A maior parte do petróleo da Deepwater Horizon nunca foi vista de novo na superfície. Cientistas descobriram que bactérias que comem petróleo foram as principais responsáveis por esse sumiço, mas o mesmo processo que ajuda a limpar o mar também cria zonas mortas e acelera a corrosão de aço no Golfo do México.
Por 87 dias, um poço fora de controle despejou 779 milhões de litros de petróleo bruto no Golfo do México. O mundo inteiro assistiu ao desastre em tempo real, enquanto navios, helicópteros e satélites tentavam estimar o tamanho da catástrofe. E então surgiu o enigma. Mesmo com todo esse volume, cerca de 75 por cento do petróleo desapareceu da superfície e do fundo do mar. O que ninguém conseguiu remover com barreiras, queima controlada e dispersantes químicos, bactérias que comem petróleo começaram a atacar silenciosamente dentro da água.
O mistério do sumiço não se resolveu apenas no Golfo. Em um pequeno lago de pesquisa no Canadá, cientistas reproduziram um mini derramamento e viram a mesma cena em escala reduzida. Uma camada de óleo aparentemente impossível de limpar começou a desaparecer à medida que bactérias que comem petróleo raras explodiam em número e assumiam o controle do ecossistema. A partir dessa pista, ficou claro que a Terra vem treinando microrganismos para lidar com petróleo há milhões de anos. O problema é que esse exército invisível não atua sem custo: ao devorar o óleo, bactérias que comem petróleo também podem retirar o oxigênio da água, criar zonas sem vida e acelerar a destruição de naufrágios e dutos no Golfo do México.
Deepwater Horizon, 779 milhões de litros e a pergunta que ninguém sabia responder

Na noite de 20 de abril de 2010, a plataforma Deepwater Horizon explodiu no Golfo do México. As chamas atingiram a altura de um prédio de 20 andares e, dois dias depois, a estrutura afundou a mais de 1500 metros de profundidade.
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A válvula de segurança não funcionou e o poço passou a jorrar petróleo como um vulcão negro, sem controle por 87 dias seguidos.
No total, 779 milhões de litros de petróleo bruto e centenas de milhares de toneladas de gás natural foram liberados na água. O óleo escureceu ondas, encobriu praias da Luisiana, Mississippi, Alabama e Flórida e transformou areia branca em lama tóxica.
Em muitos pontos, o petróleo era tão espesso que parecia argila sendo retirada à pá. Peixes, tartarugas e golfinhos emergiam pela última vez em águas saturadas de metano e afundavam sem voltar à superfície.
Os Estados Unidos mobilizaram tudo o que tinham. Barcos de sucção, queima de óleo na superfície, barreiras flutuantes, dispersantes químicos em grande escala. No final, todo esse esforço recuperou apenas entre 15 e 25 por cento do total derramado.
O restante, mais de 75 por cento do petróleo, simplesmente sumiu das contas oficiais. Não estava na superfície, não formava tapetes no fundo e não batia com os modelos de computador, que previam camadas espessas de óleo em vários pontos do Golfo.
Foi nesse ponto que a pergunta passou de técnica para quase filosófica: se quase nada foi recuperado e o oceano não estava coberto por petróleo, quem ou o que comeu esse petróleo?
A pista em um lago no Canadá: quando o petróleo vira alimento microbiano
Para responder a essa pergunta, cientistas tiveram que sair do Golfo do México e olhar para um cenário controlado.
Em um lago de pesquisa em Ontário, no Canadá, eles isolaram uma pequena área, despejaram petróleo bruto e repetiram o protocolo humano de limpeza: remoção da película superficial, lavagem da margem, coleta de resíduos. Mesmo assim, uma fração do óleo insistia em ficar infiltrada na água e no sedimento.
A partir daí começou o que realmente interessava. Por meses, eles coletaram amostras de água e sedimento e acompanharam a comunidade de microrganismos. Em poucos dias, a microbiota do lago se transformou.
