Argélia expande usinas para mais de 2 milhões de m³/dia, lidera dessalinização na África e transforma água do mar em pilar do abastecimento urbano e industrial.
Mais de 80% do território da Argélia está dentro ou na borda do Saara. Chuva irregular, rios sazonais e aquíferos pressionados sempre foram um limite físico para o crescimento do país. Mesmo assim, grandes metrópoles como Argel, Orã, Annaba, Skikda e Tipasa concentraram população, indústria e infraestrutura pesada à beira do Mediterrâneo – exatamente onde a oferta natural de água doce é mais frágil.
Durante décadas, a equação argelina foi a mesma de vários países semiáridos: perfurar poços cada vez mais fundos, represar rios com barragens e rezar por anos de chuva razoáveis. Só que o clima mudou. A partir dos anos 2000, e de forma ainda mais evidente após 2010, a Argélia passou a registrar queda de precipitação e enchimento insuficiente de reservatórios, ao mesmo tempo em que a demanda por água urbana e industrial seguia em alta.
A resposta do governo foi clara: transformar o Mediterrâneo em “fonte permanente” e fazer da dessalinização uma infraestrutura tão estratégica quanto gás e petróleo.
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De zero a mais de 2,2 milhões de m³ por dia: como a capacidade explodiu em duas décadas
O salto começa de fato nos anos 2000, quando a Argélia lança um programa agressivo de construção de grandes usinas de dessalinização por osmose reversa na costa. Plantas como Hamma (Argel), Magtaa (próxima a Oran), Beni Saf, Mostaganem, Tenes, Skikda, Fouka, Souk Tlata e Cap Djinet foram sendo inauguradas ao longo da década, com capacidades que variam de 90.000 m³/dia a 500.000 m³/dia.
Somadas, essas primeiras grandes unidades levaram o país a uma capacidade instalada em torno de 2,2 milhões de m³ de água dessalinizada por dia, ainda na primeira metade da década de 2020.
Esse número já é, por si só, colossal:
- significa mais de 2,2 bilhões de litros de água produzidos diariamente a partir da água do mar
- coloca a Argélia na liderança absoluta da dessalinização na África
- coloca o país entre os maiores produtores do Mediterrâneo, atrás apenas de gigantes do Golfo em dependência desse recurso
Mas o governo não parou aí. Diante de uma sequência de anos secos, o país decidiu praticamente dobrar essa capacidade em menos de uma década.
O novo pacote de megasusinas: 5 plantas, 1,5 milhão de m³/dia a mais e 15 milhões de pessoas atendidas
A fase mais recente do programa hídrico argelino gira em torno de um conjunto de cinco grandes plantas de dessalinização, cada uma com capacidade de 300.000 m³/dia, em pontos estratégicos da costa:
- Cap-Blanc (Oran)
- Fouka 2 (Tipaza)
- Cap-Djinet 2 (Boumerdès)
- Béjaïa
- El Tarf
Juntas, essas cinco estações somam 1,5 milhão de m³ de água dessalinizada por dia. A Argélia investiu cerca de US$ 2,4 bilhões nesse pacote, com cronograma de conclusão até o fim de 2024.
Quando todas estiverem operando em plena carga, o efeito é imediato:
- a capacidade total de dessalinização sobe de cerca de 2,2 milhões para 3,7 milhões de m³/dia
- a participação dessa água “fabricada” no abastecimento nacional de água potável salta de 18–20% para cerca de 42%
- cerca de 15 milhões de argelinos passam a ser abastecidos, parcial ou totalmente, por água do mar convertida em água doce
Ou seja: quase metade de toda a água potável distribuída no país passa a vir diretamente do Mediterrâneo, estabilizando cidades costeiras e liberando parte dos recursos convencionais (barragens e aquíferos) para uso agrícola e industrial no interior.
A ambição até 2030: 5,5–5,8 milhões de m³ por dia e 60% do abastecimento via dessalinização
O plano é mais ambicioso do que apenas atravessar uma crise de estiagem. A Argélia está redesenhando estruturalmente a sua matriz hídrica.
