1. Inicio
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Cientistas utilizam raios X de um acelerador de partículas para ler mapa estelar de Hiparco, escondido há 1.500 anos em um pergaminho. Entenda como a física está resgatando o nascimento da ciência
Tiempo de lectura 3 min de lectura Comentarios 0 comentarios

Cientistas utilizam raios X de um acelerador de partículas para ler mapa estelar de Hiparco, escondido há 1.500 anos em um pergaminho. Entenda como a física está resgatando o nascimento da ciência

Escrito por Noel Budeguer
Publicado el 03/02/2026 a las 20:57
Actualizado el 03/02/2026 a las 21:05
Cientistas utilizam raios X de um acelerador de partículas para ler mapa estelar de Hiparco, escondido há 1.500 anos em um pergaminho. Entenda como a física está resgatando o nascimento da ciência
Cientistas revelam catálogo estelar grego dos primórdios da astronomia
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Cientistas revelam catálogo estelar grego dos primórdios da astronomia

No coração do Laboratório Nacional de Aceleradores SLAC, na Califórnia, o passado e o futuro colidiram de forma espetacular. O que parecia ser apenas um antigo manuscrito religioso de pele de animal revelou-se, sob o bombardeio de raios X de alta potência, como um dos tesouros mais valiosos da astronomia antiga: o catálogo estelar perdido de Hiparco de Niceia, datado de aproximadamente 150 a.C.

Como um acelerador atômico revelou um mapa estelar perdido há 1.500 anos

O documento em questão é o Codex Climaci Rescriptus, um palimpsesto. Na Idade Média, o pergaminho era um material caro, escasso e acessível somente a poucos. Por isso, era comum que monges raspassem textos antigos para reutilizar a pele de cabra ou ovelha. Neste caso, um tratado monástico do século IX ou X foi escrito por cima de um poema grego e de coordenadas astronômicas que ninguém via há quase um milênio e meio.

A equipe, liderada pelos físicos Minhal Gardezi e Uwe Bergmann, da Universidade de Wisconsin-Madison, utilizou a infraestrutura do SLAC para «olhar através» da camada superficial. O resultado foi a visualização de rabiscos laranja brilhantes em telas de computador, letras gregas que formam um apêndice ao poema «Fenômenos», de Arato de Soli.

A Ciência por trás dos Raios X

Como é possível ler algo que foi raspado? A resposta está na química básica. Mesmo que a tinta tenha sido removida da superfície, assim como seus resíduos minerais, como o cálcio e o ferro, penetraram profundamente nas fibras do pergaminho.

Os pesquisadores projetaram raios X focados, que podem ser um milhão de vezes mais intensos do que os usados em consultórios dentários. Essa radiação excita os átomos dos metais presentes na tinta antiga, fazendo-os emitir uma luz infravermelha (fluorescência). Ao mapear essa resposta química, os cientistas conseguem reconstruir o texto original com precisão milimétrica, sem danificar o frágil couro milenar.

Hiparco: O Pai da Astronomia Moderna

A descoberta é monumental porque quase nada restou das obras originais de Hiparco. Ele é creditado como o inventor da trigonometria e o primeiro a criar um catálogo sistemático das estrelas.

As coordenadas encontradas no manuscrito mostram uma precisão impressionante para a época. Mais do que isso, elas ajudaram a resolver uma polêmica histórica: teria Ptolomeu, o famoso astrônomo romano-egípcio, plagiado Hiparco? A análise dos dados revelou que Ptolomeu usou o trabalho de Hiparco como base, mas o expandiu. Como define Victor Gysembergh, historiador do CNRS: «Isso não é plágio, é ciência: a construção progressiva do conhecimento».

O que ainda está por vir?

O uso de aceleradores de partículas para ler documentos antigos está apenas começando. Em experimentos anteriores, a mesma tecnologia revelou que Arquimedes já flertava com conceitos de cálculo quase dois mil anos antes de Isaac Newton.

Agora, a equipe planeja digitalizar o restante do códice e aplicar algoritmos de inteligência artificial para limpar o «ruído» das imagens e extrair cada dado estelar possível. Para a ciência de 2026, esses rabiscos laranja não são apenas poesia; são o DNA do pensamento científico ocidental.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Feedbacks
Visualizar todos comentários
Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

Compartir en aplicaciones
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x