Enquanto o Deserto de Gobi ganha projetos de agricultura no deserto com Duzhong, a China produz borracha natural e borracha de grau militar para reduzir a dependência externa.
Enquanto a guerra remodela cadeias globais de suprimentos, a China está transformando o Deserto de Gobi em vitrine de agricultura estratégica para produzir borracha natural de alto valor. Longe das plantações tropicais tradicionais, o país passou a usar a região árida como laboratório para uma cultura pouco conhecida fora da Ásia: o Duzhong, árvore capaz de fornecer borracha de grau militar e reforçar a segurança de abastecimento de um dos maiores consumidores de borracha do mundo.
Por trás da paisagem inóspita do Deserto de Gobi, há uma corrida silenciosa. A China consome mais de 7 milhões de toneladas de borracha natural por ano, e mais de 85% desse volume ainda vem do exterior. Essa vulnerabilidade levou Pequim a apostar no Duzhong como alternativa nativa para abastecer setores automotivo, industrial e de defesa, em um movimento que saiu de um teste arriscado em 14 hectares para um plano de expandir o cultivo a 3,3 milhões de hectares até 2030.
Por que o Deserto de Gobi virou laboratório da borracha estratégica
A decisão de levar o cultivo de Duzhong para o Deserto de Gobi tem menos a ver com romantismo de “fazer o deserto florescer” e mais com estratégia de Estado.
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A China continua sendo o maior consumidor e importador de borracha natural do planeta, impulsionada por uma indústria automotiva gigantesca e por setores industriais intensivos em borracha.
Quando mais de 85% da matéria-prima vem de fora, qualquer choque geopolítico ou logístico vira risco direto para a economia e para a defesa.
É nesse contexto que entra o Duzhong, ou Eucommia ulmoides. Essa árvore resistente é a única fonte nativa de borracha natural da China e representa a segunda maior reserva de borracha do mundo, além de ser valorizada há séculos por sua casca na medicina tradicional chinesa.
Transformar esse ativo em uma cultura de escala industrial, adaptada ao clima árido, significa diminuir a dependência de plantações tropicais no exterior e ganhar uma fonte doméstica de borracha de alto desempenho.
Duzhong: da farmácia tradicional à borracha de grau militar
Por muito tempo, o Duzhong foi visto principalmente como planta medicinal. Sua casca é usada em fórmulas tradicionais, e o cultivo se concentrava no centro e sul da China, especialmente na planície do rio Yangtzé.
A borracha extraída dessa árvore, porém, mostrou ter valor muito maior do que se imaginava. Adicionar apenas 3 a 5% de borracha de Duzhong a um composto comum aumenta significativamente a durabilidade e a resistência ao desgaste, algo essencial para pneus de alto desempenho e resistentes a furos.
Além disso, essa borracha entra em compósitos avançados usados em blindagem eletromagnética e sistemas de defesa de próxima geração.
Em outras palavras, o Duzhong deixou de ser apenas uma árvore de farmácia e virou ingrediente crítico da indústria militar chinesa, justamente em um momento em que o país busca reduzir riscos externos nas suas cadeias estratégicas.
O problema é que, até pouco tempo atrás, a produção era limitada. Os rendimentos eram modestos, e o processo de extração da borracha era trabalhoso e pouco eficiente, o que restringia o papel do Duzhong em cadeias de suprimentos industriais e militares de grande escala.
Foi preciso atacar essa limitação com ciência, genética e engenharia de processos para que a árvore pudesse migrar para o Deserto de Gobi e para projetos de grande porte.
Do piloto de 14 hectares à meta de 3,3 milhões no Deserto de Gobi
A virada começou em 2016, quando uma equipe liderada por Su Yinquan, reitor da faculdade de silvicultura da Northwest A&F University, decidiu arrendar 14 hectares de terra árida no Deserto de Gobi, em Xinjiang.
A pergunta era simples e arriscada ao mesmo tempo: seria possível fazer o Duzhong sobreviver e crescer em uma das paisagens mais severas da China
Era a primeira vez que a árvore medicinal era plantada naquela região. O que inicialmente parecia um experimento de alto risco se transformou em poucos anos em uma floresta densa e produtiva.
O antigo terreno baldio virou um mosaico verde de Duzhong, surpreendendo até os pesquisadores mais otimistas.
