Amostra do asteroide Bennu trazida pela missão OSIRIS-REx revela minerais e compostos que podem explicar como a água chegou aos oceanos da Terra há bilhões de anos.
Em setembro de 2023, uma cápsula da missão OSIRIS-REx, da NASA, caiu de paraquedas no deserto de Utah a 43.450 quilômetros por hora. Durante a reentrada na atmosfera, o escudo térmico da cápsula atingiu cerca de 2.900 °C ao longo de 13 minutos de descida. Dentro dela, embalados em condições de vácuo para evitar qualquer contaminação terrestre, estavam 121,6 gramas de material coletado sete anos antes da superfície do asteroide Bennu, localizado a cerca de 330 milhões de quilômetros da Terra.
A cápsula trouxe a maior amostra já coletada de um asteroide rico em carbono na história da exploração espacial. O material foi imediatamente transportado para laboratórios especializados nos Estados Unidos, onde cientistas começaram a analisar sua composição mineral e química. O que encontraram dentro da cápsula mudou a forma como os pesquisadores interpretam Bennu — e também levantou novas hipóteses sobre a origem da água nos oceanos da Terra.
O asteroide Bennu e o risco potencial de impacto com a Terra
O asteroide Bennu possui aproximadamente 565 metros de diâmetro e uma órbita que cruza regularmente a trajetória orbital da Terra. Por essa razão, ele é classificado pela NASA como um objeto potencialmente perigoso, embora o risco real de impacto seja muito pequeno.
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Modelos orbitais indicam uma probabilidade de colisão de cerca de 1 em 2.700 entre os anos de 2175 e 2199. Embora essa probabilidade seja baixa, Bennu permanece entre os asteroides mais monitorados do Sistema Solar.

A missão OSIRIS-REx foi lançada justamente com dois objetivos principais: estudar em detalhe a estrutura e a composição química do asteroide e coletar material diretamente de sua superfície para análise na Terra. Ao compreender melhor a composição desses corpos celestes, cientistas podem desenvolver estratégias mais eficazes para eventuais missões futuras de desvio de asteroides.
A sonda percorreu aproximadamente 6,2 bilhões de quilômetros ao longo da missão, chegou a Bennu em 2018 e passou cerca de dois anos mapeando a superfície do asteroide com instrumentos de alta precisão. Em outubro de 2020, a nave realizou uma breve operação de coleta: disparou nitrogênio gasoso contra o solo do asteroide, levantando partículas que foram aspiradas para dentro do mecanismo de coleta.
Quando a cápsula retornou à Terra e foi aberta no Johnson Space Center, em Houston, os cientistas tiveram a primeira surpresa. Havia tanto material preso no sistema de coleta que o processo de remoção levou semanas. Nas palavras do curador da missão, era “o melhor problema possível de se ter”., Mas a maior surpresa ainda estava por vir.
Minerais de argila encontrados em Bennu indicam presença antiga de água
A análise inicial revelou que a amostra de Bennu é composta majoritariamente por minerais argilosos. Esse resultado não era inesperado. Asteroides carbonáceos do tipo C, categoria à qual Bennu pertence, frequentemente apresentam argilas formadas pela reação entre água e silicatos. O que surpreendeu os pesquisadores foi o tipo específico de argila encontrado.
Entre os minerais identificados está a serpentina, um composto que se forma quando água reage com rochas do interior de corpos planetários. Na Terra, esse processo ocorre principalmente nas dorsais meso-oceânicas, cadeias de montanhas submersas que percorrem o fundo dos oceanos e onde rochas do manto entram em contato com a água do mar.

A serpentina compõe uma parcela significativa da crosta oceânica terrestre. Encontrar esse mineral em um asteroide relativamente pequeno como Bennu levantou uma questão imediata: como um corpo de apenas 565 metros de diâmetro poderia ter desenvolvido as condições de temperatura e pressão necessárias para formar esse mineral?
A hipótese mais plausível é que Bennu não seja um asteroide primário, mas sim um fragmento de um corpo muito maior. O pesquisador Dante Lauretta, líder científico da missão OSIRIS-REx e professor da Universidade do Arizona, resumiu a interpretação de forma direta: Bennu “pode ter sido parte de um mundo muito mais úmido” no passado.
Fosfatos encontrados em Bennu sugerem um antigo ambiente aquoso
A descoberta mais inesperada surgiu durante análises mais detalhadas da composição química da amostra. Os pesquisadores identificaram fosfato de magnésio e sódio, compostos que não haviam sido detectados anteriormente por observações remotas feitas pela sonda em órbita.
Os fosfatos são minerais que geralmente se formam em ambientes com água líquida abundante e em equilíbrio químico com rochas por longos períodos. Na Terra, esses compostos estão presentes em ambientes oceânicos e são fundamentais para a bioquímica da vida. Moléculas baseadas em fosfato fazem parte de estruturas essenciais como DNA, RNA, membranas celulares e ATP, a molécula responsável pelo transporte de energia dentro das células.
A presença de fosfatos de magnésio e sódio nas rochas de Bennu — em cristais maiores e mais puros do que os encontrados no asteroide Ryugu pela missão japonesa Hayabusa 2 — sugere que o material se formou em um ambiente aquoso relativamente estável.
Isso reforça a hipótese de que Bennu pode ser um fragmento da crosta de um antigo corpo planetário rico em água, possivelmente destruído por colisões há cerca de 4,5 bilhões de anos, durante os primeiros estágios de formação do Sistema Solar.
