Um terço da água tratada do Brasil se perde na rede, e projeto da Unesp tenta reduzir vazamentos com tecnologia
A água tratada que não chega às torneiras ainda é um dos grandes gargalos do saneamento no Brasil. A taxa de perdas na distribuição alcança 37,8%, o que equivale a 7,6 mil piscinas olímpicas por dia.
O cenário fica ainda mais crítico em áreas com estrutura mais frágil. No Amapá, a perda atinge 71,7%, indicando um desafio de grande escala para a operação e a manutenção das redes.
Nem toda essa perda ocorre apenas por falhas físicas. Parte envolve instalações clandestinas e também limitações de medição dos hidrômetros, conhecidos como relógios de água. Mesmo assim, os vazamentos na tubulação aparecem como o principal fator por trás dos índices elevados.
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O que aconteceu e por que isso chamou atenção
Reduzir perdas exige localizar danos em redes enterradas, muitas vezes escondidas sob um ambiente urbano complexo. Cabos, córregos e túneis se misturam aos canos, o que dificulta encontrar pontos rompidos com rapidez.
O tamanho da malha aumenta o desafio. Apenas o estado de São Paulo tem 120 mil km de canos subterrâneos de água e esgoto, um volume que torna qualquer estratégia de renovação total muito lenta e custosa.
Existe uma referência técnica de substituição anual de 2%, começando dos canos mais antigos para os mais recentes. O custo, porém, torna a meta difícil, e ganha força a busca por alternativas focadas em detectar e corrigir os vazamentos já existentes.
Por que o Brasil não está sozinho nesse problema
As perdas elevadas não aparecem apenas em países do Sul Global. Irlanda e Itália lidam com taxas semelhantes às brasileiras, enquanto o Reino Unido aparece com 23% e a França com 20%.
Na União Europeia, a Alemanha é apontada como o único país que mantém a taxa abaixo de 5%. Esse nível é tratado como referência de eficiência na operação das redes.
Há também um caso de recuperação expressiva. Tóquio terminou a 2ª Guerra com 80% de perdas e grande parte da tubulação destruída, e hoje registra 3,9%.
Como a Unesp e a Sabesp entraram na busca por soluções
A procura por soluções tecnológicas para localizar vazamentos levou a uma parceria entre a Sabesp e o engenheiro mecânico Fabrício César Lobato, professor da Unesp em Bauru, ligado à Faculdade de Engenharia no campus. Ele trabalha com o tema desde 2009, quando iniciou o doutorado na Universidade de Southampton, na Inglaterra.
Nesse período, foi orientado por Michael Brennan, referência internacional na área. Brennan passou a atuar no Brasil e atualmente leciona na Unesp de Ilha Solteira.
A colaboração Unesp Sabesp recebeu financiamento em editais da Fapesp e gerou uma linha de desenvolvimento de equipamentos e métodos voltados para a detecção de falhas em redes de água e esgoto.
Correlacionadores ajudam a achar vazamentos, mas o preço vira obstáculo

Durante décadas, a detecção de vazamentos subterrâneos dependeu de hastes de escuta e geofones mecânicos. Esses aparelhos amplificam sons do subsolo, mas exigem técnicos treinados para reconhecer o ruído típico de água escapando por um furo.
Os correlacionadores avançaram por dependerem menos apenas da experiência do operador. Em geral, funcionam com dois sensores acoplados a pontos como hidrantes ou hidrômetros de casas na mesma rua, conectados ao cano principal da região.
Quando existe um vazamento, o som chega em tempos diferentes a cada sensor. Com esse desvio, o sistema estima o ponto aproximado onde a água está escapando.
O problema é o custo elevado. Um correlacionador considerado bom fica em torno de R$ 300 mil, e não há fabricante nacional, o que reduz o uso rotineiro em operações terceirizadas.
O que a bancada virtual resolve na prática
Um dos projetos financiados buscou criar um correlacionador comercialmente viável no Brasil. A iniciativa teve êxito e ainda gerou uma ferramenta de avaliação chamada bancada virtual.
O equipamento simula a assinatura sônica de um vazamento real, permitindo testar correlacionadores de diferentes fabricantes. Também serve para verificar se o aparelho mantém desempenho satisfatório após retornar da assistência técnica.
O procedimento permite configurar cenários específicos, como simular um vazamento em rede de ferro fundido de 75 mm a 10 m de um ponto de referência. Esse tipo de controle ajuda a comparar resultados e a reduzir incertezas na checagem dos dispositivos.
Detector coringa tenta lidar com canos de plástico e solos variados
A troca gradual de tubulações de ferro fundido por canos de plástico aumentou a complexidade da detecção. Em materiais como PVC e polietileno de alta densidade (HDPE), a vibração se atenua, reduzindo a distância útil de identificação.
Há um contraste claro nessa queda de alcance. Antes, era possível identificar um vazamento a 1 km ou 800 m, enquanto agora esse patamar pode cair para 100 m ou 80 m.
Uma escolha relevante do projeto foi manter o hardware acessível e compensar limitações com um software capaz de extrair mais informação de sinais mais fracos.
Outro ponto é a versatilidade do equipamento, descrito como um projeto que mede condições reais em campo e reduz a necessidade de o operador inserir previamente material do tubo e tipo de solo.
O que pode acontecer a partir de agora
Mesmo com avanços técnicos, existe um entrave para colocar a solução no mercado. Parte dos produtos permanece no estágio de protótipo por falta de empresas interessadas e capazes de fabricar em escala.
Esse obstáculo é conhecido como vale da morte, quando a tecnologia já funciona, mas ainda não encontrou caminho industrial para produção e comercialização. A busca por parceiros inclui startups e poucas empresas nacionais que atuam com equipamentos para o setor.
A frustração é reforçada pelo perfil de nicho do produto, que dificulta estimativas de volume de vendas anual, um fator que pesa para fabricantes.
Tecnologia de superfície quer localizar vazamentos sem contato com o cano
Um projeto mais recente, com financiamento iniciado em 2022, mira um salto técnico: o Localizador de Vazamento de Superfície, chamado LOCVAS. A proposta é detectar vazamentos sem contato direto com o encanamento, captando o resquício de vibração que chega à superfície pelo solo.
A técnica pode usar dois sensores na superfície, ou ampliar para seis ou oito. A lógica se baseia em captar o som do vazamento com intensidades diferentes conforme a distância, permitindo calcular a posição do ponto de escape.
A ideia não é substituir métodos existentes, e sim complementar o trabalho. O uso previsto começa pela medição direta no tubo com o correlacionador tradicional; se houver margem de erro, a varredura na superfície pode ajudar a reduzir falsos positivos.
O grupo segue produzindo estudos sobre detalhes da tecnologia. Um trabalho publicado em novembro no periódico Applied Acoustics tratou de testes com dois sensores em um cenário com conhecimento prévio da direção do cano enterrado. A expectativa é apresentar um protótipo conceitual do LOCVAS em 2026, com patentes em processo de submissão ao INPI.
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