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Com 29.000 toneladas de lixo recebidas por dia e colinas de 70 metros de altura, o aterro Fresh Kills, em Nova York, foi por décadas a maior estrutura construída pelo ser humano visível do espaço, e o metano que ainda fermenta embaixo abastece de eletricidade 22.000 residências

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 14/03/2026 às 14:49
Com 29.000 toneladas de lixo recebidas por dia e colinas de 70 metros de altura, o aterro Fresh Kills, em Nova York, foi por décadas a maior estrutura construída pelo ser humano visível do espaço, e o metano que ainda fermenta embaixo abastece de eletricidade 22.000 residências
Com 29.000 toneladas de lixo recebidas por dia e colinas de 70 metros de altura, o aterro Fresh Kills, em Nova York, foi por décadas a maior estrutura construída pelo ser humano visível do espaço, e o metano que ainda fermenta embaixo abastece de eletricidade 22.000 residências
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Durante décadas, Fresh Kills simbolizou o auge do lixo urbano: um aterro gigantesco em Nova York que virou montanha artificial, visível do espaço e hoje ainda gera energia a partir do metano.

Em 1948, Robert Moses — o urbanista que moldou Nova York por quarenta anos — olhou para um pântano de maré no lado oeste de Staten Island e disse que era inútil. O terreno não servia para construção. Não servia para agricultura. Não gerava receita. Havia apenas uma utilidade razoável para aquela lama: enterrar o lixo da cidade. O plano era simples. O aterro funcionaria por três anos. Depois seria fechado e o terreno desenvolvido para habitação. Três anos tornaram-se 53.

Quando a última balsa de lixo aportou em Fresh Kills, em 22 de março de 2001, o local havia acumulado 150 milhões de toneladas de resíduos sólidos — formando quatro colinas de até 70 metros de altura que dominavam o horizonte de Staten Island e podiam ser identificadas em imagens de satélite. Para o arqueólogo Martin Jones, da Universidade de Cambridge, Fresh Kills era “uma das maiores estruturas construídas pelo ser humano na história do mundo”. O lixo havia vencido.

A matemática impossível do lixo de uma metrópole

Nova York produz lixo em escala industrial. Na segunda metade do século XX, enquanto a população crescia e o consumo explodia no pós-guerra, a cidade precisou de uma solução permanente para seus resíduos domésticos. Fresh Kills era perfeito logisticamente. Ficava em Staten Island — o borough mais afastado, com menor poder político — e o lixo chegava de barco pelo estuário de Arthur Kill, direto dos cais de Manhattan e Brooklyn. Não havia caminhões cruzando pontes, não havia reclamações de bairros nobres. O lixo sumia dentro de barcaças e reaparecia, silenciosamente, no pântano.

No pico das operações, entre 1986 e 1987, Fresh Kills recebia 29.000 toneladas de lixo por dia. O equivalente ao peso de 129 Estátuas da Liberdade, todo dia, ano após ano. A partir de 1991, era o único aterro ativo que recebia resíduos domésticos de toda a cidade — os demais haviam sido fechados sob pressão ambiental. O que chegava a Staten Island era tudo.

Eram 680 funcionários. Tratores, compactadores e motoniveladoras trabalhavam em turnos contínuos para espalhar o lixo em camadas finas, compactar e cobrir com solo. As quatro colinas — chamadas de “montículos” nos documentos oficiais — cresciam centímetro a centímetro, tonelada por tonelada.

Nos anos 1960, o lixão havia crescido tanto que os trabalhadores precisaram construir nova infraestrutura interna só para conseguir chegar às frentes de descarga. Nos anos 1970, uma infestação de ratos ameaçava tomar a ilha. A solução foi declarar o aterro santuário de pássaros silvestres e trazer falcões, corujas e gaviões para controlar os ratos. Funcionou. Fresh Kills tornou-se, simultaneamente, um aterro industrial e um refúgio de fauna.

O cheiro que definia uma geração

Para os moradores de Staten Island, Fresh Kills não era uma abstração. Era o horizonte. O odor permeava os bairros mais próximos em dias de vento. Crianças cresceram sem ver o horizonte sobre os morros de lixo — a linha de chegada de cada dia era interrompida por uma elevação artificial coberta de gaivotas. Reclamações formais de cheiro, saúde e qualidade de vida começaram em 1949, um ano depois da abertura. E continuaram por décadas.

Os moradores de Staten Island eram os que mais queriam fechar o aterro. E os que menos poder tinham para forçar a cidade a encontrar alternativas. O resto dos cinco boroughs queria uma solução conveniente para o lixo e não queria pagar o custo político de enfrenta-la. Staten Island pagava a conta.

Essa assimetria política durou décadas. Só nos anos 1990, com o Estado de Nova York pressionando e o governador Pataki alinhado ao prefeito Giuliani, foi estabelecido um prazo para o fechamento: 31 de dezembro de 2001. O aterro fechou nove meses antes da data, em março de 2001. Seis meses depois, precisou reabrir.

11 de setembro

O fechamento de Fresh Kills durou menos de um semestre. Na manhã de 12 de setembro de 2001 — menos de 24 horas depois dos ataques — o governador do Estado de Nova York assinou uma ordem administrativa reabrindo temporariamente o aterro. O motivo: não havia outro lugar na região metropolitana com espaço e capacidade logística para processar o volume de entulho do World Trade Center.