Amostras do asteroide Ryugu reforçam a evidência de água em corpos primitivos
Enquanto os laboratórios americanos analisavam as amostras de Bennu, cientistas japoneses já haviam estudado material coletado pela missão Hayabusa 2 no asteroide Ryugu. Ryugu possui cerca de 900 metros de diâmetro e também tem uma órbita que cruza a trajetória da Terra. A missão japonesa trouxe 5,4 gramas de material, coletados em 2019 e entregues ao planeta em dezembro de 2020.
As análises revelaram argilas, moléculas orgânicas complexas, aminoácidos e compostos formados na presença de água líquida.
Um estudo publicado na revista Nature em setembro de 2025 trouxe uma descoberta ainda mais surpreendente. Ao analisar isótopos radioativos de lutécio e háfnio nas rochas de Ryugu, pesquisadores concluíram que água líquida circulou pelo interior do corpo pai do asteroide por muito mais tempo do que se imaginava.
Segundo o modelo proposto, um impacto com um corpo maior fraturou as rochas e derreteu gelo presente no interior do asteroide. A água líquida liberada passou a circular pelo interior do corpo por pelo menos um bilhão de anos após a formação do Sistema Solar. Esse resultado contradiz modelos anteriores, que sugeriam que a água em asteroides teria existido apenas nos primeiros momentos da formação do Sistema Solar e evaporado rapidamente.
O pesquisador Tsuyoshi Iizuka, um dos autores do estudo, explicou que a descoberta altera a compreensão sobre o destino da água nesses corpos celestes. Segundo ele, a água pode ter permanecido ativa dentro de asteroides por períodos muito mais longos do que se pensava.
Compostos orgânicos complexos encontrados na amostra de Bennu
Além de minerais aquosos, a amostra de Bennu revelou uma composição química rica em compostos orgânicos. O carbono representa quase 5% da massa total da amostra, presente tanto em forma mineral quanto orgânica. Os pesquisadores também encontraram amônia abundante, aminoácidos e açúcares simples, moléculas consideradas fundamentais para processos metabólicos da vida.
Outro material curioso identificado foi um polímero rico em nitrogênio, carbono e oxigênio, apelidado informalmente pelos cientistas de “goma espacial”. Esse composto parece ter sido inicialmente macio e endurecido ao longo do tempo, possivelmente formado por reações químicas entre amônia e dióxido de carbono sob intensa radiação espacial.
Também foram identificados minerais evaporíticos, que se formam quando água altamente salina evapora. Esses minerais são extremamente raros em meteoritos encontrados na Terra porque normalmente se dissolvem ou se degradam durante a entrada na atmosfera e o contato com o ambiente terrestre.
A cientista Bethany Ehlmann, da Universidade do Colorado, destacou que alguns desses minerais nunca haviam sido observados em meteoritos, o que só foi possível graças à coleta direta no espaço e ao transporte em condições completamente controladas pela missão OSIRIS-REx.
O que as amostras de Bennu revelam sobre a origem da água na Terra
A hipótese de que parte da água da Terra tenha sido entregue por asteroides e cometas existe há décadas. As novas análises das amostras de Bennu e Ryugu oferecem evidências diretas que reforçam essa teoria.
A Terra se formou relativamente próxima do Sol, em uma região onde as temperaturas iniciais eram altas demais para permitir a acumulação de grandes quantidades de água. Muitos modelos indicam que o planeta começou sua história relativamente seco.
A água que hoje cobre mais de 70% da superfície terrestre provavelmente chegou depois, transportada por corpos vindos de regiões mais frias do Sistema Solar, além da chamada linha de neve, onde temperaturas permitem que água exista na forma sólida. Asteroides carbonáceos como Bennu e Ryugu se formaram nessas regiões externas e foram posteriormente empurrados para órbitas mais internas por perturbações gravitacionais.
Durante o chamado período de bombardeamento intenso tardio, há cerca de 3,9 bilhões de anos, esses corpos atingiram a Terra em grande número, trazendo não apenas água, mas também moléculas orgânicas complexas.
Segundo Dante Lauretta, a habitabilidade da Terra está diretamente ligada a esse processo. A água presente hoje em oceanos, lagos e rios pode ter sido parcialmente entregue por asteroides ricos em carbono semelhantes a Bennu.
A análise das amostras de Bennu ainda está apenas começando
A NASA decidiu preservar cerca de 70% da amostra coletada em Bennu para análises futuras, seguindo uma prática iniciada durante as missões Apollo, que trouxeram rochas da Lua.
Novas técnicas laboratoriais surgem constantemente, e preservar parte do material permite que cientistas das próximas décadas estudem essas amostras com tecnologias ainda mais avançadas. As próximas etapas incluem a comparação direta entre as amostras de Bennu e Ryugu, utilizando instrumentos de raios X de alta resolução no Laboratório Nacional de Brookhaven.
Pesquisadores também pretendem determinar com precisão a idade dos fosfatos encontrados nas rochas e buscar evidências adicionais do antigo ambiente aquoso que pode ter existido no corpo planetário que originou Bennu.
Cada grama desse material representa um registro químico preservado por 4,5 bilhões de anos. Para os cientistas, a análise dessas partículas é como decifrar mensagens extremamente antigas sobre a formação do Sistema Solar e possivelmente sobre a própria origem da vida na Terra.
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