Chuvas extremas atingem a Zona da Mata após frente fria, supercélula e cavado atmosférico. Entenda o que provocou a tragédia em Minas Gerais.
As chuvas extremas que atingiram a Zona da Mata de Minas Gerais no início desta semana provocaram ao menos 30 mortes, dezenas de desaparecidos e um rastro de destruição em cidades como Juiz de Fora e Ubá.
A tragédia foi causada pela combinação de uma frente fria, a formação de uma supercélula e a atuação de um cavado atmosférico, que intensificaram o volume de água em poucas horas.
O fenômeno ocorreu entre segunda e terça-feira, afetando principalmente áreas de encosta, onde houve deslizamentos, soterramentos e alagamentos.
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Em Juiz de Fora, 24 mortes foram confirmadas nas últimas 24 horas, além de 37 pessoas desaparecidas.
Já em Ubá, distante cerca de 100 quilômetros, seis óbitos e dois desaparecimentos foram registrados.
Além disso, centenas de moradores ficaram desalojados após o avanço das águas.
Como a frente fria deu início às chuvas extremas
De acordo com Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Meteorologia, o ponto de partida foi a passagem de uma frente fria pelo Sudeste.
O sistema avançou do litoral paulista, passou pelo Rio de Janeiro e chegou com força à Zona da Mata.
“Nós tivemos a passagem de uma frente fria pelo sudeste do Brasil, que acabou trazendo bastante instabilidade desde o litoral do Estado de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro e também com acumulado significativo, ontem e hoje, na região da Zona da Mata Mineira”, diz Sassaki.
Segundo a especialista, o calor intenso e a alta umidade criaram o ambiente ideal para a formação de nuvens carregadas.
Portanto, a combinação desses fatores favoreceu as chuvas extremas em curto intervalo de tempo.
Em Juiz de Fora, por exemplo, foram registrados 100 milímetros de chuva em menos de 12 horas.
Para efeito de comparação, a média histórica de fevereiro é de 170 milímetros em todo o mês.
Supercélula: a nuvem gigante por trás da tempestade
A intensificação do cenário ocorreu com a formação de uma supercélula, considerada um dos tipos mais severos de tempestade.
Esse sistema se caracteriza por uma corrente de ar ascendente e rotativa, chamada de mesociclone.
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), entre os quatro tipos de tempestades — supercélula, multicélula, unicélula e linha de instabilidade — a supercélula é a menos comum e também a mais intensa.
Ela pode provocar ventos fortes, granizo, tornados, descargas elétricas e enchentes.
“É uma nuvem extensa e de grande extensão territorial”, diz Sassaki.
“Ela atinge uma área muito grande e é muito carregada de água, que provoca uma chuva muito intensa, e em curto tempo, porque é uma nuvem tão pesada que as correntes de ar não conseguem sustentar toda essa água dentro dessa nuvem, o que acaba despejando-as de uma vez em pontos isolados.”
Assim, a formação da supercélula foi determinante para que as chuvas extremas ganhassem força destrutiva em poucas horas.
O papel do cavado atmosférico na intensificação das chuvas extremas
Outro elemento essencial foi o cavado atmosférico, uma área alongada de baixa pressão em níveis médios da atmosfera.
Na prática, esse sistema favorece a subida do ar quente e úmido, alimentando a formação de nuvens.
É como se o ar em altitude estivesse mais “leve”, criando um efeito de sucção que puxa a umidade da superfície para cima. Isso fortalece ainda mais as tempestades.
“Imagina que o cavado é um vento que vai jogar ar úmido da superfície para a atmosfera. Esse movimento vai levando umidade para a nuvem, alimentando essa nuvem e vai trazendo mais condições para que essa nuvem cresça na atmosfera”, diz Sassaki.
“Quanto mais umidade, mais ingrediente ela tem para crescer.
A supercélula nada mais é que uma cumulonimbus de grande extensão, muito intensa, que atinge uma vasta região.”
Portanto, o cavado atmosférico funcionou como combustível para a supercélula, ampliando o impacto das chuvas extremas na Zona da Mata.
Há relação com mudanças climáticas?
Questionada sobre a ligação com o aquecimento global, a meteorologista afirma que o fenômeno é típico do verão brasileiro.
“Esses fenômenos são comuns durante os meses de verão.
Não é possível afirmar que um evento isolado esteja diretamente relacionado às mudanças climáticas, sendo necessários estudos mais aprofundados sobre o tema.”
Ainda assim, especialistas reforçam que eventos intensos exigem monitoramento constante, especialmente em áreas urbanas com ocupação irregular em encostas.
O que esperar nos próximos dias na Zona da Mata
Apesar de o pico das chuvas extremas já ter passado, a previsão ainda indica precipitações na Zona da Mata até sexta-feira (27/2).
O volume, segundo os meteorologistas, não deve repetir a intensidade da tempestade histórica.
“Esses eventos extremos, essas chuvas muito acima da média, acontecem uma vez e demoram um certo tempo para acontecer de novo”, diz a porta-voz da Tempo OK.
“Em geral, não acontecem imediatamente dois eventos extremos numa mesma semana ou um dia depois do outro, mas ainda há previsão de chuva [na região] até a próxima sexta-feira [27/2].”
Mesmo com menor intensidade, o risco permanece.
O solo já está encharcado, o que aumenta a possibilidade de novos deslizamentos, transbordamento de rios e enchentes, inclusive em regiões como Vale do Jequitinhonha, Vale do Rio Doce e a bacia do Muriaé.
“A partir de quinta-feira, essa chuva deve ser um pouco mais intensa e ainda mantendo esse potencial para transtornos nas áreas que já foram atingidas e nessas outras regiões que devem receber uma chuva mais intensa até o final da semana”, diz a especialista.
Enquanto isso, estados do Sudeste, como Espírito Santo, Rio de Janeiro e o litoral norte de São Paulo, também seguem em alerta para volumes elevados de chuva.
Diante do cenário, autoridades reforçam a importância de atenção redobrada, especialmente em áreas de risco, para evitar que novas chuvas extremas ampliem ainda mais os impactos já sentidos na Zona da Mata mineira.
Veja mais em: Juiz de Fora: o que está por trás das chuvas e a previsão do tempo para os próximos dias – BBC News Brasil

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