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Canadá vira o jogo: acaba com obrigação de vender veículo elétrico, mas turbina incentivos de até US$ 3,6 mil, endurece regras de emissões e enfrenta pressão dos EUA e da China

Escrito por Carla Teles
Publicado el 10/02/2026 a las 17:07
Actualizado el 10/02/2026 a las 17:09
Canadá vira o jogo acaba com obrigação de vender veículo elétrico, mas turbina incentivos de até US$ 3,6 mil, endurece regras de emissões e enfrenta pressão dos EUA
Canadá ajusta política de veículos elétricos com incentivos para veículos elétricos, foco em emissões veiculares e reação à China.
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Governo de Mark Carney troca a meta obrigatória de mercado por incentivos de até C$ 5.000 para veículos elétricos, endurece regras de emissões e tenta equilibrar pressão dos Estados Unidos e da China

O Canadá decidiu redesenhar sua estratégia para veículos elétricos de um jeito que parece contraditório à primeira vista. O governo de Mark Carney está revogando a obrigatoriedade nacional de vendas de modelos elétricos, mas ao mesmo tempo vai injetar bilhões de dólares em incentivos diretos para compra, leasing e recarga desses veículos, além de criar normas de emissões mais rígidas para os próximos anos. Não é um recuo simples, é uma troca de ferramenta: sai a obrigação direta, entra um pacote de dinheiro e regulações climáticas.

Ao redor desse movimento, há um tabuleiro complexo. A Comissão Europeia já flexibilizou regras que apertavam demais os motores a combustão, os Estados Unidos cortaram créditos fiscais importantes para veículos elétricos, e a China disputa espaço no mercado norte-americano com tarifas, cotas e acordos. O Canadá está tentando se posicionar como “líder climático”, sem perder a competitividade da indústria e sem ficar preso à estratégia de nenhum dos dois gigantes.

De obrigação a dinheiro na mão: quanto o Canadá vai pagar pelos veículos elétricos

Carney anunciou que o país vai destinar cerca de C$ 2,3 bilhões para financiar incentivos de até C$ 5.000, aproximadamente US$ 3.653, na compra ou leasing de veículos elétricos por pessoas físicas e jurídicas.

Além disso, haverá C$ 1,5 bilhão para expandir a infraestrutura de recarga, um gargalo clássico para quem pensa em migrar de vez para o carro elétrico.

Na prática, o governo está dizendo que prefere convencer o consumidor de veículos elétricos com dinheiro e infraestrutura em vez de apenas impor uma meta de participação de mercado.

O pacote inclui ainda até C$ 3,1 bilhões para o setor automobilístico canadense, com o objetivo de ajudar montadoras na transição cara e arriscada para os carros elétricos.

É um recado direto à indústria: o Canadá quer veículos elétricos, mas está disposto a dividir a conta da mudança.

Em vez de meta obrigatória, emissões veiculares mais duras

Sob o governo anterior, de Justin Trudeau, Ottawa havia determinado que 20% de todos os veículos vendidos em 2026 fossem livres de emissões. A medida, pensada para acelerar a adoção de veículos elétricos, foi mal recebida por fabricantes, que alegavam custos insustentáveis e dificuldades práticas para atingir a meta.

Carney decidiu seguir outro caminho. Em vez de manter a obrigatoriedade de vendas, o Canadá introduzirá normas de emissões mais rigorosas entre os modelos 2027 e 2032.

Segundo o governo, esse pacote de regras deve ajudar o país a chegar a 75% de vendas de veículos elétricos até 2035 e 90% até 2040. A lógica é focar no resultado final da poluição, e não necessariamente no rótulo do tipo de motor.

Para o primeiro-ministro, substituir a meta rígida por padrões de emissões veiculares “foca nos resultados que importam aos canadenses” e evita encargos excessivos para a indústria automotiva nacional.

Na visão oficial, isso mantém o Canadá como “líder em mudanças climáticas”, mesmo com o recuo na obrigação de vendas.

Ambientalistas x indústria: o racha em torno dos veículos elétricos

A mudança dividiu opiniões. Grupos ambientalistas enxergam a nova estratégia como um passo para trás. Sam Hersh, da organização Environmental Defence, classificou o plano para veículos elétricos como “um enorme retrocesso”, argumentando que o alívio atual para as montadoras pode se traduzir em problemas maiores no longo prazo.

Na avaliação dele, a indústria pode entrar em um “caminho inevitável de declínio” se não acelerar o ritmo da eletrificação.

