Brasileiros trocam a vida no Brasil pela guerra na Ucrânia e encaram bombas, drones e trincheiras congeladas em uma rotina de medo, missões arriscadas e saudade permanente diária da família
Na frente de combate na Ucrânia, brasileiros ex-militares e voluntários convivem com bombardeios constantes, drones em missão de ataque, creches destruídas e turnos intermináveis em trincheiras, enquanto tentam preservar a sanidade emocional e algum vínculo com as famílias que ficaram no Brasil à espera entre notícias escassas, medo e esperança.
Segundo reportagem do Domingo Espetacular que foi ao ar em novembro, brasileiros que trocaram o cotidiano no Brasil pela guerra na Ucrânia vivem hoje em um ambiente em que o risco de morte é 24 horas por dia, sob ataques de artilharia, mísseis e drones, em cidades devastadas e vilarejos em ruínas. A decisão de atravessar o mundo para lutar em outro país mistura idealismo, necessidade financeira, busca de propósito e uma noção muito concreta de que cada dia pode ser o último.
Brasileiros na linha de frente em Donetsk e Kharkiv

À beira das trincheiras da região de Donetsk, o ex-militar brasileiro Carlos Eduardo Cândido, de 32 anos, resume a rotina em poucas palavras: “o risco de vida aqui é 24 horas por dia”.
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Com suspensão hidráulica ajustável, carregador automático e um canhão capaz de lançar mísseis guiados, o MBT-70 foi o tanque mais avançado da Guerra Fria e também um dos projetos militares mais caros já cancelados pelos EUA e pela Alemanha
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Avião construído ao redor de um canhão: o A-10 Warthog carrega arma de 1,8 tonelada que dispara 3.900 tiros por minuto, destruiu 987 tanques na Guerra do Golfo e continua voando mesmo após 50 anos de serviço
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Depois de perder centenas de blindados em 1973, Israel projetou o único tanque moderno do mundo com motor na frente, uma decisão que nenhum outro país ousou copiar e que transforma a sobrevivência da tripulação em prioridade absoluta
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Com seis canhões sem recuo de 106 mm montados em uma torre compacta, o destruidor de tanques M50 Ontos tornou-se um dos veículos de combate mais incomuns da Guerra Fria e podia lançar uma salva devastadora contra tanques e fortificações.
Ele deixou o Rio de Janeiro em 2022 para se juntar às forças ucranianas e hoje atua em setores diretamente expostos à artilharia russa.
Em uma de suas missões mais críticas, Cândido passou 24 horas seguidas dentro de uma trincheira em uma floresta, sob intenso bombardeio.
Segundo ele, nesses momentos extremos não há tática que domine o medo, apenas a tentativa de se manter vivo.
“Nessas horas só dá para orar, pedir proteção de Deus, mais nada. Faz chover mísseis, literalmente”, relata, descrevendo um padrão de ataques que se repetem dia e noite.
Hoje, o brasileiro vive em Kharkiv, uma das principais cidades ucranianas próximas à fronteira com a Rússia e alvo frequente de ataques.
Ele relata que “quase que diariamente a Rússia ataca esta cidade”, o que transforma sirenes, alertas de ataque aéreo e explosões ao longe em parte da paisagem sonora da vida cotidiana.
Creche destruída, crianças em choque e a cidade sob fogo

Um dos episódios que mais marcaram os brasileiros em Kharkiv foi o ataque recente a uma creche, onde 48 crianças estavam no momento da explosão de um drone russo.
A estrutura do prédio foi destruída e, segundo as autoridades locais, uma pessoa morreu e seis ficaram feridas.
Moradores que ajudaram no resgate relatam o pânico infantil.
As crianças choravam, tremiam e precisaram ser levadas às pressas para abrigos improvisados, enquanto voluntários tentavam acalmá-las em meio à fumaça e aos destroços.
Cândido visitou o local no dia seguinte e descreveu a cena como um retrato brutal da lógica da guerra.
Ao observar a fachada destruída e brinquedos espalhados entre escombros, o brasileiro questiona o alvo escolhido.
Para ele, o ataque à creche não tem justificativa militar.
“Onde já se viu atacar um jardim de infância cheio de criança?”, desabafa, apontando para a dimensão humana do conflito que ultrapassa trincheiras e linhas de frente.
Drones, inteligência em tempo real e brasileiros na guerra tecnológica
Outro brasileiro que deixou o Brasil para lutar pela Ucrânia é Guilherme Ribeiro, de 49 anos.
