Com custos crescentes em Portugal, muitos brasileiros encontram na Espanha e na Bélgica melhores salários, transporte eficiente e um ambiente social mais compatível com seus valores.
O aumento do custo de vida em Portugal está levando cada vez mais brasileiros a reconsiderar o destino europeu que parecia estável e acolhedor. Histórias recentes mostram que, diante de salários que não acompanham a inflação, aluguéis que dispararam e um clima social que mudou, muitos estão migrando para cidades como Barcelona e Ghent ou até retornando ao Brasil.
As experiências de vida relatadas apontam para um movimento consistente. Enquanto Portugal enfrenta inflação, gentrificação acelerada, salários estagnados e burocracias que afetam a mobilidade, cidades espanholas e belgas têm oferecido aos brasileiros salários maiores, aluguéis mais proporcionais à renda, transporte público eficiente e um ambiente social percebido como mais compatível com seus valores.
Dos preços insustentáveis ao retorno ao Brasil
A tradutora Lara Sheffer viveu dois anos na região de Lisboa antes de decidir retornar a Florianópolis em 2025. Para ela, os aumentos simultâneos de alimentação, energia e aluguel tornaram a permanência insustentável. Os brasileiros relatam que despesas que antes pareciam viáveis se transformaram rapidamente em custos desproporcionais ao salário.
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Lara destaca que pagar entre 300 e 500 euros a mais por mês apenas para manter gastos básicos mudou completamente o planejamento de vida.
O valor de um T1, que saltou para 1250 euros, superou qualquer margem de conforto. Ela também enfrentou longas esperas para renovar a autorização de residência, o que restringia viagens e dificultava a rotina profissional.
De volta ao Brasil, Lara avalia que possui uma vida mais confortável e estável, especialmente por trabalhar para clientes internacionais. A combinação de renda em moeda forte e custo de vida mais acessível trouxe um alívio que não encontrou em Portugal.
Quando Barcelona vira a alternativa natural
O bibliotecário Lucas Carrera viveu sete anos em Lisboa, mas decidiu que era hora de buscar novas oportunidades. Em Barcelona, encontrou aquilo que vinha faltando. Os brasileiros que chegam à capital catalã relatam salários maiores, transporte confiável e um mercado de moradia mais equilibrado.
Lucas conta que, mesmo pagando mais pelo aluguel na Espanha, todo o restante do custo de vida é mais acessível do que em Lisboa. Seu salário dobrou, o lazer cabe novamente no orçamento e o transporte funciona de forma coerente com o ritmo da cidade.
Para ele, a mudança representou a possibilidade de recomeço sem abrir mão de qualidade de vida ou perspectivas profissionais.
O clima social também pesou. Discursos anti-imigração em Portugal passaram a afetar sua experiência. Brasileiros relatam que deixaram de se sentir plenamente acolhidos, mesmo com documentação europeia. Para Lucas, Barcelona devolveu o senso de pertencimento que ele havia perdido.
Bélgica: salários mais altos e transporte confiável
A história de Glauco Brandão segue o mesmo padrão. Ele viveu cinco anos em Lisboa, enfrentando aluguel alto, contas crescentes e salários que mal cobriam as despesas mensais. Hoje, em Ghent, na Bélgica, vive com tranquilidade financeira após ver tanto o próprio salário quanto o do marido multiplicarem.
Mesmo com custo de vida semelhante ao português, Glauco afirma que os aluguéis são mais justos, os imóveis têm melhor estrutura e o transporte público funciona de maneira exemplar.
Os brasileiros descrevem a Bélgica como um ambiente mais equilibrado entre renda, moradia e serviços essenciais, algo que Portugal deixou de oferecer.
A xenofobia também atravessou sua vivência em Lisboa, embora o fator financeiro tenha sido decisivo para a mudança. Um ano e meio após se mudar, Glauco diz estar estabilizado e sem planos de voltar ao Brasil, salvo para visitas à família.
O peso da gentrificação e o esgotamento habitacional
Especialistas apontam que cidades como Lisboa e Porto vivem uma «turbo-gentrificação». A combinação de turismo de massa, plataformas de aluguel de curta duração e entrada de estrangeiros de maior poder aquisitivo reduziu drasticamente a oferta de moradia de longo prazo.
Com salários que não acompanham o ritmo dos preços, os brasileiros passaram a enfrentar uma equação quase impossível: habitação cada vez mais cara e rendimentos praticamente estagnados.
A entrada de nômades digitais e o interesse de fundos imobiliários aceleraram ainda mais essa escalada.
Sem respostas públicas eficazes para regulação e habitação social, muitos imigrantes, inclusive brasileiros, foram empurrados para as periferias ou decidiram deixar o país.
Políticas migratórias que facilitam a entrada, mas não garantem a permanência
Portugal continua oferecendo caminhos acessíveis para residência legal a cidadãos da CPLP. No entanto, especialistas apontam um descompasso entre essas políticas e a realidade habitacional. Brasileiros conseguem documentação, mas não conseguem permanecer com estabilidade financeira.
Programas de retorno voluntário registram participação majoritária de brasileiros, e notificações formais de saída do país também alcançam números elevados. Embora o país ofereça segurança jurídica, falta sustentação econômica para transformar a chegada em permanência de longo prazo.
Ao mesmo tempo, a saída crescente de imigrantes contribui para perda de diversidade e enfraquecimento da dinâmica urbana nas grandes cidades portuguesas.
O movimento atual mostra que brasileiros não estão deixando a Europa, mas ajustando suas escolhas diante das condições reais de vida. Portugal permanece importante simbolicamente, porém perdeu competitividade prática em temas centrais como moradia, remuneração, mobilidade e clima social.
Barcelona e Bélgica surgem como destinos onde o equilíbrio entre renda e custo de vida voltou a ser possível, enquanto muitos optam até mesmo pelo retorno ao Brasil como forma de reconstruir estabilidade.
Para o leitor que acompanhou essas histórias, fica uma questão que atravessa todo o debate: qual fator deveria pesar mais na decisão de um brasileiro que pensa em deixar Portugal hoje — o custo de vida, os salários, ou o clima social?
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