Do outro lado, a Associação Canadense de Fabricantes de Veículos elogiou o anúncio. Para as montadoras, o financiamento para incentivos de compra e a expansão da infraestrutura de recarga são exatamente o empurrão que faltava para os veículos elétricos ganharem massa crítica sem quebrar o setor.

Há ainda quem celebre por outro motivo: o Consumer Choice Center, grupo de defesa do consumidor, afirmou que sempre foi errado o governo “ditar aos canadenses que tipo de carro eles deveriam comprar”.

No meio desse racha, o governo tenta se equilibrar. Ao mesmo tempo em que afrouxa a obrigação para os veículos elétricos, Carney endurece emissões e abre o cofre para quem quiser comprar ou produzir modelos elétricos.

Estados Unidos apertam combustão? Não. Canadá tenta se diferenciar

Enquanto o Canadá amplia incentivos para veículos elétricos, os Estados Unidos caminham na direção oposta em alguns pontos. Washington encerrou, em setembro, um crédito fiscal de longa data de US$ 7.500 para carros elétricos, reduzindo o apelo econômico imediato de muitos modelos.

Desde que Donald Trump assumiu a presidência, o país tomou medidas para facilitar a venda de veículos a gasolina, favorecendo motores tradicionais.

Já na Europa, a Comissão Europeia concordou em suspender a proibição de novos carros com motor a combustão interna a partir de 2035, diante da adoção mais lenta que o esperado de veículos elétricos.

O Canadá se posiciona em um ponto intermediário: segue alguns movimentos da Europa, mas mantém um apoio financeiro aos elétricos bem mais robusto do que os Estados Unidos oferecem hoje.

O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, chamou a nova estratégia de momento “crucial”, apontando que a economia e a soberania canadense estão sob ataque das políticas de Trump.

Ao reforçar os veículos elétricos com dinheiro e exigências ambientais, o Canadá tenta blindar sua indústria dos choques vindos de Washington.

Veículos elétricos no meio da guerra comercial com EUA e China

A política para veículos elétricos também está ligada a uma disputa comercial mais ampla. Carney criticou os danos das tarifas americanas ao setor automotivo norte-americano, altamente integrado entre Canadá, Estados Unidos e México, e defendeu a diversificação do comércio, com foco em produção nacional.

O Canadá decidiu manter tarifas retaliatórias sobre importações de automóveis dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, avançar em um acordo com a China.

Em um entendimento inicial, o país permitirá a importação de até 49.000 veículos elétricos chineses com tarifa de 6,1%, seguindo o princípio da nação mais favorecida. Essa cota deve subir para cerca de 70.000 unidades em cinco anos.

Há, porém, um limite claro: os veículos elétricos chineses não serão elegíveis para os incentivos governamentais canadenses. Isso significa que eles entram no mercado, ajudam a aumentar a oferta e a competição, mas não consomem o orçamento público destinado aos incentivos para veículos elétricos.

Ao mesmo tempo, o governo quer que a parceria com a China resulte em novos investimentos de joint ventures chinesas em território canadense, fortalecendo a produção local.

O lado menos visível: petróleo, eletricidade e credibilidade climática

Nem todas as decisões recentes estão alinhadas com a narrativa de vanguarda climática. Em novembro, o governo federal descartou um limite de emissões planejado para o setor de óleo e gás e abandonou regras sobre eletricidade limpa que pretendiam incentivar investimentos em geração de energia menos poluente.

Isso cria um quadro ambíguo. De um lado, o Canadá injeta bilhões em veículos elétricos, aperta emissões veiculares e define metas ambiciosas de participação elétrica nas vendas.

De outro, recua em medidas estruturais ligadas à matriz energética e ao setor de combustíveis fósseis. A pergunta que fica é se a transição puxada pelos veículos elétricos será suficiente para compensar essas concessões em outras frentes.

Ainda assim, Carney insiste que o país continua sendo um “líder em mudanças climáticas” e promete, para as próximas semanas, uma estratégia de competitividade climática que tente amarrar melhor todos esses movimentos.

No fim das contas, o Canadá escolheu um caminho mais complexo para os veículos elétricos: sem obrigar ninguém diretamente, mas combinando dinheiro, emissão mais rígida e geopolítica dura com Estados Unidos e China.

Na sua opinião, essa mistura de incentivos e metas de emissões é suficiente para acelerar de vez os veículos elétricos no Canadá, ou a falta de obrigação direta ainda vai atrasar a virada da frota?

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Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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