liderar não apenas em petróleo, mas também em produção de proteína animal em ambiente extremo, algo que poucos países conseguem fazer em escala.

Se obtiver êxito, o país poderá se transformar em exportador de pescado para todo o Oriente Médio, região tradicionalmente deficitária em proteína marítima de cativeiro.

De importador absoluto a protagonista da nova aquicultura do deserto

Em poucas décadas, a Arábia Saudita saiu de condição de importador quase total de peixe para se colocar como candidata a nova potência regional da aquicultura. Isso só foi possível graças a uma combinação rara de fatores: capital praticamente ilimitado, planejamento estatal, tecnologia de ponta e uma costa marítima ainda pouco explorada industrialmente.

O caso saudita mostra que a aquicultura deixou de ser uma atividade restrita a países tropicais úmidos. Hoje, com tecnologia, é possível produzir peixe em pleno deserto, com eficiência industrial e controle ambiental.

Isso redefine os limites da produção de alimentos no século XXI. O peixe, que sempre foi dependente da natureza, passa a ser cada vez mais produto da engenharia, da biotecnologia e da geopolítica.

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Valquiria
Valquiria
11/12/2025 15:26

O governo ao invés de ficar nessa briga de comadre. Porque não presta atenção nessa reportagem e faz uma coisa que vale a pena. E que será um belo exemplo se for feita com exmero no Brasil!

Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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