Desde 2022, ele atua em unidades de reconhecimento de combate com drones, um dos símbolos da guerra atual.
Sua função é mapear alvos, monitorar movimentações e orientar ataques de artilharia a partir de imagens em tempo real.
Guilherme explica que “tudo é informado em tempo real”.
Assim que um drone brasileiro ou ucraniano identifica um alvo, a posição é enviada diretamente ao comando, que aciona as equipes de bombardeio.
Em determinadas missões, os drones carregam granadas e outros explosivos, transformando o operador em um ator decisivo na linha entre vida e morte, mesmo a quilômetros da linha de contato.
Em média, a equipe em que Guilherme atua realiza cerca de 50 voos por dia, variando entre missões de observação e ataques.
Os brasileiros que operam drones trabalham cercados de coletes, capacetes, granadas, fuzis, rádios e sistemas de comunicação, em uma rotina que alterna horas de espera com segundos de decisões irreversíveis.
Casas improvisadas, armários cheios de equipamentos e “férias” em zona de guerra
Longe do front imediato, a casa em que Guilherme mora com dois soldados ucranianos funciona ao mesmo tempo como alojamento, depósito e centro de preparação.
Um dos companheiros está internado, ferido em combate.
Nos quartos e corredores se acumulam mochilas táticas, fuzis, munições, coletes, capacetes, máscaras de gás e granadas organizadas para o próximo deslocamento.
O brasileiro relata que a rotina militar é marcada por ciclos de combate e breves intervalos de descanso.
A cada três meses, ele tem direito a um período de “férias”, quando pode se afastar temporariamente da linha de frente e passar alguns dias com a companheira ucraniana, com quem pretende se casar.
Mesmo nesses intervalos, no entanto, sirenes, notícias de ataques e mensagens de colegas feridos mantêm a guerra presente.
Guilherme descreve um país que tenta funcionar apesar do conflito.
“É um país em guerra, porém tudo muito limpo, tudo funcionando”, afirma, ao mostrar mercados abastecidos, lojas abertas e uma cidade que, entre um alarme aéreo e outro, busca preservar alguma aparência de normalidade.
Quando o alerta soa, funcionários e clientes descem para abrigos subterrâneos, aguardam o fim do risco e depois retomam a vida comercial.
Brasileiros entre duas guerras: a física e a psicológica
Para os brasileiros que deixaram o país rumo ao conflito na Ucrânia, a guerra não se limita a bombas, drones e trincheiras.
Ela continua em silêncio, na cabeça e no coração, quando a troca de tiros cessa e o único som é o de mensagens chegando pelo celular.
Em Kharkiv, Cândido se emociona ao observar um memorial com bandeiras fincadas no chão, cada uma representando um combatente morto.
“Cada bandeira dessa representa uma pessoa que faleceu defendendo a causa ucraniana”, reflete.
Para ele, os brasileiros vivem duas frentes ao mesmo tempo: a guerra física contra as tropas russas e a guerra psicológica contra a saudade da família e o peso das perdas diárias.
A distância em relação ao Brasil reforça o impacto emocional.
Os brasileiros no front acompanham de longe aniversários, doenças, conquistas dos filhos e rotinas de pais e irmãos, quase sempre por chamadas de vídeo rápidas e mensagens enviadas em intervalos entre missões.
A qualquer momento, uma notificação pode ser a última, seja porque o soldado foi atingido, seja porque um ataque derrubou a conexão em toda a região.
Futuro incerto, missão em aberto e a pergunta que fica
Quase dois anos após o início da invasão em grande escala, os brasileiros que escolheram lutar pela Ucrânia sabem que não há garantia de retorno nem de vitória rápida.
Falam em coragem, sentido de missão e vontade de “ajudar quem precisa”, mas também reconhecem o desgaste físico e mental acumulado a cada rotação na linha de frente.
Nas cidades onde vivem, a infraestrutura segue funcionando, mas creches destruídas, vilas em ruínas e hospitais cheios de feridos lembram que qualquer sensação de normalidade é provisória.
Enquanto drones sobrevoam ruínas e novas ofensivas são planejadas, eles seguem no front, tentando equilibrar o papel de combatentes estrangeiros com a condição de filhos, pais, maridos e amigos que deixaram uma vida inteira no Brasil para trás.
Diante dessa realidade extrema, com brasileiros divididos entre o dever que assumiram na Ucrânia e a saudade de quem ficou no Brasil, uma questão inevitável se impõe ao leitor: se estivesse no lugar deles, você também deixaria tudo para trás para lutar em uma guerra em outro país?
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Uma pessoa reagiu a isso.