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Brasil à beira do caos? Avanço do crime organizado reacende alerta

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 11/11/2025 às 20:16
Atualizado em 11/11/2025 às 21:33
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O crime organizado e o narcotráfico avançam no Brasil. PCC e Comando Vermelho ampliam poder e desafiam o Estado.

O Brasil vive um momento crítico em sua história recente, com o crescimento acelerado do crime organizado e do narcotráfico.

Em 2025, casos como o assassinato de um ex-delegado em São Paulo, a morte de um delator do PCC em Guarulhos e a guerra de facções no Ceará reacenderam o debate sobre até que ponto o país está sendo dominado por organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

A expansão territorial e econômica dessas facções levanta a questão: o Brasil está se tornando um narcoestado?

Pesquisadores afirmam que o termo é exagerado, mas reconhecem um avanço preocupante da criminalidade e uma relação cada vez mais simbiótica entre facções e estruturas locais de poder.

Especialistas rejeitam o termo “narcoestado”, mas veem avanço do crime

De acordo com o pesquisador norte-americano Benjamin Lessing, especialista em crime organizado na América Latina, o conceito de narcoestado se aplicaria apenas a países onde o Estado atua diretamente no narcotráfico — algo que não ocorre no Brasil.

“É difícil achar um exemplo real de narcoestado. Talvez o Panamá nos anos 1980, com Manuel Noriega, ou a Venezuela se comprovadas as acusações de envolvimento militar no tráfico”, afirma Lessing.

Mesmo assim, ele destaca que o Brasil lidera na América Latina em número de pessoas que vivem sob domínio de facções.

Estimativas indicam que entre 50 e 60 milhões de brasileiros residem em áreas controladas pelo crime organizado — número superior ao de países como Colômbia e México.

PCC e Comando Vermelho dominam territórios e diversificam negócios

As facções brasileiras se transformaram em verdadeiros conglomerados do crime.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o faturamento das organizações criminosas já ultrapassa R$ 348 bilhões por ano, sendo que o narcotráfico representa apenas 4% desse total.

Além do tráfico de drogas, as facções atuam em crimes virtuais, fintechs ilegais, roubos de celulares e até mercados legais, usados inicialmente para lavagem de dinheiro. Só os crimes cibernéticos movimentam R$ 186 bilhões anuais.

O PCC, por exemplo, passou de uma organização prisional para uma estrutura empresarial, com presença até no mercado financeiro da Faria Lima.

“O PCC foi acumulando muito capital e se internacionalizando, o que produziu novas formas de atuação”, explica o sociólogo Eduardo Dyna, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O duopólio da violência: Estado e facções lado a lado

Para o pesquisador Gabriel Feltran, diretor do CNRS e professor da Sciences Po, o Brasil vive um “duopólio da violência”, no qual o Estado e o crime organizado dividem o poder sobre territórios.

“No Brasil, há diferentes soberanias coexistindo. O Estado não tem o monopólio da força nem da Justiça, mas isso não significa que vivamos em um narcoestado”, afirma Feltran, autor do livro Irmãos: Uma História do PCC.

Essa coexistência reflete um cenário em que o Estado mantém presença repressiva, mas se mostra ausente na oferta de serviços básicos como educação e saúde — vácuo rapidamente preenchido por facções, igrejas ou milícias.

Infiltração política e redes criminosas interligadas

O Comando Vermelho e o PCC expandiram sua influência para além do tráfico. Pesquisas apontam que o crime organizado já atua em garimpos ilegais, extração de madeira, transporte público, coleta de lixo e até no financiamento de campanhas políticas.

O sociólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, da PUC-RS, define o fenômeno como um “narcoestado difuso”, em que há cooptação de agentes públicos e infiltração no sistema político local, especialmente em áreas dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro.

“Esses mercados ilícitos foram se conectando, aumentando o poder e a influência das facções em diversos setores”, explica Azevedo.

Encarceramento e falhas do Estado ampliam o poder das facções

A origem dessa crise remonta às prisões brasileiras. Foi nelas que nasceram o PCC, em 1993, e o Comando Vermelho, nos anos 1970.

A política de encarceramento em massa e a transferência de líderes entre estados permitiram o intercâmbio e a expansão das facções.

“O próprio Estado ajudou a espalhar as facções. O sistema prisional virou uma escola do crime”, afirma Lessing.

Atualmente, segundo o Ministério da Justiça, existem 88 organizações criminosas ativas no país, controlando territórios onde vivem 31 milhões de brasileiros — número que cresce ano após ano.

O perigo da retórica e o desafio de recuperar o território

Especialistas alertam para o uso político do termo “narcoestado”. O sociólogo Sérgio Adorno, da USP, afirma que expressões como “narcoterrorismo” e “guerra às drogas” distorcem o debate e podem justificar ações militares perigosas.

“Quando você chama isso de terrorismo, transforma um problema de segurança pública em um problema de defesa nacional, o que é arriscado”, diz Adorno.

Enquanto isso, o Estado segue sem estratégia clara para retomar territórios dominados por facções.

A operação que matou 121 pessoas nos complexos da Penha e do Alemão é vista por especialistas como um exemplo de força sem planejamento — mais um sintoma de um país onde o crime organizado e o narcotráfico continuam avançando, e o Brasil luta para não se tornar refém de seu próprio sistema.

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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