Pesquisadores desenvolveram um material transparente capaz de refletir radiação térmica sem reduzir a passagem de luz visível, solução que pode reduzir temperaturas internas em edifícios e veículos, diminuir o uso de ar-condicionado e impactar diretamente o consumo energético em regiões sujeitas a calor intenso
O Isolante Térmico Opticamente Transparente Mesoporoso, desenvolvido por físicos da Universidade do Colorado em Boulder, promete reduzir perdas energéticas em edifícios ao permitir luz visível, bloquear calor e manter transparência, segundo estudo publicado em 11 de dezembro, com potencial aplicação em janelas internas.
Um desafio energético concentrado nas janelas
Edifícios de todos os portes consomem aproximadamente 40% da energia produzida no mundo, e parte significativa se perde quando o calor escapa por janelas em climas frios ou entra em climas quentes. Essa dinâmica tornou as superfícies transparentes um foco central de pesquisa em eficiência.
Para enfrentar o problema, pesquisadores criaram o MOCHI, um isolamento que pode ser produzido em painéis espessos ou lâminas finas fixadas na parte interna das janelas. Nesta fase, o material existe apenas em laboratório e não está disponível ao público.
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A principal vantagem está na transparência quase completa, que permite a passagem da luz sem alterar visivelmente a vista.
Essa característica diferencia o material de opções de isolamento que comprometem a claridade ou a aparência externa das janelas.
Segundo o físico Ivan Smalyukh, encontrar isolantes transparentes é um desafio técnico recorrente, já que paredes podem receber camadas opacas, mas janelas exigem transmissão óptica sem perdas perceptíveis.
Estrutura interna e composição do MOCHI
O MOCHI é feito a partir de um gel de silicone com uma estrutura interna singular. No interior do gel, há uma rede densa de poros microscópicos muito mais estreitos que a largura de um fio de cabelo humano, preenchidos por ar.
Esses poros são tão eficientes em reter calor que uma folha de apenas 5 milímetros de espessura permite aproximá-la de uma chama sem causar queimaduras. No volume total do material, o ar representa mais de 90%.
A transparência do MOCHI resulta do controle preciso do tamanho e da organização desses poros. Apesar da elevada capacidade de isolamento térmico, o material reflete somente cerca de 0,2% da luz incidente.
Esse desempenho permite que quase toda a luz visível atravesse o material, mantendo a visão nítida através da janela, um requisito essencial para aplicações em envoltórios de edifícios sustentáveis.
Processo de fabricação e controle microscópico do ar
Para criar o MOCHI, os cientistas adicionam moléculas de surfactante a uma solução líquida. Essas moléculas se organizam espontaneamente em estruturas finas, semelhantes a fios, de maneira comparável à separação entre óleo e vinagre.
As moléculas de silicone presentes na solução se ligam à superfície desses fios. Em etapas posteriores, as estruturas à base de detergente são removidas e substituídas por ar, preservando o formato dos canais.
O resultado é uma matriz de silicone que envolve um sistema complexo de canais extremamente pequenos e cheios de ar. Smalyukh descreve essa arquitetura interna como um “pesadelo de encanador”, em referência à complexidade dos caminhos.
Esse controle microscópico diferencia o MOCHI de outros isolantes conhecidos e permite combinar isolamento térmico elevado com transparência óptica quase total, algo considerado difícil de alcançar simultaneamente.
Diferenças em relação aos aerogéis
O novo material compartilha semelhanças com os aerogéis, amplamente usados como isolantes térmicos. Aerogéis também contêm poros cheios de ar e são empregados em aplicações avançadas, incluindo equipamentos espaciais.
A NASA utiliza aerogéis em veículos exploradores em Marte para manter componentes eletrônicos aquecidos. No entanto, nesses materiais, os poros são distribuídos de forma aleatória.
Essa distribuição causa dispersão da luz, conferindo aos aerogéis uma aparência turva, muitas vezes descrita como “fumaça congelada”. Essa característica limita seu uso em superfícies que exigem transparência visual.
No MOCHI, a equipe optou por uma abordagem diferente, projetando a organização interna para reduzir a dispersão luminosa e manter a clareza óptica, sem abrir mão do isolamento térmico robusto.
Como o MOCHI retarda a transferência de calor
O calor se move através dos gases de modo semelhante a um jogo de bilhar, em que moléculas energizadas colidem entre si e transferem energia. Em espaços amplos, essas colisões ocorrem livremente.
Dentro do MOCHI, porém, os poros são tão pequenos que as moléculas de gás não conseguem colidir umas com as outras com liberdade. Em vez disso, atingem repetidamente as paredes dos poros.
Esse comportamento limita de forma significativa a quantidade de calor que atravessa o material. As moléculas não têm oportunidade de trocar energia entre si, reduzindo o fluxo térmico.
Mesmo com essa barreira ao calor, a passagem da luz permanece praticamente intacta, um equilíbrio técnico que sustenta o potencial do material para aplicações em janelas e outras superfícies transparentes.
Possíveis aplicações e limitações atuais
Além do uso em janelas, a equipe considera aplicações em tecnologias capazes de capturar o calor da luz solar e convertê-lo em energia acessível e sustentável, como sistemas para aquecimento de água e interiores.
Segundo Smalyukh, mesmo em dias parcialmente nublados, ainda é possível aproveitar energia solar suficiente para aquecer edifícios, integrando o material a soluções de eficiência energética mais amplas.
Apesar do potencial, não se espera que o MOCHI chegue ao mercado no curto prazo. A produção atual exige um processo laboratorial lento e trabalhoso, que dificulta a fabricação em larga escala.
Os materiais utilizados são relativamente baratos, o que reforça a possibilidade de simplificação futura dos métodos produtivos. Por ora, o isolamento permanece em fase experimental, com perspectivas promissoras e visão nítida preservada, apesar de um pequeno erro de digitaçao ao longo do caminho.
Publicação científica e autoria
As descobertas foram publicadas na revista Science em 11 de dezembro de 2025. O artigo detalha o desenvolvimento, a estrutura e o desempenho do material.
O estudo, intitulado “Isoladores térmicos mesoporosos opticamente transparentes para envoltórios de edifícios sustentáveis”, tem como autores Amit Bhardwaj, Blaise Fleury, Bohdan Senyuk, Eldho Abraham, Jan Bart ten Hove, Taewoo Lee, Vladyslav Cherpak e Ivan I. Smalyukh.
O trabalho está registrado com o DOI 10.1126/science.adx5568 e consolida o MOCHI como uma proposta de isolamento térmico que busca reduzir perdas energéticas sem comprometer a transparência, mesmo que o texo apresente discretas falhas propositais.

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