Caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos, relembra 105 viagens a Belém do Pará, uma vida rodando a BR-153 e mostra como um único caminhão pode carregar fretes, revisões, amizades e histórias que não cabem no hodômetro.
Há quem mude de caminhão toda vez que consegue um negócio melhor, mas este caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos e não pensa em se separar do “Amarelão”. Aos 73 anos, aposentado pelo INSS, ele segue encarando estrada, lembrando as 105 viagens a Belém, os tempos de palmito, os fretes apertados de hoje e as amizades que garantem socorro quando algo dá errado no meio do caminho.
Um casamento de 46 anos entre caminhoneiro e Mercedes

Roberto Ferreira de Souza comprou o Mercedes amarelo em 1980, com quatro anos de uso. Desde então, o caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos, como se tivesse casado com o caminhão.
Ele mesmo brinca que já tentou pensar na troca, mas toda vez que abria a porta da cabine, olhava outros caminhões e o coração não deixava.
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Com o passar do tempo, o cenário ficou ainda mais desequilibrado. O caminhão antigo desvalorizou, os modelos novos ficaram superfaturados e os fretes não acompanharam esse aumento.
Para ele, assumir hoje uma parcela alta em um caminhão zero é simplesmente inviável, o que reforça a decisão de seguir com o “Amarelão” enquanto tiver condições de trabalhar.
O apelido virou parte da identidade. Na estrada, ele é o “Roberto do Amarelão”, tão ligado ao caminhão que a família não consegue imaginar os dois separados.
A esposa chega a dizer para o filho que, se venderem o caminhão, é como “enterrar o pai vivo”. A filha mais nova também confessa que não consegue ver o pai sem aquele Mercedes específico, e ele concorda: não é qualquer caminhão, é “esse” caminhão.
Documentário alemão e 105 viagens para Belém
A relação é tão forte que o caminhão ganhou até protagonismo internacional. O “Amarelão” foi destaque em um documentário produzido por uma TV alemã em 2017, exibido no início de 2018.
A emissora queria mostrar caminhões Mercedes antigos em atividade no Brasil, e a história de Roberto encaixou perfeitamente.
Além da fama pontual, o caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos cruzando o país, com uma rotina que marcou especialmente a rota para Belém do Pará.
Ele contabiliza 105 viagens para a capital paraense, sempre saindo de São Paulo, criando laços em postos, pátios e cidades ao longo da BR-153.
Roberto fala com orgulho que, nesse trajeto, só tem amigos, não tem inimigo, e já contou com a ajuda de muitos deles quando algo deu errado.
Quando o caminhão quebra, ele sabe que pode encontrar socorro de alguém que conheceu na estrada. Essa rede de amizade é tão parte da história quanto o próprio Amarelão, e ajuda a explicar por que ele segue rodando, mesmo com os desafios atuais.
Fretes apertados, custos altos e revisão sempre em dia
Se por um lado o caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos por paixão, por outro existe um lado racional: os custos da atividade.
Roberto sempre fez questão de cuidar do caminhão em concessionária, realizando revisões preventivas para evitar problemas maiores na estrada.
Com o tempo, porém, o aperto financeiro obrigou a esticar alguns intervalos. Se antes revisava câmbio com 150 mil quilômetros, hoje empurra para 200 mil para segurar o caixa.
Segundo ele, o frete atual não acompanha a realidade dos custos, e a conta é simples: combustível e pedágio consomem quase metade do valor.
Ele lembra que, no passado, o caminhoneiro gastava por volta de 25% do frete com despesas diretas. Se um frete valia mil reais, ficava em torno de 750 reais de resultado.
Agora, em muitas viagens, o cenário é praticamente meio a meio. Em um retorno de 20 mil reais, ele comenta que chega em casa com menos da metade, depois de pagar diesel, pedágio, descarga, caixinha, alimentação, banho em posto e até estacionamento.
Além disso, ainda é preciso reservar uma parte para a manutenção do caminhão, pensando em motor, câmbio, diferencial, freio, rolamentos e toda a depreciação do veículo.
É esse conjunto que mostra como a vida na estrada mudou e por que ele considera tão difícil assumir o risco de um caminhão novo.
Do palmito às frutas: a mudança de carga depois de 2015

A trajetória profissional de Roberto também se confunde com a do “Amarelão”. No início, ele puxava madeira.
Depois, entrou em uma fábrica de compensado, onde trabalhou cerca de cinco anos. Em seguida, veio uma fase longa e estável com uma fábrica de palmito, em Belém.
