Com cerca de 42 milhões de habitantes, Jacarta assume a maior cidade do mundo enquanto metade da área já está abaixo do nível do mar, afunda até 25 centímetros por ano e aposta em obras bilionárias e nova capital para tentar sobreviver em meio a riscos ambientais crescentes e desigualdade
Até que ponto uma cidade pode crescer sem literalmente perder o chão? Jacarta acaba de ser reconhecida como a maior cidade do mundo, com 41,9 milhões de habitantes na sua área metropolitana, segundo relatório divulgado pela ONU. A capital da Indonésia ultrapassou Tóquio e assumiu o topo do ranking global das megacidades.
O feito demográfico, porém, vem acompanhado de uma conta pesada. Construída em terreno pantanoso, cortada por 13 rios e com quase metade de sua área já abaixo do nível do mar, Jacarta vive o paradoxo de ser a maior cidade do mundo e, ao mesmo tempo, uma metrópole que afunda em ritmo acelerado, cercada pelo risco concreto de ter bairros inteiros engolidos pela água nas próximas décadas.
Da metrópole em expansão à maior cidade do mundo

Jacarta não chegou ao posto de maior cidade do mundo por acaso. O crescimento populacional foi constante e agressivo nas últimas décadas, impulsionado pela urbanização rápida, concentração econômica e migração interna em massa dentro da Indonésia.
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O novo ranking da ONU mostra a cidade à frente de outras megacidades globais. Daca aparece em segundo lugar, com 36,6 milhões de habitantes, seguida por Tóquio, com 33,4 milhões, Nova Délhi, com 30,2 milhões, e Xangai, com 29,6 milhões.
São Paulo, que já esteve entre as primeiras posições, hoje figura em 13º lugar, com 18,9 milhões de moradores em sua região metropolitana.
No coração da metrópole está a província de DKI Jacarta, região central altamente adensada, que concentra mais de 11 milhões de pessoas em uma área compacta.
É ali que se vê com mais clareza o choque entre verticalização, trânsito intenso, enchentes recorrentes e infraestrutura que nem sempre acompanha a velocidade da expansão urbana.
Metade abaixo do nível do mar e solo cedendo até 25 cm por ano
O título de maior cidade do mundo vem com um asterisco nada glamouroso: Jacarta está afundando. Construída sobre solo macio, alagadiço e recortado por rios, a cidade vive um processo de subsidência acelerada, combinado com o aumento do nível do mar e o peso de milhões de pessoas e construções concentradas na mesma faixa de terra.
Segundo dados citados pela própria imprensa local, a zona norte de Jacarta afundou cerca de 2,5 metros na última década.
Em alguns trechos, o chão cede até 25 centímetros por ano, ritmo mais que o dobro da média observada em outras megacidades costeiras. Especialistas alertam que, se nada for feito, bairros inteiros podem ficar permanentemente inundados.
O pesquisador Heri Andreas, do Instituto de Tecnologia de Bandung, faz um alerta duro: se a trajetória atual continuar, cerca de 95% da zona norte da cidade poderá estar debaixo d’água até 2050.
É um cenário que transforma o problema de infraestrutura em questão de sobrevivência urbana.
Além do afundamento, o uso intenso de água subterrânea agrava a situação. Com a rede de abastecimento público nem sempre chegando a toda a população, muitos moradores e empresas recorrem a poços artesianos, o que esvazia aquíferos e acelera ainda mais o desabamento do solo.
Em uma cidade em que quase metade da área já está abaixo do nível do mar, qualquer centímetro que o chão desce faz diferença.
Construção sem freio em área que afunda
Mesmo com todos os alertas, o mercado imobiliário de Jacarta está longe de puxar o freio de mão. Novos prédios residenciais e apartamentos de luxo continuam subindo, especialmente na zona norte, justamente a parte da cidade que afunda mais rápido.
Eddy Ganefo, da Associação de Desenvolvimento Habitacional da Indonésia, reconhece o dilema: “enquanto houver demanda, o desenvolvimento seguirá”.
