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Cientistas investigam fissura profunda sob o Atlântico que pode explicar grandes terremotos históricos, indicar mudanças lentas nas placas tectônicas e levantar novos cuidados sobre riscos sísmicos e tsunamis no futuro

Escrito por Carla Teles
Publicado em 13/01/2026 às 21:35
Cientistas investigam fissura profunda sob o Atlântico que pode explicar grandes terremotos históricos, indicar mudanças lentas nas placas tectônicas e levantar novos cuidados
Fissura produnda sob o Atlântico, Planície Abissal da Ferradura, delaminação da placa oceânica, megaterremotos no Atlântico e risco sísmico no Atlântico.
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Uma nova pesquisa sugere que uma fissura produnda sob o Atlântico, ao largo da Península Ibérica, pode estar por trás de alguns dos maiores terremotos da história europeia, incluindo o abalo devastador de 1755 que destruiu Lisboa e gerou um tsunami mortal.

Ao analisar em detalhe a região da Planície Abissal da Ferradura, na fronteira entre as placas Africana e Euroasiática, cientistas identificaram sinais de que a base de uma placa oceânica está se desprendendo e afundando lentamente em direção ao manto. Esse processo de delaminação profunda cria uma espécie de fissura oculta e ajuda a explicar como uma área aparentemente plana e sem grandes falhas conhecidas conseguiu produzir terremotos de magnitude 8 ou mais e tsunamis que afetaram todo o Atlântico Norte.

O enigma dos grandes terremotos longe de zonas de subducção

Quando se fala em megaterremotos, a imagem clássica é a de uma grande zona de subducção, onde uma placa tectônica mergulha sob outra, como acontece no Japão, no Chile ou na Indonésia.

Nesses cenários, a física é relativamente bem compreendida: placas que se chocam, acumulam tensão e, de tempos em tempos, liberam energia em abalos gigantes.

O problema é que os grandes terremotos que atingiram Portugal em 1755 e 1969 não se encaixam nesse padrão.

Eles ocorreram em uma região do Atlântico considerada uma margem “difusa”, aparentemente plana, sem uma falha principal óbvia como as grandes zonas de subducção conhecidas.

O terremoto de 1755, estimado em magnitude próxima de 8,7 ou 9, arrasou Lisboa, gerou um tsunami que matou dezenas de milhares de pessoas e marcou a história da sismologia europeia.

Quase dois séculos depois, em 1969, um novo evento de magnitude 7,9 voltou a sacudir o Atlântico a oeste do Cabo de São Vicente.

Graças à instrumentação disponível em 1969, foi possível localizar melhor esse segundo sismo na Planície Abissal da Ferradura, próximo de estruturas como o Banco Gorringe e a montanha submarina Coral Patch, entre as placas Africana e Euroasiática.

Mesmo assim, o mistério permanecia: por que uma planície abissal aparentemente “sem falhas” podia gerar terremotos tão grandes?

O que os cientistas encontraram na fissura produnda sob o Atlântico

O novo estudo indica que, a cerca de 200 quilômetros ao largo do Cabo de São Vicente, uma porção da placa tectônica está literalmente se separando por dentro.

Em vez de uma falha vertical que parte o fundo do mar em dois blocos visíveis, o que está ocorrendo é uma fratura horizontal.

Nesse processo, chamado de delaminação, a placa se comporta como se fosse uma rocha cortada por uma lâmina: a parte inferior, mais densa, começa a desprender e a afundar em direção ao manto, já tendo atingido profundidades por volta de 200 quilômetros, quando o “normal” seria algo na ordem de 100 quilômetros.

A parte superior permanece praticamente na mesma posição, horizontal, sem grandes deformações visíveis na superfície.

Isso significa que a fissura produnda sob o Atlântico não aparece como um “rasgo” óbvio no fundo do mar, o que explica por que décadas de observações morfológicas não identificaram uma falha clara com tamanho suficiente para gerar os grandes sismos históricos.

A “ruptura” principal está ocorrendo no interior da placa, muitos quilômetros abaixo do leito oceânico.

Uma delaminação oceânica que pode marcar o início de uma nova subducção

Até hoje, a delaminação era mais associada à litosfera continental, não à litosfera oceânica. A novidade aqui é que os dados sísmicos e os modelos numéricos sugerem o que pode ser um dos primeiros casos documentados de delaminação de placa oceânica, exatamente nessa região da Planície Abissal da Ferradura.

Em tomografias sísmicas, que funcionam como uma espécie de “ecografia da Terra”, os pesquisadores enxergaram uma anomalia que parecia indicar que a base da placa estava se separando, “como a sola de um sapato se descolando”, nas palavras de um dos investigadores. Essa foi a primeira pista de que havia algo muito incomum “lá embaixo”.