Documentos e planos oficiais projetam que:
- a capacidade de dessalinização deve chegar a cerca de 5,5 a 5,8 milhões de m³/dia até 2030
- entre 25 e 27 grandes usinas estarão em operação ao longo de toda a costa
- aproximadamente 60% de toda a água potável consumida no país virá de dessalinização
- mais de 28 milhões de pessoas serão atendidas de forma direta
- a rede contará com cerca de 2.100–2.200 km de adutoras e distribuição
Para chegar a esses números, além das cinco plantas já em construção, a Argélia planeja pelo menos sete novas estações entre 2025 e 2030, em regiões como Tlemcen, Mostaganem, Chlef, Jijel, Tizi Ouzou (duas unidades) e Skikda, cada uma também na casa dos 300.000 m³/dia.
Na prática, isso cria uma “segunda rede hídrica nacional” praticamente independente de chuvas, alimentada por membranas de osmose reversa, bombas de alta pressão e uma cadeia de operação contínua de 24 horas por dia.
Como a água do mar reorganiza a geografia da oferta hídrica na Argélia
A estratégia argelina reorganiza onde a água é produzida e quem recebe cada tipo de recurso. A lógica é:
- cidades costeiras passam a ser abastecidas majoritariamente por água dessalinizada
- aquíferos costeiros sofrem menos extração
- barragens e águas interiores ficam mais disponíveis para irrigação e indústria
Ao aumentar a fatia da dessalinização para algo em torno de 60%, o país pretende desconectar o crescimento urbano do regime de chuvas e reduzir a pressão sobre mananciais naturais.
Em termos geoestratégicos, é exatamente o oposto do que ocorre em países dependentes de rios interiores: em vez de levar água doce ao litoral, a Argélia leva água dessalinizada do litoral para o interior.
Os números físicos das usinas: volumes, energia e custo por metro cúbico
As usinas argelinas seguem padrões internacionais de osmose reversa:
- Magtaa (Oran) tem 500.000 m³/dia, uma das maiores OR do mundo
- plantas como Hamma, Beni Saf, Mostaganem, Tenes, Skikda, Souk Tlata, Cap Djinet e Fouka operam na faixa de 100.000 a 200.000 m³/dia cada
- o consumo médio de energia gira entre 3 e 4,5 kWh/m³
- o custo final da água varia entre US$ 0,40 e US$ 0,80 por m³
Essa combinação permite que a dessalinização seja tratada como infraestrutura de massa, e não um recurso emergencial.
Impactos urbanos e industriais: quem ganha com a nova “economia da água”
População urbana: regiões como Argel e Orã reduzem rodízios e estabilizam fornecimento ao usar dessalinização como fonte primária.
Indústria pesada: refinarias, petroquímicas, siderúrgicas e termelétricas dependem de água para operação contínua – e o país já a trata como insumo estratégico para exportação de gás e petróleo.
Agricultura: não é irrigada com água dessalinizada (caro demais), mas se beneficia do deslocamento do consumo urbano, que libera água de barragens e aquíferos.
Os desafios: energia, salmoura e dependência tecnológica
Três problemas acompanham o crescimento acelerado das usinas:
- Energia: a dessalinização depende de eletricidade constante, e hoje isso significa gás natural.
- Salmoura concentrada: precisa ser devolvida ao mar com difusores e controle ambiental.
- Tecnologia: membranas e bombas vêm majoritariamente do exterior, embora a Argélia esteja formando engenheiros e técnicos locais.
Apesar dos custos e complexidades, a avaliação interna é que não investir seria mais caro, dada a combinação de seca, urbanização e demanda industrial.
O que essa rede diz sobre o futuro da água em regiões áridas
No fim, a história da Argélia não é apenas sobre tecnologia, mas sobre geopolítica e sobrevivência em regiões áridas.
Ao projetar uma capacidade de mais de 3,7 milhões de m³/dia em 2024 e algo em torno de 5,5–5,8 milhões de m³/dia até 2030, a Argélia mostra que, em certos contextos, água potável deixou de ser um recurso natural e passou a ser um produto industrial, fabricado em larga escala.
E o número que realmente chama atenção é simples: mais de 2 milhões de m³ de água do mar por dia já estão sendo transformados em água potável na Argélia – com planos oficiais para quase triplicar esse volume até o fim da década.
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