Lagoas de rejeitos das areias betuminosas de Alberta acumulam mais de 1,3 trilhão de litros de resíduos tóxicos e formam algumas das maiores barragens de terra do planeta.
Na primavera de 2008, um episódio aparentemente banal revelou ao mundo uma das estruturas industriais mais controversas da indústria petrolífera moderna. Naquele ano, 1.606 patos migratórios pousaram em uma lagoa industrial ao norte de Fort McMurray, na província canadense de Alberta, e morreram pouco depois. A superfície da lagoa não parecia perigosa: tratava-se de uma vasta extensão de líquido escuro sem gelo, algo que para aves migratórias representa um ponto ideal de descanso após centenas de quilômetros de voo. O que os animais não podiam saber era que aquilo não era água. A lagoa fazia parte do sistema de rejeitos da mineração de areias betuminosas, contendo resíduos da extração de petróleo carregados de ácidos naftênicos, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, benzeno, mercúrio e arsênico. O contato com essa mistura tóxica matou todas as aves em poucas horas.
A empresa responsável pela lagoa, a Syncrude, recebeu uma multa de US$ 3 milhões, que na época se tornou a maior penalidade ambiental da história da província de Alberta. O episódio, porém, não foi um evento isolado. Dois anos depois, outras 230 aves morreram no mesmo local, seguidas por novos incidentes em 2014, 2015 e 2022, envolvendo centenas de aves em diferentes lagoas de rejeitos operadas por empresas da região. A morte dos patos foi o momento em que o mundo tomou conhecimento de uma das infraestruturas industriais mais gigantescas — e menos discutidas — da indústria energética global.
Areias betuminosas de Alberta geram 1,5 barril de rejeito para cada barril de petróleo produzido
As areias betuminosas de Alberta formam uma das maiores reservas de petróleo do planeta. Diferente dos campos petrolíferos convencionais, porém, o petróleo não se encontra em reservatórios líquidos no subsolo. Ele aparece na forma de betume, um tipo de petróleo extremamente pesado misturado a areia, silte, argila e água, formando uma pasta densa.
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Para extrair esse betume, a indústria utiliza mineração a céu aberto seguida de um processo industrial intensivo. A areia é escavada em gigantescas minas e misturada com água quente e produtos químicos, que permitem separar o petróleo dos demais componentes minerais.
Depois da separação, o betume segue para processamento e refino. O que sobra desse processo é uma mistura composta por areia residual, argila, água contaminada e todos os produtos químicos utilizados na extração. Esse material forma os chamados rejeitos das areias betuminosas.
A proporção é impressionante. Para cada barril de petróleo produzido, a indústria gera aproximadamente 1,5 barril de rejeito líquido contaminado. Esse desequilíbrio cria uma equação industrial gigantesca, na qual a cada dia de operação milhões de litros de resíduo precisam ser armazenados.
Estima-se que as empresas que operam na região adicionem cerca de 25 milhões de litros de rejeito tóxico por dia às lagoas industriais. Desde o início das operações em larga escala, em 1967, o volume acumulado já ultrapassou 1,3 trilhão de litros de resíduos líquidos.
As lagoas de rejeitos de Alberta formam algumas das maiores estruturas de terra já construídas
Para armazenar esse volume monumental de resíduos, a indústria construiu aquilo que chama de lagoas de rejeitos. O termo pode sugerir reservatórios relativamente simples, mas na realidade essas estruturas estão entre as maiores obras de contenção de terra já construídas no planeta.
A maior delas é a Bacia de Assentamento do Mildred Lake, operada pela Syncrude. Essa estrutura é contida por uma barragem de terra que possui 18 quilômetros de extensão, com trechos que chegam a 88 metros de altura. Considerando o volume de material utilizado na construção, essa barragem é frequentemente citada como a maior estrutura de terra do mundo, classificação que aparece em relatórios técnicos e registros do Departamento do Interior dos Estados Unidos.