Espécies de bactérias que ninguém quase via antes passaram a dominar a região contaminada. Ao analisar o DNA, a equipe descobriu o padrão: eram bactérias que comem petróleo, equipadas com enzimas capazes de quebrar hidrocarbonetos, o principal componente do óleo bruto.
O mais surpreendente não foi descobrir que bactérias que comem petróleo existem, mas perceber que elas não surgiram por causa da indústria moderna.
Todos os anos, mais de 1,3 milhão de toneladas de petróleo vazam naturalmente por fendas no fundo dos oceanos. Desde a época dos dinossauros, óleo escorre lentamente para o mar. Em um ambiente saturado de hidrocarbonetos, a evolução fez o que sempre faz: selecionou microrganismos especializados.
Essas bactérias que comem petróleo passaram milhões de anos afinando suas armas. Elas detectam moléculas de hidrocarbonetos à distância, nadam seguindo o gradiente de concentração e ativam enzimas que cortam essas cadeias de carbono em pedaços menores, até que se tornem dióxido de carbono dissolvido, água e biomassa bacteriana. O lago canadense apenas deixou esse processo visível em escala reduzida.
Como funcionam as bactérias que comem petróleo no oceano
Quando se fala em bactérias que comem petróleo, não existe uma espécie única resolvendo tudo. O petróleo é uma mistura complexa de centenas de estruturas de hidrocarbonetos, de cadeias simples a anéis aromáticos extremamente estáveis. Por isso, a natureza montou uma cadeia de trabalho microbiana.
As pioneiras, como as bactérias do grupo Alcanivorax, chegam primeiro. Elas percebem o óleo via quimiotaxia, nadam até a pluma contaminada e liberam enzimas que atacam principalmente os alcanos, as cadeias mais simples. É como se usassem um alicate invisível cortando uma corrente muito longa em elos menores.
Assim que essa etapa termina, outros grupos entram em cena. Espécies como Marinobacter assumem os fragmentos intermediários.
No final da linha estão microrganismos como Cycloclasticus, capazes de atacar os anéis aromáticos mais resistentes.
A soma de todos esses grupos forma o que muitos pesquisadores chamam de exército de bactérias que comem petróleo, um consórcio microbiano que desmancha o óleo passo a passo.
Em condições ideais, com bastante oxigênio e abundância de petróleo, a população dessas bactérias que comem petróleo pode aumentar de 300 a 500 vezes em poucas semanas.
Um pesquisador comparou o processo a um incêndio que recebe mais vento. Cada litro adicional de óleo funciona como combustível para multiplicar o exército que está tentando eliminá-lo.
O Golfo do México como sistema imunológico treinado
Se um lago pequeno consegue ativar rapidamente bactérias que comem petróleo, o que acontece em um mar inteiro que convive com hidrocarbonetos há milhões de anos
O Golfo do México não é um oceano qualquer. Ali existem mais de mil pontos de vazamento natural de petróleo, onde óleo escorre todos os dias do subsolo para a água do mar. Isso transformou a região em uma espécie de sistema imunológico natural da Terra, onde bactérias que comem petróleo não só sobrevivem, mas são constantemente treinadas por essa exposição crônica.
Além dos vazamentos naturais, o Golfo concentra parte importante da indústria petrolífera. Pequenos vazamentos de navios, oleodutos e plataformas funcionam como micro doses regulares de petróleo, algo parecido com uma vacinação microbiológica de décadas. Do ponto de vista das bactérias, é como viver em um laboratório de treinamento permanente.
Some a isso um terceiro fator decisivo. As bactérias que comem petróleo são mais eficientes em águas quentes. Elas funcionam melhor entre 20 e 30 graus.
O Golfo raramente desce abaixo dessa faixa. A combinação de água quente, petróleo constante e oxigênio criou uma panela de pressão biológica.
Quando a Deepwater Horizon explodiu, as bactérias que comem petróleo já estavam prontas, adaptadas e em alta abundância. Elas não precisaram de tempo para aprender a usar o óleo como alimento.
