Endividamento das famílias e limite do cartão de crédito impulsionam retorno do carnê varejo no comércio de Belo Horizonte.
O carnê varejo voltou a ganhar espaço nas lojas de Belo Horizonte como alternativa de pagamento para consumidores com limite do cartão crédito comprometido.
A estratégia tem sido adotada por varejistas para manter o giro de vendas e ampliar o acesso ao crédito consumidor, especialmente entre clientes que já estão endividados.
O movimento foi identificado em levantamento divulgado pela Fecomércio-MG em fevereiro, com dados referentes a janeiro.
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Segundo o estudo, a inadimplência na capital mineira apresentou uma leve redução de apenas 0,1%, um recuo considerado praticamente imperceptível.
Mesmo assim, o cenário continua pressionado pelo alto nível de endividamento famílias, principalmente por causa do uso intensivo do cartão.
De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), 96,3% dos consumidores endividados em Belo Horizonte possuem dívidas no cartão de crédito. Entre famílias com renda superior a dez salários mínimos, o índice é ainda maior e chega a 99,2%.
Diante desse cenário, o comércio tem retomado uma prática tradicional: oferecer crediário lojas por meio de carnês.
Crescimento do carnê varejo após a pandemia
Embora tenha perdido espaço nos últimos anos, o carnê varejo voltou a crescer no período pós-pandemia. O levantamento da Fecomércio-MG mostra que a modalidade passou por oscilações significativas ao longo da última década.
Em janeiro de 2019, o carnê representava 21,6% das dívidas dos consumidores. Já em 2020, o percentual caiu para 13%, acompanhando a redução da demanda e o avanço dos pagamentos digitais e do cartão.
No entanto, o cenário começou a mudar após a pandemia. Em janeiro de 2024, cerca de 27,4% das famílias endividadas utilizavam carnê. Atualmente, o índice chegou a 30,6%, evidenciando uma retomada consistente dessa forma de crédito consumidor.
Esse crescimento revela uma mudança no comportamento financeiro das famílias.
Cartão de crédito pressiona orçamento das famílias
O aumento do uso do carnê varejo está diretamente ligado ao alto comprometimento da renda com o cartão crédito. Em muitos casos, o cartão tem sido utilizado para despesas básicas do dia a dia, o que reduz a capacidade de compra para produtos de maior valor.
A economista da Fecomércio-MG, Gabriela Martins, explica que esse cenário limita o acesso a bens duráveis e semiduráveis.
“Temos visto o uso do carnê subindo muito entre os consumidores. Isso nos indica que as pessoas provavelmente estão com o crédito do cartão já comprometido e, quando precisam comprar bens com valor agregado mais alto, não têm crédito disponível nem dinheiro.
Então acabam buscando o carnê, que é uma modalidade normalmente oferecida diretamente pelas empresas, principalmente do comércio varejista”, explica.
Assim, itens como fogões, geladeiras, celulares e tablets acabam sendo comprados por meio do crediário lojas, alternativa oferecida diretamente pelos varejistas.
Como o crediário das lojas mantém o consumo ativo
Durante décadas, o carnê varejo foi um dos principais mecanismos de financiamento no comércio brasileiro. Grandes redes varejistas cresceram utilizando esse modelo de pagamento parcelado.
Empresas como Casas Bahia e Magazine Luiza popularizaram o sistema, no qual o consumidor paga parcelas mensais com valores previamente definidos.
O modelo cria uma relação direta entre cliente e loja, sem intermediação de bancos ou operadoras de cartão.
Além disso, o sistema ajuda a fidelizar consumidores.
A lógica era simples: ao manter o nome limpo, o cliente continuaria tendo acesso ao crédito consumidor da loja e poderia realizar novas compras. Essa relação de confiança ajudava a sustentar o fluxo de vendas.
Agora, com muitos consumidores sem limite disponível no cartão crédito, o varejo volta a apostar nesse formato.
“Quando grande parte das famílias está com a renda muito comprometida — e às vezes até com todo o crédito do cartão esgotado —, elas não teriam meio, crédito ou renda disponível para fazer uma compra. Vendo isso, os varejistas estão impulsionando o carnê para não perder a venda nem o cliente.
Oferecem uma facilidade no pagamento — apesar dos juros também muito altos —, mas o cliente não deixa de comprar. É uma forma de fazer com que o consumidor endividado continue consumindo, para que as vendas não caiam”, comenta a economista.
Carnê varejo exige atenção dos consumidores
Apesar de facilitar o acesso ao crédito consumidor, o carnê varejo também exige cautela. Isso porque os juros embutidos nessa modalidade costumam ser elevados.
Segundo especialistas, o parcelamento direto nas crediário lojas pode ampliar o endividamento famílias caso não haja planejamento financeiro.
A economista Gabriela Martins alerta que o compromisso assumido no carnê pode pesar no orçamento ao longo do tempo, principalmente para quem já enfrenta dificuldades financeiras.
Outro risco envolve o impacto no próprio comércio.
Se o número de consumidores inadimplentes crescer, as lojas também podem sofrer com a redução das vendas e com dificuldades para recuperar créditos.
“Famílias muito endividadas têm maior cautela na hora de consumir, e as inadimplentes muitas vezes não têm acesso a nenhuma forma de crédito.
O carnê é uma forma que as lojas encontram de aproximar esse consumidor e realizar a venda”, conclui Gabriela Martins.
Veja mais em: Comércio de Belo Horizonte adota carnê para incrementar vendas

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