Sua capacidade de armazenamento ultrapassa 540 milhões de metros cúbicos de rejeitos líquidos e sedimentos contaminados. Ao lado dela existe outra estrutura gigantesca, o Southwest Sand Storage, considerado o terceiro maior represamento por volume do planeta. Essas duas instalações fazem parte de um sistema de contenção sem paralelo na história da engenharia civil. No total, existem mais de 30 lagoas de rejeitos espalhadas pelo norte de Alberta.
Somadas, essas lagoas ocupam uma área superior a 300 quilômetros quadrados, o equivalente a aproximadamente uma vez e meia o tamanho da cidade de Vancouver. Do espaço, astronautas conseguem identificá-las como grandes manchas escuras entre a floresta boreal e o Rio Athabasca, um dos principais cursos d’água da região.
Rejeitos das areias betuminosas permanecem líquidos por décadas
O comportamento desses rejeitos representa um desafio tecnológico único. Em minas de cobre ou ouro, os resíduos sólidos normalmente sedimentam em poucos dias ou semanas após o processamento. No caso das areias betuminosas, a situação é completamente diferente. As partículas mais finas presentes no material — principalmente silte e argila — permanecem em suspensão em uma lama viscosa que pode se comportar de maneira semelhante à areia movediça.
Esse fenômeno foi identificado muito cedo. Já em 1973, dois anos antes do início das operações industriais em larga escala, documentos internos do governo de Alberta registravam que o gerenciamento dos rejeitos poderia se tornar o principal obstáculo ambiental para a continuidade da extração.
O problema é que a tecnologia para tratar esse material simplesmente não existia. Nas décadas seguintes, diferentes regulamentações tentaram forçar a indústria a reduzir as lagoas. Em várias ocasiões, executivos do setor anunciaram novas tecnologias capazes de resolver o problema em poucos anos.
Essas promessas nunca se concretizaram. A razão é fundamentalmente física: as partículas finas suspensas nesses rejeitos podem levar décadas ou até mais de um século para sedimentar naturalmente. Enquanto o material não se solidifica, o terreno não pode ser recuperado.
Compostos tóxicos presentes nas lagoas de rejeitos das areias betuminosas
A composição química dessas lagoas vai muito além de simples água misturada com areia. A água utilizada no processo industrial contém uma mistura complexa de contaminantes, incluindo benzeno, chumbo, mercúrio, arsênico, vanádio, cromo e selênio.
Dois grupos de substâncias são considerados especialmente problemáticos. O primeiro são os ácidos naftênicos, compostos orgânicos formados durante o contato do betume com água quente no processo de extração. Esses ácidos são altamente tóxicos para peixes e anfíbios mesmo em concentrações relativamente baixas e podem persistir no ambiente por décadas.
Em 2011, um estudo utilizando técnicas de “impressão digital química” conseguiu rastrear ácidos naftênicos provenientes das lagoas de rejeitos diretamente no Rio Athabasca, o principal rio da região. Esse rio abastece comunidades indígenas locais e segue em direção ao Delta Peace-Athabasca, um dos maiores deltas interiores de água doce da América do Norte.
Outro grupo importante de contaminantes são os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). Esses compostos são formados quando matéria orgânica é aquecida e muitos deles são classificados como carcinogênicos. Dos 25 HPAs monitorados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, pelo menos 14 são considerados comprovadamente cancerígenos para humanos.
Evidências de vazamento para o lençol freático preocupam cientistas e comunidades indígenas
Em 2020, a Comissão para Cooperação Ambiental da América do Norte, formada por Canadá, Estados Unidos e México, analisou dados operacionais das próprias empresas que exploram as areias betuminosas.
O relatório concluiu que existem evidências consistentes de vazamento de água contaminada das lagoas para o lençol freático subterrâneo. A indústria contesta a extensão desses vazamentos, mas comunidades indígenas da região e organizações ambientais afirmam documentar há décadas sinais de contaminação.
Entre os relatos estão peixes deformados, alterações no ecossistema aquático e taxas elevadas de alguns tipos raros de câncer em comunidades localizadas ao longo do Rio Athabasca.
A escala gigantesca das lagoas de rejeitos de Alberta
A escala dessas estruturas é difícil de imaginar. A maior lagoa individual da Syncrude, o Southwest Sand Storage, possui uma área comparável à do Aeroporto Internacional de Edmonton.
