A crise hídrica que atinge Teerã avança rapidamente após a pior seca em quase 60 anos, deixando reservatórios com menos de 8% da capacidade, impondo racionamento severo e levantando pela primeira vez a possibilidade real de evacuar uma capital inteira
Teerã, uma megacidade com aproximadamente 10 milhões de habitantes, está à beira do que especialistas classificam como um colapso hídrico sem precedentes. Depois de enfrentar o outono mais seco e quente em quase 60 anos, a capital iraniana já vive racionamentos diários, conhecidos como “cortes de pressão noturnos”, realizados entre a meia-noite e 5h da manhã. Sem chuvas desde o início de setembro — e sem previsão de precipitação para as próximas semanas — o cenário avança rapidamente para o temido Dia Zero, momento em que as torneiras param completamente de fornecer água.
A informação foi divulgada pelo site Vox, que detalha o agravamento progressivo da crise. Teerã depende de cinco grandes reservatórios, mas um deles já secou por completo, enquanto outro opera com menos de 8% da capacidade. Para agravar o quadro, a represa de Karaj, uma das mais importantes para o abastecimento urbano, teria apenas duas semanas de água potável disponível. E o problema não se restringe à capital: Mashhad, segunda maior cidade do Irã, viu suas reservas caírem para abaixo de 3%, colocando 4 milhões de pessoas sob risco imediato.
Causas profundas: isolamento, má gestão e a pior seca em décadas
Embora a seca histórica ajude a explicar parte da crise, os especialistas apontam causas mais profundas. O Irã vive uma combinação explosiva de isolamento geopolítico, sanções econômicas e decisões hídricas consideradas equivocadas ao longo de décadas. Conforme dados citados no artigo original, a dependência de megaprojetos — como perfurações profundas, barragens em massa e esquemas de transferência de água — criou uma falsa sensação de segurança hídrica, ignorando princípios básicos de hidrologia e equilíbrio ecológico.
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O analista de recursos hídricos Nik Kowsar descreveu o fenômeno como uma “falência hídrica”, impulsionada por uma espécie de “máfia da água” que, segundo ele, usa projetos multimilionários para ganhos próprios. Em suas palavras, publicadas na Time, “a demanda ultrapassa amplamente a oferta, e o colapso da segurança hídrica no Irã vem sendo construído há décadas”.
Outro ponto crítico é o setor agrícola, responsável por cerca de 90% de toda a água consumida no país. Culturas altamente sedentas, irrigação deficiente e o objetivo de autossuficiência alimentar driblam qualquer possibilidade de equilíbrio sustentável. Além disso, mais de 82% do território iraniano é classificado como árido ou semiárido, tornando o país o sexto mais vulnerável a desastres naturais.
Impactos sociais, desigualdade e riscos de colapso urbano
Enquanto a crise se agrava, as diferenças sociais tornam-se ainda mais visíveis. Em caso de interrupção total do fornecimento, moradores mais ricos podem recorrer à compra de água mineral ou contratar caminhões-pipa — um serviço extremamente caro e inacessível à maioria. Para grande parte da população, a única alternativa seria depender de caridade ou enfrentar riscos de morte por desidratação.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declarou recentemente que Teerã “pode deixar de ter condições de funcionar como capital caso as chuvas não retornem”. Ele alertou que, se não chover até o fim de novembro, o racionamento oficial seria implementado e, na ausência de precipitação adicional, a evacuação da cidade poderia ser discutida formalmente.
Especialistas, no entanto, afirmam que uma evacuação completa seria praticamente impossível, não apenas pela dimensão da cidade, mas pela concentração de empregos, serviços, infraestrutura e órgãos governamentais. O ex-prefeito de Teerã, Gholamhossein Karbaschi, chamou a ideia de “piada”, argumentando que não existe alternativa viável para deslocar 10 milhões de pessoas.
Lições para o futuro: cidades do mundo podem repetir o drama iraniano
Apesar da gravidade local, a crise hídrica do Irã não é um caso isolado. Cidades como São Paulo, no Brasil, e Cape Town, na África do Sul, já chegaram muito próximas do Dia Zero, escapando apenas graças a chuvas inesperadas. Entretanto, Teerã não tem a mesma sorte no horizonte climático.
De acordo com David Michel, especialista em segurança hídrica do Center for Strategic and International Studies, medidas como “caminhões, racionamento e oração” são insuficientes. Ele defende que cidades em situação semelhante implementem modelos econômicos que financiem manutenção de sistemas, expansão de redes e uso mais eficiente da água. Tarifas volumétricas, que cobram mais de quem consome mais, são exemplos de políticas que poderiam reduzir a pressão sobre os mais pobres.
Enquanto isso, regiões áridas dos Estados Unidos — como Califórnia e o sudoeste do país — observam com atenção o que acontece no Irã. Especialistas afirmam que crises semelhantes podem atingir outras megacidades num futuro próximo, caso a mudança climática continue acelerando e a gestão hídrica permaneça inadequada.
O alerta está dado. E, como prevê o historiador Arash Azizi, o impacto psicológico de ouvir que uma capital inteira pode precisar ser evacuada “pode ser o futuro de qualquer lugar do mundo”.
Enquanto isso, países inteiros acompanham com preocupação o avanço da crise iraniana. Regiões áridas dos Estados Unidos e megacidades latino-americanas — incluindo capitais brasileiras que já sofreram com estiagens severas, como São Paulo e Brasília — também enfrentam pressões crescentes sobre seus sistemas de abastecimento. Especialistas alertam que, se a mudança climática continuar acelerando e a gestão hídrica permanecer defasada, o cenário que hoje ameaça Teerã pode se repetir em outras partes do mundo. Diante desse alerta global, fica a questão inevitável: será que o Brasil está realmente preparado para evitar o seu próprio “Dia Zero”?
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