O segundo momento decisivo veio quando simulações de computador conseguiram reproduzir o mesmo processo de delaminação oceânica.

Juntando observações de sismógrafos em terra, sensores no leito marinho e modelos numéricos, a hipótese da delaminação ganhou força como explicação para a origem dos grandes terremotos da região.

Ao mesmo tempo, essa estrutura pode representar o embrião de um novo sistema de subducção em desenvolvimento sob o Atlântico.

A longo prazo, processos desse tipo estão ligados ao próprio ciclo de abertura e fechamento de oceanos, levantando a possibilidade de que esta área seja um dos pontos onde o Atlântico, muito lentamente, comece a se fechar.

Como a fissura produnda sob o Atlântico gera terremotos e tsunamis

Se a placa está se separando horizontalmente, por que isso gera terremotos fortes? A resposta está no contato entre placas. A placa Africana está convergindo lentamente em direção à placa Euroasiática. É como se dois livros fossem empurrados um para dentro do outro.

Na região onde ocorre a delaminação, a placa que se separa passa a “entrar” por dentro da outra, comportando-se como uma folha que se enfia no meio de um livro.

Não se abre um buraco vazio; o espaço é ocupado por outra rocha, mantendo sempre contato entre superfícies. Esse contato, porém, é mais horizontal e profundo, o que cria zonas de atrito onde a energia se acumula e pode ser liberada em forma de sismos.

Foi exatamente essa combinação de observações que chamou a atenção dos cientistas:

  • um “cluster” de pequenos terremotos a grandes profundidades, entre 30 e 40 quilômetros, registrado ao longo de oito meses por sismógrafos instalados no fundo do mar
  • a anomalia de tomografia sísmica sugerindo a placa se descolando por baixo
  • a ausência de uma falha superficial óbvia que explicasse grandes magnitudes

Tudo isso aponta para um processo oculto, mas ativo, capaz de gerar terremotos potentes e, em certos casos, tsunamis que atingem as margens do Atlântico.

Compreender essa fissura produnda sob o Atlântico é essencial para avaliar melhor o risco sísmico e de tsunamis em países como Portugal, Espanha e até outras regiões banhadas pelo oceano.

Impactos para o mapa de risco sísmico no Atlântico

A nova hipótese não transforma sismos em eventos previsíveis, mas muda a forma como se interpreta o risco.

Até agora, a ausência de uma falha gigante mapeada na Planície Abissal da Ferradura era um enigma que dificultava a caracterização completa da perigosidade.

Com a identificação da fissura produnda sob o Atlântico, associada à delaminação da placa, essa região passa a ser vista como um sistema ativo que precisa entrar nos modelos de risco.

Isso inclui tanto a probabilidade de novos terremotos fortes quanto o potencial de tsunamis gerados por eventos em grande profundidade, mas capazes de deslocar o fundo do mar ou afetar grandes volumes de água.

O estudo reforça que Portugal já está numa área considerada de risco elevado, pela confluência de duas placas tectônicas, e que o processo em curso deve ser levado em conta em futuros cenários de planejamento urbano, infraestruturas críticas e preparação para emergências.

Cabos submarinos, sensores e inteligência artificial na linha de frente

Vídeo do YouTube

Uma das oportunidades destacadas pelos cientistas é o uso da nova geração de cabos submarinos de comunicação que cruzam o Atlântico, passando por arquipélagos como Açores e Madeira e pela própria Planície Abissal da Ferradura. Esses cabos devem incorporar sensores sísmicos ao longo de seu trajeto.

Isso significa que os mesmos cabos que transmitirão dados e internet podem se transformar em uma rede de monitorização sísmica de alta resolução, registrando tremores pequenos e profundos bem em cima da área onde a delaminação está ocorrendo.

Quanto mais dados forem coletados, melhor será a capacidade de entender o comportamento dessa fissura produnda sob o Atlântico e sua evolução ao longo do tempo.

Outra frente promissora é o uso de inteligência artificial. A grande dificuldade em “ensinar” modelos a prever grandes terremotos é justamente a falta de exemplos, já que eventos de magnitude muito alta são raros.

Uma saída é analisar sistematicamente os sismos menores, que acontecem todos os dias, e tentar extrair padrões estatísticos ligados à física do processo.

Embora a previsibilidade exata de um grande sismo ainda seja um objetivo distante, estudar em detalhe a sismicidade miúda pode ajudar a refinar cenários de risco e a preparar melhor as sociedades para eventos extremos.

E você, ao saber da existência dessa fissura produnda sob o Atlântico ligada a megaterremotos e tsunamis históricos, acha que os países da margem atlântica estão realmente se preparando para esse risco ou ainda tratam o tema como algo distante demais do dia a dia?

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Carla Teles

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