Entenda por que o Brasil concentra tantas descargas elétricas, quem mais sofre os impactos e como reduzir o perigo durante tempestades.
O Brasil é o país em que mais caem raios no mundo, com 77,8 milhões de descargas elétricas todos os anos. Esse volume ajuda a explicar por que acidentes se repetem e por que os danos podem ir de queimaduras a falhas graves em redes de energia.
Outra marca preocupante aparece nas ocorrências com pessoas: no mínimo 300 brasileiros são atingidos todos os anos. Um em cada três acidentes é fatal, e entre 2000 e 2019 os raios causaram 110 mortes por ano, em média, somando 2.194 óbitos em duas décadas.
Cristo Redentor é atingido em média seis vezes por ano

O ditado de que raio não cai duas vezes no mesmo lugar não se sustenta. O Cristo Redentor é atingido em média seis vezes por ano, e há casos de repetição em uma mesma pessoa.
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Neide Maria Cardoso, 58, vive em Piraquara, perto de Curitiba, no PR, e foi atingida duas vezes. O primeiro episódio ocorreu em 1967, quando ela tinha 7 anos, dentro de casa, perto de uma tomada.
A descarga entrou pela rede elétrica, derreteu o plugue e atingiu o ouvido direito. O resultado foi perda auditiva permanente, mostrando como um raio pode causar estragos mesmo sem atingir diretamente a pessoa.
O que muda na prática quando o raio atinge alguém mais de uma vez
A segunda ocorrência com Neide foi na véspera do Carnaval de 2009, em um galpão onde preparava uma festa. A casa ficava a 700 metros do local, e a tentativa era voltar antes de a chuva começar.
Ela descreveu impacto nas costas, queda, tremor nas mãos, sensação de corpo preso ao piso e dentes quebrando dentro da boca. As consequências incluíram queimaduras das costas aos calcanhares, chinelos derretidos e obturações que se soltaram.
Também houve perda de memória parcial por ao menos três meses e necessidade de terapia por anos. O episódio reforça que o risco não se limita ao momento do raio, já que o trauma pode durar muito.
Quais são as regras, prazos e condições de risco no Brasil
A concentração de raios tem relação com a localização e o tamanho do território. O Brasil é o maior país tropical do planeta, e os trópicos têm clima mais suscetível a tempestades.
O levantamento aponta um perfil claro de maior vulnerabilidade: 82% das vítimas são homens, e a faixa de 20 a 29anos concentra 26% dos óbitos. Um em cada quatro acidentes envolve pessoas na zona rural trabalhando a céu aberto em atividades do agronegócio.
O segundo local mais propício para morrer atingido por raio é dentro de casa. As vítimas estavam em seus lares em 21% das vezes, e no Norte e no Nordeste os casos em casa superam os mortos durante trabalho na lavoura.
Como funciona o caminho do raio dentro de casa
Quando um raio cai próximo à rede elétrica, ele reforça de forma brutal a corrente que já passa pelo fio. Essa corrente extra pode percorrer a fiação e chegar às tomadas, elevando o risco para quem está no ambiente.
O para raios ajuda a redirecionar a descarga ao solo, reduzindo a chance de a eletricidade exagerada atingir as tomadas e, por consequência, o corpo dos moradores. A ideia é semelhante a desviar a água para evitar transbordamento.
O problema é que estruturas de proteção nem sempre estão disponíveis, principalmente em regiões mais pobres ou afastadas dos centros urbanos. Nesses locais, as redes elétricas e telefônicas costumam ser menos seguras.
Pontos de atenção e dúvidas comuns sobre locais perigosos
Os registros mostram padrões do que as vítimas faziam no momento do acidente. Em área rural ou descampada, foram 33% dos casos, com 52% trabalhando com agropecuária a céu aberto, 18% jogando futebol e 30% em outras situações, como terreno baldio, aterro sanitário e cemitério.
Dentro de casa, o total foi 21%. Desse grupo, 12% estavam próximos de janelas e portas, 10% estavam ao telefone, 5% estavam perto de aparelhos conectados à energia, e 73% faziam atividade não identificada.
Há ainda ocorrências embaixo de árvores, com 9% das mortes. Nesse recorte, 55% estavam se escondendo da chuva, 9% colhiam frutas e 36% caminhavam em área a céu aberto com árvores, como praça e jardim.
Próximo a corpos de água, o total também foi 9%. Desse grupo, 37% estavam na areia da praia, em calçadão ou na margem de rio, 27% pescavam, 16% navegavam, 10% estavam dentro do mar e 9% estavam em rio, represa, cachoeira ou piscina. Os demais casos entram em 28% como outros.
O que acontece no céu até o clarão aparecer
Uma nuvem é formada basicamente por água, com gotas de H2O e cristais de gelo suspensos na atmosfera. A nuvem do tipo cumulonimbus, comum em temporais de verão, tem mais de 10 km de altura da base ao topo.
Na base, mais quente e próxima ao chão, a água fica líquida. No topo, mais frio, ela congela, e o movimento de ar quente subindo e ar frio descendo faz o interior da nuvem virar um ciclo constante de subida e queda de água e gelo.
O atrito entre cristais pequenos e granizo maior carrega o gelo eletricamente. Após as colisões, as partículas que descem costumam levar cargas negativas, deixando a base da nuvem carregada negativamente e empurrando cargas para o chão, que fica positivo.
Quando a tensão vence o isolamento do ar, o fluxo de elétrons pode despencar de até 20 km de altura em um centésimo de segundo. Ele permanece invisível até cerca de 100 m do solo, e o clarão aparece quando o circuito se fecha com um objeto na superfície, como uma árvore.
Nesse instante, a corrente aquece o ar a temperaturas na escala dos 30 mil °C. O ar se expande rapidamente e gera o trovão, que chega depois do clarão porque o som é mais lento que a luz.
O que pode acontecer a partir de agora com clima e tecnologia
A chance de sobreviver após ser atingido diretamente por um raio é praticamente nula, e os casos descritos foram indiretos. O risco envolve parada cardiorrespiratória e queimaduras que podem atingir também órgãos internos.
Há raios mais fracos com corrente elétrica de 2 mil ampéres, pelo menos 80 vezes a de um chuveiro elétrico. Também existem descargas que chegam a 200 mil ampéres, citadas como até 8 mil vezes a de um chuveiro.
A chance de alguém ser atingido diretamente é de uma em 1 milhão. Em uma área descampada por meia hora sob um temporal comum, o número sobe para 1 em 10 mil, e em tempestades mais intensas pode chegar a 1 para mil.
Como funciona o monitoramento e o alerta de raios
O Grupo de Eletricidade Atmosférica, o Elat, opera uma rede de 110 sensores espalhados pelo país. O sistema mapeia a incidência de descargas com margem de erro de 1 km, indicando onde há mais raios e a intensidade.
Há previsão de ganho de precisão com sensores a bordo de dois satélites, permitindo mapear mais de 90% dos raios que caem no Brasil. Desde 2015, o monitoramento inclui também descargas elétricas dentro das nuvens.
Esse acompanhamento permite identificar com até 15 minutos de antecedência se um raio vai cair, ou se há grande chance de acontecer. No futuro, pode ser possível enviar alerta para áreas de risco alto, reduzindo mortes e danos a equipamentos eletrônicos.
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