Montanha de sal El Cogulló: a pilha de resíduos de potassa que já supera a montanha natural em Sallent e saliniza o Rio Llobregat há mais de um século
Na região de Sallent, na Catalunha, no nordeste da Espanha, existe uma estrutura industrial que alterou permanentemente a paisagem do vale do Rio Llobregat. Não se trata de uma barragem, de uma mina ou de um depósito subterrâneo. É uma montanha de resíduos minerais acumulados ao longo de mais de um século de mineração de potassa. A pilha é conhecida como El Cogulló, embora também seja chamada popularmente de Montsalat, a “Montanha de Sal”.
Vista à distância, a estrutura parece um maciço branco que se eleva sobre a paisagem da região de Bages. O material que compõe essa montanha artificial é uma mistura de cloreto de sódio e outros sais residuais, resultado direto do processo de extração de potassa utilizado na produção de fertilizantes agrícolas. Com o passar das décadas, o volume acumulado tornou-se tão grande que a pilha de resíduos já ultrapassou em altura o monte natural El Cogulló, de 474 metros acima do nível do mar, que originalmente deu nome ao local.
Hoje, essa acumulação de rejeitos é considerada a maior pilha visível de resíduos salinos da Europa, um exemplo extremo de como a mineração industrial pode transformar paisagens inteiras e gerar impactos ambientais persistentes por gerações.
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Mina de potassa de Sallent impulsiona a agricultura europeia desde o início do século XX
A origem dessa montanha artificial está diretamente ligada à mineração de potassa, um composto rico em potássio utilizado principalmente na produção de fertilizantes. A descoberta de depósitos de sais potássicos na região de Bages ocorreu em 1912, e poucos anos depois começaram as primeiras explorações industriais.
O potássio é um dos três nutrientes essenciais para o crescimento das plantas, junto com o nitrogênio e o fósforo. Por isso, a mineração de potassa tornou-se uma atividade estratégica para a agricultura moderna. A produção da região catalã ajudou a abastecer a agricultura europeia ao longo de grande parte do século XX.

O processo de extração envolve a retirada de rochas ricas em sais potássicos do subsolo e o seu processamento para separar o mineral comercialmente útil. O problema é que o minério contém uma grande quantidade de material que não pode ser utilizado. A maior parte dessa massa residual é composta por sal comum e outros sais dissolvidos, que permanecem depois da extração da potassa.
Para cada tonelada de potassa extraída, vários toneladas de resíduos salinos são geradas. Como esses materiais não possuem valor comercial significativo e não podem ser descartados diretamente no ambiente, a solução adotada historicamente foi acumulá-los em grandes pilhas ao lado das minas.
Foi assim que nasceu a pilha de resíduos El Cogulló.
Como a pilha El Cogulló se transformou na maior acumulação visível de sal da Europa
Com o avanço da mineração ao longo das décadas, a quantidade de rejeitos produzida cresceu continuamente. O material era transportado para uma área ao lado da mina e depositado em camadas sucessivas. Ano após ano, essa pilha foi aumentando de volume até transformar completamente o relevo da região.
Atualmente, estima-se que a pilha contenha dezenas de milhões de toneladas de resíduos salinos acumulados desde o início da exploração industrial. A área ocupada pelo depósito se estende por dezenas de hectares, criando uma paisagem artificial que domina visualmente o vale.

O material depositado tem coloração clara, principalmente branca ou acinzentada, devido à alta concentração de sal. Isso dá à estrutura uma aparência semelhante à de uma montanha coberta de neve, embora se trate apenas de resíduos minerais expostos.
Por causa dessa aparência peculiar, moradores da região passaram a chamar o local de Montsalat, a Montanha de Sal.
Além do apelido popular, a pilha também recebeu um nome político durante um período turbulento da história espanhola. Durante a redemocratização do país, após o fim da ditadura franquista, trabalhadores em greve lançaram material para fora do perímetro da empresa. O episódio levou ao surgimento do apelido “Runam da Democracia”, uma referência à disputa social em torno da atividade mineradora.
O problema ambiental: como o sal escorre para o Rio Llobregat
O principal impacto ambiental da pilha El Cogulló não está apenas no tamanho da estrutura, mas no que acontece quando chove sobre ela. A água da chuva dissolve parte do sal presente nos resíduos e cria um líquido altamente salino chamado lixiviado.
Esse líquido escorre pela pilha e infiltra-se no solo ou alcança cursos d’água próximos. Ao longo das décadas, esse processo contribuiu para aumentar significativamente a salinidade do Rio Llobregat, um dos rios mais importantes da Catalunha.
O Llobregat nasce nos Pirenéus e atravessa diversas cidades antes de chegar ao Mediterrâneo, sendo uma fonte importante de abastecimento de água para parte da região metropolitana de Barcelona. O aumento da salinidade do rio exige processos de tratamento mais complexos e caros para tornar a água adequada ao consumo humano.
Estudos científicos realizados ao longo das últimas décadas apontaram que o rio apresenta níveis de sal superiores aos encontrados em cursos d’água comparáveis na Europa Ocidental. Por causa disso, o Llobregat chegou a ser descrito por pesquisadores como um dos rios mais salinizados da Europa Ocidental.
Décadas de multas e disputas legais sobre a pilha de resíduos
A contaminação associada à mineração de potassa na região de Bages é objeto de controvérsia há muitos anos. Comunidades locais, organizações ambientais e autoridades públicas discutem o impacto da atividade mineradora no rio e nos ecossistemas da região desde o início do século XX.
Ao longo do tempo, empresas responsáveis pela exploração da mina enfrentaram processos judiciais e multas ambientais relacionadas à poluição causada pelos rejeitos salinos. Apesar dessas penalidades, a pilha El Cogulló continuou crescendo.
Parte do problema está na própria natureza da mineração de potassa. Como a produção gera grandes volumes de resíduos salinos e as alternativas de reaproveitamento são limitadas, a solução mais comum tem sido continuar acumulando o material em depósitos controlados.
Diversas propostas de mitigação foram discutidas ao longo das décadas, incluindo sistemas de coleta de salmoura e melhorias no armazenamento dos resíduos. Ainda assim, a presença da montanha de sal e seu impacto sobre o Rio Llobregat continuam sendo temas de debate ambiental na Catalunha.
Uma paisagem industrial que revela o custo oculto dos fertilizantes
A pilha El Cogulló é um exemplo visível de um fenômeno global pouco discutido: o enorme volume de resíduos gerados pela mineração de minerais utilizados na agricultura moderna.
A produção de fertilizantes depende de elementos como potássio, fósforo e nitrogênio, que precisam ser extraídos, processados e transportados em escala industrial. Embora esses produtos sejam fundamentais para a produtividade agrícola, sua produção frequentemente gera passivos ambientais significativos.
No caso de Sallent, esse passivo assumiu a forma de uma montanha artificial de sal que domina a paisagem da região e influencia a qualidade da água de um dos principais rios da Catalunha.
Mais de um século após o início da mineração, a pilha de resíduos continua crescendo lentamente, camada após camada. O contraste entre a montanha natural El Cogulló e sua contraparte artificial ilustra como atividades industriais podem remodelar a geografia de uma região inteira.
Enquanto isso, o Rio Llobregat continua correndo ao pé dessa montanha branca, carregando consigo parte do sal dissolvido que escapa do maior depósito de resíduos de potassa visível da Europa.

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