Após a seca do Milênio, Austrália construiu megadesalinizadoras que produzem até 410 milhões de litros por dia e garantem até 33% da água de grandes cidades.
Entre 1997 e 2009, o sudeste da Austrália enfrentou o que ficou conhecido como Millennium Drought, um dos períodos de seca mais severos já registrados no país. Segundo o Bureau of Meteorology, os níveis dos reservatórios em cidades como Melbourne e Sydney chegaram a patamares críticos, forçando restrições severas de consumo. Em 2007, os reservatórios de Melbourne chegaram a cerca de 33% da capacidade. Em Perth, a situação era ainda mais grave: a dependência histórica de chuvas de inverno havia se tornado insustentável após décadas de redução nas precipitações.
A resposta do governo australiano foi estrutural e cara.
Megadesalinizadoras entram em operação
A solução escolhida foi a construção de usinas de dessalinização por osmose reversa em larga escala, com capacidade de produzir centenas de milhões de litros de água potável por dia a partir do mar.
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Perth – Western Australia
A Perth Seawater Desalination Plant entrou em operação em 2006, com capacidade inicial de aproximadamente 45 bilhões de litros por ano. Posteriormente, uma segunda planta — Southern Seawater Desalination Plant, ampliou a produção total.

Hoje, segundo a Water Corporation, cerca de 50% da água consumida em Perth já vem da dessalinização, tornando a cidade uma das mais dependentes dessa tecnologia no mundo.
Melbourne – Victoria
A Victorian Desalination Plant, localizada em Wonthaggi, entrou em operação em 2012.
- Capacidade máxima: 410 milhões de litros por dia (ML/dia)
- Produção anual possível: cerca de 150 bilhões de litros
- Pode fornecer até 33% da demanda de Melbourne
O projeto custou aproximadamente AUD 3,5 bilhões e foi um dos maiores investimentos em infraestrutura hídrica da história do estado.
Sydney – New South Wales
A Sydney Desalination Plant foi concluída em 2010, com capacidade de até 250 milhões de litros por dia, equivalente a aproximadamente 15% do abastecimento da cidade.

A planta foi inicialmente desativada após o fim da seca, mas voltou a operar em 2017 quando os reservatórios caíram novamente.
Energia: o custo invisível da água do mar
Dessalinizar água é energeticamente intensivo.
A osmose reversa exige pressões elevadas para forçar a água do mar através de membranas que removem o sal. Isso significa alto consumo de eletricidade.
Para mitigar o impacto ambiental, algumas plantas foram projetadas com contratos de energia renovável:
- A planta de Perth opera com energia eólica integrada à rede.
- A planta de Melbourne tem contratos de energia renovável para compensação de emissões.
Ainda assim, especialistas destacam que a dessalinização permanece uma solução de alto custo energético quando comparada a fontes convencionais.
Produção sob demanda: usinas que podem ligar e desligar
Diferentemente de reservatórios tradicionais, as megadesalinizadoras australianas operam em regime ajustável.
Elas podem ser ativadas ou ter a produção ampliada quando os níveis dos reservatórios caem abaixo de determinados limites.
Isso cria um sistema híbrido de abastecimento:
- Reservatórios naturais
- Recarga de aquíferos
- Dessalinização como seguro hídrico
Esse modelo foi adotado como estratégia de resiliência climática.
Custo econômico e debate público
Os projetos foram alvo de críticas por seu alto custo. Em Melbourne, mesmo quando a planta operava abaixo da capacidade máxima, os custos fixos do contrato eram pagos pelos consumidores através da tarifa de água.
Debates parlamentares ocorreram entre 2012 e 2016 sobre a necessidade de manter contratos ativos mesmo em anos de chuva normal.
No entanto, defensores argumentam que o investimento representa um seguro contra colapso hídrico futuro.
Impactos ambientais
A dessalinização envolve dois principais impactos ambientais:
- Consumo energético elevado
- Descarga de salmoura concentrada no oceano
As plantas australianas utilizam sistemas de dispersão submarina para diluir a salmoura antes da devolução ao mar, seguindo normas ambientais estaduais.
Monitoramentos ambientais são conduzidos para avaliar impacto em ecossistemas marinhos.
Mudanças climáticas e previsões futuras
Estudos do CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation) indicam que o sudoeste australiano pode continuar enfrentando redução de chuvas no inverno devido a mudanças climáticas.
Isso torna a dessalinização não apenas uma resposta emergencial, mas parte estrutural do sistema hídrico nacional. Perth já não depende majoritariamente de reservatórios superficiais.
Dessalinização como política permanente
Ao contrário do que ocorreu em alguns países onde usinas foram subutilizadas, na Austrália a dessalinização se consolidou como pilar estratégico.
Hoje, as grandes cidades australianas possuem um sistema de múltiplas fontes:
- Água de superfície
- Água subterrânea
- Reúso tratado
- Dessalinização
Essa diversificação é considerada essencial para enfrentar eventos extremos cada vez mais frequentes.
O que isso significa para o futuro urbano
O modelo australiano passou a ser estudado internacionalmente como caso de adaptação climática. Embora energeticamente intensiva, a dessalinização garante previsibilidade em um cenário de chuvas irregulares.
Em um país onde grande parte da população vive próxima à costa, o oceano passou a ser tratado como reserva estratégica. Após a seca do Milênio, a Austrália decidiu não depender exclusivamente da chuva.
Hoje, megadesalinizadoras bombeiam centenas de milhões de litros de água do mar diariamente para cidades como Perth, Melbourne e Sydney.
Algumas garantem até um terço do abastecimento urbano. A água agora não depende apenas do céu — depende também de membranas, turbinas e energia.
E em um mundo de eventos climáticos extremos, a Austrália transformou o oceano em parte permanente de sua segurança hídrica.
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