O crime organizado e o narcotráfico avançam no Brasil. PCC e Comando Vermelho ampliam poder e desafiam o Estado.
O Brasil vive um momento crítico em sua história recente, com o crescimento acelerado do crime organizado e do narcotráfico.
Em 2025, casos como o assassinato de um ex-delegado em São Paulo, a morte de um delator do PCC em Guarulhos e a guerra de facções no Ceará reacenderam o debate sobre até que ponto o país está sendo dominado por organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
A expansão territorial e econômica dessas facções levanta a questão: o Brasil está se tornando um narcoestado?
-
Câmara aprova projeto que libera spray de pimenta para mulheres acima de 16 anos e impõe regras rigorosas para compra, posse e uso como defesa pessoal
-
Câmara aprova lei para combater leucena, planta que cresce rápido, domina terrenos e ameaça espécies nativas em várias regiões do país
-
Partilha de bens: saiba o que não pode ser dividido em caso de separação
-
Funcionário de banco cria conta online em nome de cliente que havia morrido meses antes, desvia mais de R$ 385 mil em transferências eletrônicas e acaba condenado a 15 anos de prisão em San Salvador após descoberta do esquema iniciado em agosto de 2021
Pesquisadores afirmam que o termo é exagerado, mas reconhecem um avanço preocupante da criminalidade e uma relação cada vez mais simbiótica entre facções e estruturas locais de poder.
Especialistas rejeitam o termo “narcoestado”, mas veem avanço do crime
De acordo com o pesquisador norte-americano Benjamin Lessing, especialista em crime organizado na América Latina, o conceito de narcoestado se aplicaria apenas a países onde o Estado atua diretamente no narcotráfico — algo que não ocorre no Brasil.
“É difícil achar um exemplo real de narcoestado. Talvez o Panamá nos anos 1980, com Manuel Noriega, ou a Venezuela se comprovadas as acusações de envolvimento militar no tráfico”, afirma Lessing.
Mesmo assim, ele destaca que o Brasil lidera na América Latina em número de pessoas que vivem sob domínio de facções.
Estimativas indicam que entre 50 e 60 milhões de brasileiros residem em áreas controladas pelo crime organizado — número superior ao de países como Colômbia e México.
PCC e Comando Vermelho dominam territórios e diversificam negócios
As facções brasileiras se transformaram em verdadeiros conglomerados do crime.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o faturamento das organizações criminosas já ultrapassa R$ 348 bilhões por ano, sendo que o narcotráfico representa apenas 4% desse total.
Além do tráfico de drogas, as facções atuam em crimes virtuais, fintechs ilegais, roubos de celulares e até mercados legais, usados inicialmente para lavagem de dinheiro. Só os crimes cibernéticos movimentam R$ 186 bilhões anuais.
O PCC, por exemplo, passou de uma organização prisional para uma estrutura empresarial, com presença até no mercado financeiro da Faria Lima.
“O PCC foi acumulando muito capital e se internacionalizando, o que produziu novas formas de atuação”, explica o sociólogo Eduardo Dyna, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O duopólio da violência: Estado e facções lado a lado
Para o pesquisador Gabriel Feltran, diretor do CNRS e professor da Sciences Po, o Brasil vive um “duopólio da violência”, no qual o Estado e o crime organizado dividem o poder sobre territórios.
“No Brasil, há diferentes soberanias coexistindo. O Estado não tem o monopólio da força nem da Justiça, mas isso não significa que vivamos em um narcoestado”, afirma Feltran, autor do livro Irmãos: Uma História do PCC.
Essa coexistência reflete um cenário em que o Estado mantém presença repressiva, mas se mostra ausente na oferta de serviços básicos como educação e saúde — vácuo rapidamente preenchido por facções, igrejas ou milícias.
Infiltração política e redes criminosas interligadas
O Comando Vermelho e o PCC expandiram sua influência para além do tráfico. Pesquisas apontam que o crime organizado já atua em garimpos ilegais, extração de madeira, transporte público, coleta de lixo e até no financiamento de campanhas políticas.
O sociólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, da PUC-RS, define o fenômeno como um “narcoestado difuso”, em que há cooptação de agentes públicos e infiltração no sistema político local, especialmente em áreas dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro.
“Esses mercados ilícitos foram se conectando, aumentando o poder e a influência das facções em diversos setores”, explica Azevedo.
Encarceramento e falhas do Estado ampliam o poder das facções
A origem dessa crise remonta às prisões brasileiras. Foi nelas que nasceram o PCC, em 1993, e o Comando Vermelho, nos anos 1970.
A política de encarceramento em massa e a transferência de líderes entre estados permitiram o intercâmbio e a expansão das facções.
“O próprio Estado ajudou a espalhar as facções. O sistema prisional virou uma escola do crime”, afirma Lessing.
Atualmente, segundo o Ministério da Justiça, existem 88 organizações criminosas ativas no país, controlando territórios onde vivem 31 milhões de brasileiros — número que cresce ano após ano.
O perigo da retórica e o desafio de recuperar o território
Especialistas alertam para o uso político do termo “narcoestado”. O sociólogo Sérgio Adorno, da USP, afirma que expressões como “narcoterrorismo” e “guerra às drogas” distorcem o debate e podem justificar ações militares perigosas.
“Quando você chama isso de terrorismo, transforma um problema de segurança pública em um problema de defesa nacional, o que é arriscado”, diz Adorno.
Enquanto isso, o Estado segue sem estratégia clara para retomar territórios dominados por facções.
A operação que matou 121 pessoas nos complexos da Penha e do Alemão é vista por especialistas como um exemplo de força sem planejamento — mais um sintoma de um país onde o crime organizado e o narcotráfico continuam avançando, e o Brasil luta para não se tornar refém de seu próprio sistema.

-
-
-
4 pessoas reagiram a isso.