Ao mesmo tempo, o setor pede maior controle do governo, tentando equilibrar as oportunidades de negócio com o risco de investir pesado em áreas que podem enfrentar alagamentos crônicos no futuro.
Na prática, isso significa que a maior cidade do mundo segue crescendo em cima de um terreno que cede ano após ano.
Entre a visão de curto prazo dos empreendimentos e as projeções de longo prazo dos cientistas, a cidade caminha em uma linha bem fina entre expansão e colapso.
Muro marítimo de 40 bilhões de dólares e reservatórios contra o colapso
Para tentar segurar a água do mar e frear o afundamento, o governo da Indonésia colocou na mesa uma solução tão ambiciosa quanto polêmica: um gigantesco muro marítimo em Jacarta, projeto estimado em cerca de 40 bilhões de dólares.
A ideia é criar uma barreira física entre a cidade e o mar, com conclusão parcial prevista para 2030 e final para 2050. O plano inclui também a construção de reservatórios, com o objetivo de reduzir a dependência da água subterrânea e aliviar a pressão sobre o solo.
Ambientalistas, porém, levantam uma série de críticas. Há preocupação com o impacto no ecossistema marinho, alterações nas correntes, aumento do risco de poluição nas águas represadas e efeitos nas comunidades costeiras mais vulneráveis.
Em outras palavras, o muro pode segurar a água, mas também concentrar problemas ambientais em um novo formato.
Enquanto isso, a cidade tenta conciliar o título de maior cidade do mundo com enchentes recorrentes, trânsito caótico e uma população que ainda depende de soluções improvisadas para lidar com alagamentos e águas contaminadas em vários bairros.
Mudança da capital para Nusantara e pressão sobre a floresta
Além das obras em Jacarta, o governo indonésio tomou uma decisão histórica: transferir a capital política do país para Nusantara, uma cidade planejada em outra região do arquipélago.
O projeto, orçado em cerca de 35 bilhões de dólares, prevê a conclusão gradual até 2045.
A narrativa oficial é clara: aliviar a pressão sobre Jacarta, hoje a maior cidade do mundo, e criar uma nova capital mais sustentável, menos vulnerável a enchentes e com infraestrutura planejada desde o início.
Mas, na prática, o plano de Nusantara vem cercado de críticas. Especialistas e organizações ambientais alertam para o risco de desmatamento, impacto sobre espécies já ameaçadas e pressão direta sobre comunidades indígenas que vivem há gerações na região escolhida para a nova capital.
Assim, a Indonésia tenta resolver um problema urbano gigante com uma solução que pode abrir outra frente de conflito: salvar uma cidade afundando sem sacrificar ainda mais sua floresta.
Turismo, cultura vibrante e uma cidade em risco
Apesar de todos os desafios, Jacarta e a Indonésia seguem atraindo turistas do mundo inteiro. A cidade oferece uma mistura intensa de mercados populares, centros comerciais gigantescos, culinária marcante e uma vida urbana vibrante, que convive com templos, bairros tradicionais e uma história complexa de colonização e independência.
Para muitos visitantes, a Indonésia é sinônimo de ilhas paradisíacas, praias e vulcões, mas a capital mostra outra faceta do país: uma megacidade lotada, desigual, barulhenta e fascinante, que agora carrega também a marca de ser a maior cidade do mundo sob ameaça direta de afundar.
No fim das contas, Jacarta virou um símbolo dos dilemas do século 21: crescimento rápido, crise climática, ocupação desordenada, soluções bilionárias e pressão ambiental.
A pergunta que fica no ar é simples e incômoda: como manter viva a maior cidade do mundo sobre um chão que não para de descer?
E você, se pudesse escolher, encararia morar na maior cidade do mundo mesmo sabendo que ela está literalmente afundando ano após ano?
Eu não moraria em um lugar que está afundando. Eu gosto de terra firme