O contraste com o frio do Alasca é brutal. No desastre do Exxon Valdez, em 1989, o petróleo ainda hoje pode ser retirado em blocos quase intactos sob a areia gelada.
A água fria faz as enzimas das bactérias que comem petróleo praticamente congelarem, desacelerando o processo a ponto de parecer que o tempo parou.
No Golfo do México, o cenário foi o oposto. A temperatura alta transformou essas bactérias em máquinas biológicas turbinadas, capazes de reduzir rapidamente a concentração de óleo na coluna d água.
A nuvem invisível e o lado sombrio das bactérias que comem petróleo

Mesmo assim, havia algo estranho nos números da Deepwater Horizon. A velocidade com que o petróleo desaparecia era tão alta que modelos de computador, radares e robôs submersíveis simplesmente não conseguiam acompanhar.
Quando veículos remotos desceram a cerca de mil metros de profundidade, não encontraram um tapete negro de óleo cobrindo o fundo, como muitos esperavam.
Em vez disso, viram uma gigantesca nuvem turva de petróleo suspensa na coluna d água, com dezenas de quilômetros de comprimento e centenas de metros de espessura. Um oil plume que não afundava nem subia totalmente, uma tempestade invisível no meio do mar.
Amostras dessa nuvem mostraram que a concentração de hidrocarbonetos era de 100 a 500 vezes menor do que o previsto, sinal claro de que bactérias que comem petróleo já estavam trabalhando ali em escala massiva.
Só que esse exército tem um preço. Para crescer de 300 a 500 vezes, bactérias que comem petróleo precisam de oxigênio em grandes quantidades.
Quando trilhões de células começam a decompor o óleo ao mesmo tempo, elas retiram rapidamente o oxigênio dissolvido da água. O resultado são zonas mortas, áreas onde peixes, crustáceos e tartarugas não conseguem sobreviver.
Medições no Golfo do México registraram quedas de 30 a 50 por cento nos níveis de oxigênio em algumas regiões ligadas ao plume da Deepwater Horizon, valores suficientes para matar espécies acostumadas a ambientes extremos.
Um pesquisador resumiu com frieza: essas bactérias comem o petróleo, mas podem acabar devorando o ecossistema ao redor também.
O lado sombrio não para aí. O Golfo do México abriga mais de dois mil naufrágios, incluindo navios com séculos de idade. Amostras de aço retiradas desses destroços começaram a mostrar taxas anormais de corrosão depois do desastre.
O motivo é que algumas bactérias que comem petróleo produzem ácidos graxos e compostos sulfurados ao decompor o óleo. Esses subprodutos químicos corroem aço de 5 a 20 vezes mais rápido do que a corrosão natural, ameaçando tanto a arqueologia submersa quanto dutos, válvulas e plataformas de petróleo.
Navios que suportaram tempestades por centenas de anos agora enfrentam um inimigo microscópico, alimentado justamente pelo petróleo que escapa no fundo do mar.
Por que não basta acelerar as bactérias que comem petróleo

Diante do desaparecimento misterioso de tanto óleo, muitas empresas imaginaram um atalho: se bactérias que comem petróleo fazem esse trabalho de graça, por que não acelerar o processo com tecnologia humana
Primeiro se tentou lançar bactérias cultivadas em laboratório, cepas otimizadas para degradar hidrocarbonetos. Em placas de Petri, essas células funcionavam perfeitamente. No oceano real, fracassaram.
A microbiota nativa, bactérias que comem petróleo que já viviam no Golfo, estava tão bem adaptada que consumiu os nutrientes disponíveis antes que as cepas artificiais pudessem se estabelecer. As bactérias de laboratório simplesmente foram ultrapassadas e eliminadas do sistema.
A segunda ideia foi fertilizar o mar, adicionando nitrogênio e fósforo para alimentar as bactérias que comem petróleo locais. Em algumas áreas, a degradação até acelerou, mas nunca na velocidade que se sonhava. Em outras, o excesso de nutrientes provocou sintomas de eutrofização, reduzindo ainda mais o oxigênio e complicando o quadro.
