Vans baratas da Asia Motors dominaram o Brasil nos anos 90, sumiram em menos de dez anos e deixaram dívida bilionária em impostos sem dono definido até hoje no país
Nos anos 90, as vans baratas da Asia Motors lotaram ruas brasileiras com Towner e Topique, prometeram fábrica em Camaçari, aproveitaram descontos fiscais, pararam de importar em 1999 e deixaram uma dívida de impostos que hoje passa de dois bilhões de reais, sem responsável claro na Justiça brasileira até agora.
Fundada em 2 de julho de 1965 na Coreia do Sul, a Asia Motors chegou oficialmente ao Brasil em 1993, cresceu rápido ao longo da década, aderiu ao regime automotivo com metas até 1999 e foi extinta em 2000, depois de a Hyundai assumir a Kia em 1998 e de a operação brasileira interromper as importações em 1999, sem cumprir as promessas de produção local ligadas às vans baratas da Asia Motors.
Como as vans baratas da Asia Motors viraram febre nas ruas brasileiras

Nos anos 90, o Brasil tinha basicamente a Kombi como van de trabalho, um projeto antigo que mudava pouco desde a década de 70.
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Esse cenário abriu espaço para as vans baratas da Asia Motors, que chegaram com proposta mais moderna, motores econômicos e preços agressivos.
A microvan Towner, baseada em projeto de keicar japonês, ficou conhecida como carro do hot dog e virou ferramenta de trabalho para vendedores ambulantes em várias cidades. Pequena por fora, versátil por dentro, oferecia versões fechadas de carga, picape, furgão envidraçado e opção de passageiros, sempre com foco em custo baixo e consumo contido.
A Topique, de porte maior, passou a disputar espaço com a Kombi em 1994, com motor diesel de 2,7 litros, câmbio manual de cinco marchas e capacidade para até 16 passageiros.
Em poucos anos, as vans baratas da Asia Motors tornaram-se presença constante em transporte escolar, fretamento e serviços urbanos, ajudando a pressionar concorrentes tradicionais a atualizar seus modelos.
Promessas de fábrica, regime automotivo e prazos que nunca foram cumpridos

Com o sucesso da Towner e da Topique, a operação Asia Motors do Brasil passou a defender a produção local. Em 1995, foi anunciada uma fábrica em Serra, no Espírito Santo, em área ligada à Kia, com previsão de início em 1997 e capacidade de até 50 mil unidades anuais dos dois modelos, em regime de montagem com kits importados.
Logo depois, o plano mudou.
Em 1997, a promessa definitiva passou a ser uma planta em Camaçari, na Bahia, com capacidade inicial de 36 mil unidades da Towner e 24 mil da Topique por ano, ampliada no discurso para até 130 mil veículos anuais.
Na prática, nem terraplenagem foi licitada a tempo e a estrutura para produzir as vans baratas da Asia Motors nunca saiu do papel.
Enquanto isso, a empresa aproveitava o regime automotivo, que concedia redução de até 50 por cento nos impostos de importação para quem se comprometesse a investir em fábrica e exportar até o fim de 1999.
A Asia Motors do Brasil pediu sucessivas flexibilizações de prazos e metas de nacionalização, tentando manter o benefício ao mesmo tempo em que não conseguia avançar na obra.
Crise asiática, Hyundai no comando e desaparecimento em menos de dez anos
A fragilidade do projeto brasileiro coincidiu com um choque externo pesado.
Em 1997, a Kia Motors foi atingida em cheio pela crise financeira asiática, acumulando mais de 10 bilhões de dólares em dívidas e entrando em concordata.
Em novembro de 1998, a Hyundai venceu o leilão internacional e assumiu o controle da Kia e da Asia Motors.
Pouco depois, a matriz decidiu concentrar esforços na marca Kia e extinguir a Asia Motors em 2000.
No Brasil, a importação dos utilitários havia sido interrompida em 1999, encerrando em menos de dez anos a presença das vans baratas da Asia Motors que tinham dominado o segmento de pequenas vans comerciais.
As promessas de produção em Camaçari ficaram apenas no anúncio, sem fábrica operando, sem exportações e sem metas industriais cumpridas.
A dívida bilionária em impostos que ficou sem responsável
Com a fábrica nunca iniciada e o regime automotivo descumprido, o governo federal suspendeu os benefícios e passou a cobrar os impostos de importação não recolhidos entre 1996 e 1997.
A multa foi estimada inicialmente em 210 milhões de dólares e, ao longo dos anos, a dívida chegou a cerca de 2 bilhões de reais em valores atualizados, ligada diretamente à operação da Asia Motors do Brasil.
As tentativas de responsabilizar a Kia Motors na Justiça foram rejeitadas sob o argumento de que a montadora coreana não tinha vínculo jurídico direto com a importadora brasileira.
Com a extinção da Asia Motors e a falência da operação local, a dívida das vans baratas da Asia Motors passou a constar no nome de uma empresa sem capacidade de pagamento, ficando sem execução prática.
A cobrança também foi tentada contra a Hyundai, após a aquisição da Kia e da Asia Motors.
Em 2012, decisões judiciais afastaram a obrigação da Hyundai de assumir a dívida, reafirmando que não havia ligação legal com a importadora brasileira que se beneficiou do regime automotivo.
Décadas depois da febre das vans nos anos 90, a pendência tributária continua sem solução clara.
Quando o nome volta às ruas, mas sem relação com a velha dívida
Em 2009, uma nova empresa brasileira resgatou os nomes Towner e Topique, agora para importar veículos comerciais chineses das marcas Rafi e Effa, sem qualquer vínculo com a antiga Asia Motors.
A ideia era usar a força de memória das vans baratas da Asia Motors, que ainda eram lembradas por comerciantes e motoristas, mesmo depois de anos fora do mercado.
A nova Towner deixou de ser importada em 2013 e a Topique permaneceu até 2015.
Os nomes foram parar em processos judiciais e chegaram a ser colocados à venda em 2023 como tentativa de cobrir parte da dívida da Asia Motors do Brasil, sem confirmação pública de venda concreta.
O uso posterior das marcas mostra que o impacto comercial das antigas vans resistiu mais tempo do que a própria fabricante.
Enquanto isso, a discussão sobre quem deve pagar a conta dos incentivos usados pelas vans baratas da Asia Motors permanece em aberto.
A combinação de promessa industrial não cumprida, crise internacional, reestruturação de grupos automotivos e lacunas contratuais ajudou a transformar um caso de sucesso comercial rápido em um contencioso tributário que atravessa governos, sem encerramento definitivo.
Diante dessa história em que as vans baratas da Asia Motors viraram febre, desapareceram em menos de uma década e deixaram uma dívida bilionária sem dono claro, na sua opinião quem deveria responder hoje por essa conta que ficou para o Brasil?
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