Quando consideradas em conjunto, as lagoas de rejeitos ocupam uma superfície equivalente a mais de 240 vezes o tamanho do West Edmonton Mall, o maior shopping center do Canadá.
E essa área continua crescendo. Mesmo em 2020, ano em que a produção de petróleo caiu devido à pandemia global, as lagoas aumentaram em 90 milhões de metros cúbicos adicionais de rejeitos. Esse crescimento ocorre de forma contínua desde o início da exploração industrial da região, em 1967.
O custo gigantesco para limpar as lagoas de rejeitos das areias betuminosas
Em 2018, uma investigação conjunta conduzida por quatro grandes jornais canadenses revelou o tamanho do passivo ambiental associado às lagoas de rejeitos. Utilizando documentos obtidos por meio de leis de acesso à informação, os jornalistas estimaram que o custo total de remediação poderia chegar a 130 bilhões de dólares canadenses.
Naquele momento, as garantias financeiras depositadas pelas empresas junto ao governo provincial totalizavam apenas 1,4 bilhão de dólares canadenses, o equivalente a menos de 1,1% do custo estimado de limpeza.
Documentos internos do regulador energético da província indicavam um cenário ainda mais preocupante. Caso as empresas encerrassem suas operações sem constituir reservas financeiras suficientes, o custo potencial para os contribuintes canadenses poderia chegar a 260 bilhões de dólares canadenses. Para efeito de comparação, o PIB da Noruega em 2023 foi de aproximadamente 550 bilhões de dólares.
Apesar de mais de meio século de exploração das areias betuminosas, nenhuma área significativa de lagoas de rejeitos foi totalmente restaurada até hoje. Apenas cerca de 1 quilômetro quadrado de área minerada foi oficialmente certificado como recuperado.
Proposta de despejar água tratada no Rio Athabasca gera controvérsia
Em 2022, um consórcio de empresas que operam nas areias betuminosas apresentou uma proposta inédita ao governo federal canadense. A ideia era obter autorização para liberar parte da água armazenada nas lagoas de rejeitos no Rio Athabasca, após um processo de tratamento parcial.
A proposta gerou forte reação de comunidades indígenas, pesquisadores e organizações ambientais. O principal argumento dos críticos é que não existe tecnologia capaz de remover completamente os ácidos naftênicos e os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos da água antes do despejo.
Esses compostos são altamente persistentes no ambiente e podem permanecer ativos por décadas, afetando peixes, plantas aquáticas e toda a cadeia alimentar.
O Rio Athabasca alimenta o Delta Peace-Athabasca, um ecossistema reconhecido pela UNESCO e essencial para a pesca, caça e cultura de diversas nações indígenas que habitam a região há milhares de anos. Até 2024, o governo federal canadense ainda analisava a proposta, sem regulamentação definitiva para permitir ou proibir formalmente o despejo.
Lagoas de rejeitos das areias betuminosas representam um problema ambiental sem solução simples
O problema das lagoas de rejeitos de Alberta não possui solução fácil porque envolve uma equação física e industrial de escala gigantesca. A produção de betume a partir de areia exige água, calor e produtos químicos. Enquanto a extração continuar, novos rejeitos continuarão sendo gerados.
As lagoas crescem mais rápido do que qualquer tecnologia conhecida consegue tratá-las. O material acumulado no fundo leva décadas ou até séculos para se estabilizar, e enquanto esse processo não acontece o terreno não pode ser restaurado.
A indústria continua operando porque as areias betuminosas representam mais de 60% da produção total de petróleo do Canadá, e o país é atualmente o quarto maior produtor de petróleo do mundo. Essa produção gera empregos, royalties e receitas fiscais importantes para a economia canadense.
O resultado é uma equação que se prolonga há mais de meio século: a produção de petróleo continua enquanto o passivo ambiental cresce silenciosamente. E o que resta dessa atividade industrial gigantesca pode ser visto até mesmo do espaço, como enormes manchas escuras no norte de Alberta.

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