No fim, os cientistas esbarraram em um limite básico. Por mais poderosas que sejam, bactérias que comem petróleo não podem trabalhar infinitamente mais rápido sem risco. Se uma linhagem fosse capaz de decompor petróleo bruto instantaneamente, ela também poderia atacar outros materiais com estrutura semelhante, como certos plásticos, asfaltos e até componentes de infraestrutura costeira. A própria natureza parece impor um teto de segurança para que esse poder químico não se volte contra todo o resto.
Quando o petróleo alimenta ecossistemas inteiros
Com toda essa história de zonas mortas e aço corroído, seria fácil imaginar o petróleo no fundo do mar apenas como um veneno absoluto. Mas as expedições no Golfo do México mostraram outro lado, ainda mais inesperado.
A mais de três mil metros de profundidade, onde a pressão esmagaria aço e a escuridão é permanente, existem os chamados vulcões de asfalto.
São pontos em que o petróleo vazou naturalmente e se solidificou ao longo de milhares de anos, formando rios negros e brilhantes no fundo do mar. Em vez de campos estéreis, robôs submersíveis encontraram ecossistemas vibrantes em cima dessas estruturas de asfalto.
Mexilhões formam colônias densas, caranguejos vermelhos circulam pelas bordas das fissuras, vermes tubícolas se enterram profundamente no material escuro e até esponjas e corais crescem ao redor. Nenhuma dessas espécies come petróleo diretamente.
O segredo está nas bactérias simbióticas que vivem dentro dos tecidos desses animais, muitas delas aparentadas às mesmas bactérias que comem petróleo livres na água. Em vez de transformar o óleo em zona morta, esse arranjo converte um vazamento natural em base energética para uma comunidade inteira.
Esses vulcões de asfalto mostram que a relação entre bactérias que comem petróleo e o resto do oceano é ambígua. Em alguns contextos, elas amenizam o impacto de um derramamento. Em outros, criam novas formas de vida. E, em situações extremas, podem transformar regiões inteiras em deserto de oxigênio.
Biotecnologia, plástico e o futuro da limpeza do oceano
A capacidade das bactérias que comem petróleo inspirou uma nova geração de pesquisas. Em laboratório, cientistas já mostraram que certos fungos conseguem degradar óleos pesados, transformando lubrificantes usados em compostos muito menos tóxicos.
Outro marco foi a descoberta de uma bactéria capaz de degradar PET, o plástico das garrafas. Em um ambiente controlado, ela converte esse material em açúcares em cerca de 24 horas, comparados a centenas de anos que o plástico levaria para se decompor sozinho.
A partir dessa linha de raciocínio, equipes na Ásia desenvolveram produtos biológicos baseados em bactérias naturais que degradam petróleo, em forma líquida para solos, grânulos para areia e filtros para água contaminada.
Tudo isso aponta para um futuro em que bactérias que comem petróleo e outros microrganismos sejam usados como ferramentas planejadas para resposta a desastres, não apenas como recurso invisível em segundo plano.
Ao mesmo tempo, surge uma preocupação óbvia. Quanto mais eficientes essas ferramentas se tornarem, maior o risco de que escapem do controle e passem a interagir com materiais que não queremos degradar, da infraestrutura aos próprios ecossistemas.
No fim, a história da Deepwater Horizon mostra um paradoxo. As mesmas bactérias que comem petróleo e ajudam a limpar o oceano também podem corroer aço, sufocar animais e remodelar ecossistemas inteiros.
O Golfo do México é, ao mesmo tempo, laboratório de catástrofe e vitrine de como a natureza tenta se defender dos danos que nós causamos.
E você, acha que a humanidade deveria confiar mais nas bactérias que comem petróleo para recuperar os oceanos ou teme que esse poder saia do controle algum dia?
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Uma pessoa reagiu a isso.