O professor Zhu Mingqiang, que acompanha o projeto desde o início, afirmou recentemente que a indústria de Duzhong “está prosperando”.
Hoje, a China já cultiva a árvore em cerca de 300 mil hectares, com planos de expansão para 3,3 milhões de hectares até 2030, incluindo outros 300 mil hectares apenas em Xinjiang.
Isso significa que o Deserto de Gobi está deixando de ser apenas cenário de testes e se consolidando como uma das frentes principais do projeto de borracha estratégica chinesa.
Melhoramento genético: desenhando uma árvore para o deserto
Transformar uma espécie medicinal em cultura confiável para o Deserto de Gobi exigiu muito mais do que “plantar e torcer”.
O primeiro grande desafio foi genético. Para enfrentá-lo, a equipe de pesquisa montou uma base de melhoramento específica no condado de Lueyang, em Shaanxi, onde fica a Northwest A&F University.
Usando indicadores de valor medicinal e de rendimento de borracha, os cientistas selecionaram mais de 50 germoplasmas de elite de Duzhong coletados em diferentes regiões da China.
A partir dessa coleção, desenvolveram um programa sistemático de melhoramento genético, buscando linhagens que combinassem alto teor de borracha com capacidade de suportar solo pobre, baixa água e grandes variações de temperatura.
O resultado foi a criação de linhagens adaptadas a condições áridas e desérticas, capazes de crescer em áreas que historicamente eram consideradas improdutivas.
Na prática, o melhoramento genético transformou o Duzhong em uma espécie “preparada para o deserto”, apta a ocupar e estabilizar partes do Deserto de Gobi, ao mesmo tempo em que gera matéria-prima de alto valor estratégico.
Da casca às folhas: extraindo borracha de cada parte da árvore
Mesmo com uma árvore adaptada ao Deserto de Gobi, a conta só fecharia se a extração de borracha fosse eficiente em toda a planta.
O Plano Nacional de Desenvolvimento da Indústria de Duzhong da China, para o período 2016 a 2030, mostra por quê. A casca do fruto contém entre 15 e 18% de borracha natural, a casca do tronco entre 8 e 10% e as folhas de 2 a 3%.
Isso significa que a viabilidade econômica depende de aproveitar fruto, casca e folhas de forma integrada, não apenas uma parte isolada da árvore.
Em novembro, Zhu anunciou uma inovação crucial: um processo de extração com “prioridade à borracha”, publicado na revista ACS Sustainable Chemistry & Engineering.
O método combina solventes ecológicos de baixo ponto de fusão com tratamento biológico na etapa inicial, separando primeiro a goma e, em seguida, isolando a borracha em etapas específicas.
Segundo os pesquisadores, o novo processo é mais rápido, mais sustentável e reduz significativamente o consumo de energia e de solventes, mantendo ao mesmo tempo altos rendimentos e pureza elevada.
Na prática, isso torna a produção de borracha de Duzhong em larga escala mais plausível, especialmente em plantações extensivas no Deserto de Gobi, onde cada ganho de eficiência conta.
O que está em jogo ao transformar o Deserto de Gobi em polo de borracha
A aposta da China no Duzhong e no Deserto de Gobi não é apenas uma história de inovação agrícola. Ela envolve segurança nacional, reconfiguração de cadeias de suprimentos, uso produtivo de áreas áridas e construção de uma base doméstica para insumos que alimentam tanto a indústria quanto a defesa.
Ao criar uma cadeia integrada que vai do melhoramento genético à extração avançada, Pequim tenta reduzir a dependência de plantações tropicais estrangeiras e construir um colchão estratégico para seu consumo crescente de borracha natural.
Ao mesmo tempo, a expansão para milhões de hectares levanta perguntas sobre impactos ambientais, uso de água, equilíbrio com outros usos da terra e a própria velocidade dessa transformação.
No fim, o Deserto de Gobi deixa de ser apenas um vazio no mapa e passa a simbolizar um novo tipo de fronteira: a do uso de ciência, genética e engenharia para transformar paisagens extremas em plataformas de produção estratégica.
E você, acha que transformar o Deserto de Gobi em polo de borracha Duzhong fortalece a segurança da China sem grandes riscos ambientais ou essa expansão pode cobrar um preço alto no futuro?
Achei ótimo. Parabéns pela iniciativa . Porque se e possível cultivar Árvores para extração de borracha . É possível desenvolver outras plantas para este local árido.