Brasileiros que vivem no Reino Unido relatam o endurecimento das regras migratórias, o aumento expressivo do custo de vida e a pressão psicológica da ilegalidade, fatores que têm levado milhares a aceitar programas de retorno assistido oferecidos pelo governo britânico
Nos últimos anos, o sonho de construir uma vida no exterior tem se transformado em frustração para muitos brasileiros que escolheram o Reino Unido como destino. Embora a promessa inicial envolvesse segurança, estabilidade financeira e qualidade de vida, a realidade passou a ser marcada por dificuldades crescentes. Como resultado, apenas entre janeiro e setembro de 2024, cerca de 2.500 brasileiros solicitaram o chamado retorno voluntário, um número significativamente superior ao registrado no mesmo período de 2023, quando 1.700 pessoas optaram por deixar o país de forma assistida.
A informação foi divulgada pela DW Brasil, com base em apurações feitas para o podcast DW Revista, que ouviu especialistas, pesquisadores e brasileiros que vivenciaram esse processo de retorno. Atualmente, estima-se que cerca de 230 mil brasileiros vivam no Reino Unido, formando a segunda maior comunidade brasileira da Europa, atrás apenas de Portugal. Ainda assim, para uma parcela dessa população, permanecer no país tornou-se financeiramente e emocionalmente inviável.
O que é o retorno voluntário e quem pode solicitar
O chamado serviço de retorno voluntário é destinado a pessoas que entraram ilegalmente na Inglaterra, Escócia, País de Gales ou Irlanda do Norte, ultrapassaram o prazo de permanência permitido pelo visto ou tiveram pedidos de asilo e permanência negados. Além disso, vítimas de escravidão moderna também podem solicitar essa assistência. Embora o termo “voluntário” seja utilizado oficialmente, especialistas apontam que, em muitos casos, trata-se da única alternativa possível diante do risco iminente de deportação.
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Nesse programa, o governo britânico custeia a passagem aérea de volta ao país de origem e concede um apoio financeiro de até 3.000 libras, valor equivalente a aproximadamente R$ 19.000, dependendo da cotação. No entanto, quem adere ao programa fica impedido de retornar ao Reino Unido por até cinco anos, o que torna a decisão ainda mais delicada.
Ainda assim, diante do aumento das fiscalizações e da dificuldade de regularização, muitos brasileiros passaram a enxergar o retorno voluntário como uma saída menos traumática. Esse movimento reflete, sobretudo, o endurecimento das políticas migratórias adotadas nos últimos anos.
Regras migratórias mais rígidas, Brexit e custo de vida em alta
Um dos principais fatores que explicam o aumento dos retornos voluntários é o endurecimento das políticas migratórias do Reino Unido. Desde março do ano passado, novas regras passaram a dificultar a permanência legal de estrangeiros, inclusive daqueles que entraram no país de forma regular. Um exemplo claro disso é a mudança nas exigências para trazer familiares ou dependentes.
Antes, quem possuía visto de trabalho precisava comprovar renda anual mínima de 26.000 libras para trazer a família. Esse valor foi elevado para cerca de 39.000 libras por ano, o que equivale a aproximadamente R$ 285.000 anuais. Trata-se de uma remuneração compatível com cargos plenos ou até seniores, o que, na prática, exclui muitos brasileiros que estão em seus primeiros empregos no país.
Além disso, mesmo com a troca de governo, as diretrizes migratórias foram mantidas. O Partido Trabalhista, que assumiu o poder após as eleições, não apenas preservou as regras anteriores, como também manteve uma política considerada abertamente anti-imigração. Entre as metas anunciadas está a expansão das detenções de imigrantes ilegais em pelo menos 15%, o que aumentou o medo dentro da comunidade brasileira.
Outro ponto relevante é o impacto do Brexit, que retirou direitos de permanência automática de cidadãos com dupla nacionalidade europeia. Brasileiros com passaporte português, italiano ou de outros países da União Europeia, que antes podiam viver e trabalhar no Reino Unido sem visto, passaram a depender de autorizações formais. Muitos tiveram seus vistos expirados e acabaram entrando na ilegalidade.
Somado a isso, o custo de vida disparou. Aluguéis mais caros, alimentação com preços elevados e despesas básicas em alta tornaram a manutenção de uma vida minimamente estável cada vez mais difícil. Assim, muitos brasileiros se viram encurralados em uma situação financeira precária, sem perspectiva de regularização.
Por que o governo britânico prefere o retorno voluntário
Embora à primeira vista o programa de retorno voluntário possa parecer um gesto humanitário, especialistas afirmam que a iniciativa atende, sobretudo, a interesses econômicos do próprio governo britânico. Segundo dados do Observatório de Migrações da Universidade de Oxford, o custo médio de um retorno voluntário gira em torno de 7.000 libras, aproximadamente R$ 53.000.
Por outro lado, uma remoção forçada ou deportação pode custar até 15.000 libras, valor que ultrapassa R$ 100.000, considerando gastos com detenções, operações policiais, alimentação, transporte e burocracia. Portanto, além de menos oneroso, o retorno voluntário reduz a pressão sobre o sistema carcerário e administrativo.
Dados oficiais mostram que mais de 1.000 brasileiros foram detidos no Reino Unido em 2024 por questões migratórias, um aumento de 88% em relação ao ano anterior. O Brasil apareceu como a terceira nacionalidade com mais detenções, atrás apenas de Albânia e Romênia. Desses detidos, 413 brasileiros acabaram deportados.
Embora o Brasil não esteja na lista dos 24 países com acordos formais de retorno voluntário com o Reino Unido, o governo britânico oferece essa possibilidade aos brasileiros por considerar o país um destino “seguro” para retorno, sem crises humanitárias ou conflitos armados.
Como funciona o processo e os desafios após a volta
Até março de 2022, o processo de retorno voluntário contava com o apoio presencial de ONGs parceiras do Home Office, o órgão responsável pela imigração. No entanto, desde então, o procedimento passou a ser totalmente online. O solicitante preenche um formulário, aguarda contato telefônico e comparece a um escritório para assinatura dos documentos.
Atualmente, o processo pode durar entre cinco e seis meses, embora relatos indiquem que, em alguns casos, a passagem aérea seja enviada com apenas uma semana de antecedência, dificultando a organização da vida antes do retorno. O valor de 3.000 libras é disponibilizado por meio de um cartão que só pode ser ativado no Brasil, geralmente em um banco privado, sujeito a taxas.
Uma brasileira entrevistada relatou que precisou realizar três ou quatro saques, pagando tarifas em cada operação, o que resultou em uma perda aproximada de R$ 4.000. Ainda assim, o dinheiro permitiu que ela reorganizasse sua vida, abrisse um pequeno comércio e retomasse sua rotina no Brasil.
No fim das contas, apesar de oficialmente chamado de voluntário, o retorno assistido é visto por muitos brasileiros como a última alternativa possível diante de pressões burocráticas, financeiras e emocionais. A experiência revela que, para uma parte significativa da comunidade brasileira no Reino Unido, o sonho europeu acabou substituído pela necessidade de recomeçar no próprio país.
Você deixaria para trás anos de esforço, trabalho e sonhos no exterior para recomeçar do zero no Brasil, ou continuaria insistindo mesmo diante do medo da deportação, das dificuldades financeiras e da vida na ilegalidade no Reino Unido?
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