Fenômeno raro em florestas africanas chama atenção por deixar rastros visíveis no chão e revelar diferenças de comportamento entre grupos, com uso de pedras, árvores escolhidas repetidamente e sinais de aprendizado social, enquanto a espécie enfrenta pressão da perda de habitat.
Em algumas florestas da África Ocidental, pesquisadores registraram um comportamento que chama atenção pela simplicidade e pelo resultado visível no chão: chimpanzés recolhem pedras, batem contra troncos e raízes, arremessam rochas em direção a árvores específicas ou as lançam dentro de cavidades, acumulando montes que lembram pequenos marcos de pedra.
A cena costuma acontecer perto da base de árvores escolhidas repetidamente, onde o som do impacto se destaca no ambiente e, com o tempo, o local passa a concentrar um volume incomum de rochas depositadas ao redor do tronco ou no interior de buracos naturais, formando um tipo de “cairn” que não surge por processos normais do terreno.
O registro não descreve uma única ação isolada, mas um padrão observado em populações específicas, com repetição suficiente para indicar um hábito, e não um acidente ocasional de brincadeira ou uma reação pontual a um estímulo.
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Pedras em árvores ocas e marcas que ficam no ambiente
Entre os pontos mais citados pelos cientistas está o fato de que as pedras não são usadas ali para abrir alimentos ou quebrar cascas, como ocorre em outros contextos de ferramenta em primatas, e sim em uma sequência que envolve escolha do objeto, deslocamento até a árvore e produção de um efeito sonoro e físico no ambiente.
Esse tipo de uso de ferramenta é tratado como incomum porque, na maioria das vezes, ferramentas em chimpanzés aparecem ligadas a alimentação, como varas para “pescar” cupins e formigas ou pedras para quebrar nozes, enquanto o arremesso e a batida contra troncos criam uma marca acústica e visual que permanece no local.
O comportamento foi descrito com base em observações e registros de múltiplas comunidades de chimpanzés, incluindo locais de pesquisa de longo prazo e áreas amostradas em levantamentos, com foco em identificar onde o padrão ocorre e como ele se apresenta em diferentes regiões.
Nessas populações, a presença de árvores “focais” se repete como elemento central, com preferência por troncos que geram ruído forte ao receber impacto e por pontos em que cavidades e raízes formam um receptáculo para a pedra permanecer, aumentando o efeito acumulativo do comportamento.
Tradições entre grupos e aprendizado social em chimpanzés
Ao mesmo tempo, o fenômeno não é generalizado em toda a distribuição da espécie, o que coloca em evidência uma característica recorrente em estudos sobre chimpanzés: comportamentos podem variar entre grupos, mesmo quando os animais pertencem à mesma espécie e vivem em florestas relativamente próximas.
Essa variação regional aparece em outras formas de uso de ferramentas e de exploração do ambiente, com diferenças documentadas na maneira de obter alimento, no tipo de objeto escolhido, na técnica aplicada e na frequência de uso, criando “repertórios” que se tornam reconhecíveis para quem acompanha cada comunidade.
Quando um comportamento se mantém dentro de um grupo e não é observado com a mesma regularidade em outro, a explicação mais aceita entre primatólogos é que existe aprendizado social, com jovens observando adultos, repetindo tentativas e ajustando movimentos até dominar a técnica, além de preferências locais influenciadas por disponibilidade de materiais.
No caso dos “cairns” de pedra, o padrão de repetição no mesmo tipo de árvore e a formação de acúmulos no solo ampliam a curiosidade porque o efeito é duradouro e pode ser detectado mesmo depois que o animal deixa a área, funcionando como uma assinatura física daquele uso.
Comunicação, sons de impacto e contexto social na floresta
Os pesquisadores descrevem que, durante esses episódios, chimpanzés podem combinar a ação com vocalizações intensas, típicas de comunicação a longa distância, o que reforça a percepção de que o comportamento ocorre em um contexto social e não apenas como manipulação aleatória de objetos.
Ainda assim, os próprios estudos apontam que a função exata não foi estabelecida, e o fenômeno segue sendo analisado com cautela, evitando interpretações que não estejam amparadas por observação direta e repetida em diferentes locais.
Parte do interesse científico vem do contraste entre o ato simples de arremessar uma pedra e a consequência mais complexa de criar um local recorrente, com acúmulo gradual, em um animal que vive em sociedades com relações dinâmicas, disputas de status, cooperação e comunicação constante.
Chimpanzés são conhecidos por viver em sistemas sociais de fissão e fusão, em que subgrupos se formam e se desfazem ao longo do dia, e a coordenação de encontros, deslocamentos e alimentação depende de sinais vocais e visuais que podem atravessar longas distâncias na floresta.
Dentro desse cenário, sons fortes produzidos por impacto em árvores não são novidade para a espécie, já que bater em troncos e produzir ruído pode integrar repertórios de exibição e comunicação, mas o uso de pedra adiciona um elemento material que se acumula e deixa um rastro perceptível.
Pesquisa em campo e identificação do comportamento “stone throwing”
O tema também dialoga com uma questão maior na primatologia: a diversidade do uso de ferramentas em chimpanzés e a maneira como esse uso se relaciona com ambiente, tradição local e aprendizagem, sem que isso signifique atribuir intenções humanas a comportamentos animais.
A atenção ao fenômeno cresceu porque, além de raro, ele é relativamente fácil de identificar em campo quando já se sabe o que procurar, já que árvores com cavidades podem concentrar pedras em volume que destoa do entorno, e algumas rochas apresentam marcas compatíveis com impactos repetidos.
O interesse, porém, não se limita à curiosidade científica, porque chimpanzés vivem sob pressão crescente em grande parte de sua distribuição africana, com ameaças associadas à perda e fragmentação de habitat, caça e conflitos em áreas de fronteira entre floresta e ocupação humana.
Quando a floresta perde continuidade, grupos ficam mais expostos a contato com pessoas, enfrentam dificuldade de deslocamento e têm o acesso a alimento e refúgio alterado, o que tende a afetar não só a sobrevivência, mas também a transmissão de comportamentos aprendidos socialmente.
CITES e conservação do chimpanzé diante da perda de habitat
A proteção internacional do chimpanzé é reconhecida pelo enquadramento da espécie em um dos níveis mais restritivos de controle do comércio global de fauna, por meio de sua inclusão no Apêndice I da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção, a CITES.
Na prática, essa listagem submete o comércio internacional a regras rígidas e, de forma geral, impede transações comerciais envolvendo exemplares retirados da natureza, além de fortalecer a base legal para fiscalização, cooperação entre países e combate ao tráfico.
Mesmo com instrumentos internacionais, a conservação depende de medidas locais, como manutenção de áreas protegidas, fiscalização, redução de pressões sobre florestas e atuação em cadeias que alimentam caça e comércio ilegal, já que o principal risco para a espécie segue ligado ao desaparecimento do habitat.
O fenômeno dos “cairns” de pedra, por ser associado a poucas populações e a locais específicos, ganha importância adicional quando se considera que a perda de um fragmento florestal pode significar também a perda de um comportamento raro, registrado justamente por depender de contexto ambiental e social particular.
Em uma espécie que já mostrou capacidade de aprender, adaptar técnicas e manter tradições entre grupos, o acúmulo de pedras em árvores ocas se tornou um dos exemplos mais intrigantes de como um gesto simples pode se transformar em marca duradoura na paisagem da floresta.
Se montes de pedras podem surgir de um hábito repetido por chimpanzés em árvores específicas, quantos outros sinais discretos de comportamento ainda passam despercebidos nas florestas onde eles vivem?
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