Ao longo dos dez meses seguintes, cerca de 500 barcaças transportaram 1,4 milhão de toneladas de material de Ground Zero até Fresh Kills. O material chegava, era descarregado e passado por peneiras de um quarto de polegada — malha suficientemente fina para capturar fragmentos de ossos, documentos, pertences pessoais.

Milhares de detetives e especialistas forenses trabalharam por mais de 1,7 milhão de horas no local. Foram identificados 4.257 fragmentos de restos humanos — mas apenas 300 pessoas puderam ser identificadas com base nesse material. Os demais fragmentos foram enterrados num setor específico de 48 acres do aterro, com camadas de solo limpo acima e abaixo.

Naquele aterro de Staten Island que a cidade havia tentado fechar, os destroços do maior ataque terrorista em solo americano encontraram seu lugar definitivo. Em 2011, um memorial foi inaugurado no local para honrar as vítimas cujos restos não puderam ser identificados.

O que está embaixo das colinas

Enterrada sob 150 milhões de toneladas de lixo compactado e coberta por camadas de argila impermeável, solo e vegetação, a decomposição continua. O lixo orgânico — restos de comida, papel, madeira — fermenta em ambiente anaeróbico durante décadas. O processo libera metano em quantidades industriais. No pico da produção de gás, Fresh Kills emitia mais de 15 bilhões de pés cúbicos de gases de efeito estufa por ano — aproximadamente 2% de todo o metano emitido no mundo em determinados períodos da década de 1990.

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A engenharia moderna transformou esse passivo em recurso. Uma rede de poços perfurados nas colinas capta o gás antes que ele alcance a atmosfera. O metano é purificado numa planta industrial instalada no próprio local, convertido em gás de pipeline e injetado na rede de distribuição doméstica. No pico dessa operação, o metano de Fresh Kills aquecia 22.000 residências de Staten Island por ano e gerava até US$ 12 milhões anuais em receita para a cidade. Debaixo de cada colina verde, poços e tubulações continuam trabalhando. O lixo segue fermentando.

Três vezes o tamanho do Central Park

O plano para Fresh Kills foi aprovado em 2006 e é o maior projeto de recuperação ambiental urbana dos Estados Unidos: transformar o maior lixão do mundo num parque público de 890 hectares — quase três vezes o tamanho do Central Park e o segundo maior parque de Nova York quando concluído.

O processo é, em si, uma obra de engenharia. Cada colina recebeu camadas sobrepostas: primeiro uma camada de material de nivelamento, depois uma membrana impermeável de plástico de alta densidade, depois argila compactada, depois solo de cobertura, depois solo fértil com no mínimo 15 centímetros de profundidade, e finalmente a camada de vegetação com gramíneas nativas.

Área recuperada em Freshkills.

Debaixo de tudo isso, uma rede de tubulações captura o lixiviado — o líquido tóxico que escorre da decomposição do lixo, carregando metais pesados, compostos orgânicos e PCBs — e conduz até a estação de tratamento no local.

A seção North Park, de 21 acres, abriu ao público em outubro de 2023 — a primeira área formalmente acessível. É possível caminhar, andar de bicicleta e praticar caiaque nos canais restaurados. A conclusão total está prevista para entre 2035 e 2037.

Em 2015, um bioblitz de 24 horas registrou 320 espécies de plantas e animais no local. Hoje o parque abriga a maior colônia reprodutora de pardais campestres do Estado de Nova York — uma espécie de preocupação especial para conservacionistas — além de falcões peregrinos, guarda-rios, cervos e raposas vermelhas. Mais de 200 espécies de aves já foram registradas.

A conta que ficou para o resto do país

Quando Fresh Kills fechou em 2001, Nova York não parou de produzir lixo. Passou simplesmente a exportar o problema. O lixo dos cinco boroughs passou a ser transportado de trem e caminhão para aterros em outros estados — principalmente Pensilvânia, mas também Virgínia, Ohio e, mais recentemente, Carolina do Sul. Um trem de vagões laranjas, visível do parque em construção, carrega regularmente os resíduos gerados por Staten Island para depósitos fora do estado.

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A Comissária do Departamento de Parques de Nova York colocou em palavras o que os moradores de Staten Island já sabem há décadas: “Nosso lixo ainda está afetando outras pessoas.” Fechar Fresh Kills não resolveu o problema do lixo — só transferiu o custo para outras comunidades, geralmente mais pobres e com menos poder político.

O que Fresh Kills diz sobre as cidades

Fresh Kills durou 53 anos porque era conveniente ignorá-lo. Ficava no borough mais isolado, longe dos bairros que tomavam as decisões políticas. O lixo chegava de barco, invisível. Crescia devagar o suficiente para não alarmar, rápido o suficiente para dominar o horizonte.

É o modelo clássico dos chamados “zonas de sacrifício” — áreas que pagam os custos ambientais do consumo metropolitano enquanto os benefícios se distribuem pelo restante da cidade. A diferença, em Fresh Kills, é que a zona de sacrifício era grande o suficiente para ser vista do espaço.

Hoje, as colinas verdes de Staten Island — com seus poços de metano, suas membranas impermeáveis e seus pardais aninhando em gramíneas nativas — representam outra categoria de estrutura humana: o maior projeto de recuperação ambiental urbana em curso nas Américas. Onde havia o maior lixão do mundo, surge o parque mais novo de Nova York. O lixo está lá embaixo. E vai continuar fermentando por décadas.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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