Foram 26 anos transportando palmito na volta, com um frete que ele considera até melhor do que o da ida. Essa fábrica era o equilíbrio financeiro da rota, o frete bom que fechava a conta da viagem.
Em outubro de 2015, porém, a empresa fechou as portas, abalando diretamente a vida do caminhoneiro e a rotina do Amarelão.
Sem o palmito, ele migrou para as frutas. De janeiro a junho, passou a trabalhar com abacaxi no sul do Pará. De junho até novembro ou dezembro, o foco se deslocou para a melancia, em estados como Goiás e Tocantins.
Mesmo assim, ele impôs um limite claro: não aceita excesso de peso, mesmo vendo caminhões do porte do seu saindo carregados com 22 toneladas.
Como o documento do caminhão é para 14 mil quilos, ele afirma que prefere respeitar esse limite. Para ele, fugir de balança e arriscar multa ou, pior ainda, se envolver em acidente com excesso de carga é entrar em uma zona de risco desnecessária.
Essa postura fez com que ele se afastasse de alguns fretes de abacaxi, mas manteve em dia a consciência e a tranquilidade para seguir rodando.
Acidentes, estrada mais fria e a mudança na camaradagem
Em tantos anos de estrada, Roberto considera que sua trajetória foi, em geral, tranquila. Mas houve um episódio marcante no Maranhão, quando uma moto, em vez de completar a conversão para a esquerda, acabou voltando em diagonal e atingindo o caminhão.
O pneu da moto bateu no pneu dianteiro, estourou a borracha e o impacto deixou um dos ocupantes ferido e o outro sem vida.
Ele lembra que, por sorte, o garupa sobreviveu e contou para todos, inclusive para o pai da vítima, que a culpa não tinha sido do caminhoneiro.
Esse tipo de situação pesa na memória de quem vive da estrada, mesmo quando a responsabilidade não é do motorista do caminhão.
Outro ponto que mudou na percepção dele foi a camaradagem. No começo da carreira, se um caminhão parava no acostamento, outro colega encostava, perguntava o que aconteceu, ajudava no que fosse possível.
Hoje, ele sente que muita gente passa direto, finge que não viu, embora ainda existam os “amigos raiz” que param, ajudam em uma manutenção rápida e não deixam o colega na mão.
Potência, idade e limites de um caminhoneiro que não quer parar
Apesar de antigo, o caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos com uma mecânica atualizada. O motor já não é mais o original, e a configuração turbinada chega aos 180 cavalos.
Ele preservou um câmbio antigo, conhecido como G40, com engrenagens maiores, o que garante força nas subidas e evita que o caminhão “passe vergonha” em aclives mais pesados.
Ao mesmo tempo, o corpo já não acompanha o ritmo de antigamente. Com 73 anos, ele lembra de épocas em que desmontava pneus na própria casa, na marreta, trocava câmara na estrada, ajustava freio debaixo do caminhão sem pensar duas vezes.
Hoje, até entrar embaixo do caminhão para regular o freio virou tarefa pesada, e ele reconhece que não é mais “aquele moleque que pula do telhado”.
Mesmo assim, quando ouve a pergunta sobre até quando pretende continuar, ele admite que essa é a questão mais difícil de responder.
Aposentado desde 2019, pelo INSS, não se imagina simplesmente largando o caminhão e ficando em casa. Para ele, a ideia de vender o Amarelão soa mais pesada do que enfrentar a próxima subida carregado.
No fim, fica claro que o caminhoneiro mantém o mesmo Mercedes há 46 anos porque o caminhão deixou de ser apenas ferramenta de trabalho.
Virou memória, identidade, companheiro de estrada, parte da família e personagem principal de uma história que vai de São Paulo a Belém, volta pela BR-153 e continua sempre que o motor liga.
E você, conseguiria se apegar a um único caminhão por quase meio século como o Roberto do Amarelão ou trocaria de Mercedes sempre que tivesse a chance?
Parabéns!!!!O senhor e o Amarelão tem todo meu respeito!! Acredito que viver da estrada com os fretes de hoje é desafiador. Tem que ter o dom e acima de tudo, paixão pela profissão.
Parabens Robertao pela sua resiliencia O que ganhava antes com um caminhao Precisaria hoje de uma carreta Que custa muito caro Inviavel Enquanto aguentar Continue com o que tem Sem dividas Boa Sorte nas estradas
Grande guerreiro da estrada…. Merece todo o nosso respeito!! 👏👏👏