Com 58 vacas, 860 litros e muita tradição da família, jovem pecuarista levanta fazenda própria, vence perdas no curral e transforma rotina de leite em projeto de futuro no interior mineiro
Em apenas um ano à frente da própria fazenda, Istella transforma 58 vacas em 860 litros diários, mantém viva a tradição da família, atravessa crise no preço do leite, supera perdas no rebanho e prova que manejo, disciplina e fé sustentam a pecuária, mesmo em plena instabilidade econômica no campo.
Ela cresceu ouvindo que tudo o que a casa tinha vinha do leite. Hoje, com o marido e o filho dentro do curral, assume o comando da fazenda São Sebastião, encara madrugadas diárias, cobra de si mesma resultados e mostra na prática que tradição da família, técnica e coragem podem levantar uma pecuária praticamente do zero.
Da infância no curral à fazenda em seu próprio nome

Filha de pecuaristas de leite, Istella foi criada na fazenda dos pais, no Triângulo Mineiro, aprendendo desde cedo que a renda da casa nascia dentro da ordenha.
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O pai tirou leite na mão, montou a primeira sala mecanizada e fez questão de envolver as duas filhas em cada etapa do trabalho.
Assim, a tradição do leite passou de bisavós para avós, dos avós para os pais e dos pais para as duas irmãs.
Na vida adulta, ela ainda tentou o caminho da cidade grande. Ingressou em veterinária em Uberlândia, fez cursos de gestão de fazenda e sucessão familiar, trabalhou fora, chegou a atuar em cooperativa.
Mas a rotina urbana não se encaixou.
Ao perceber que seu lugar era no campo, voltou para perto dos pais, com a convicção de que queria ser a nova guardiã da tradição da família dentro da pecuária leiteira.
Um ano no comando: 58 vacas, 860 litros e rotina sem folga

Há cerca de um ano, em 10 de março, Istella e o marido assumiram sozinhos a frente da pecuária leiteira na propriedade.
São 58 vacas em lactação, com média de aproximadamente 860 litros de leite por dia, em um sistema que exige presença constante.
O despertador toca às 5h, todos os dias, inclusive domingos e feriados. Entre café rápido, despertar do filho e deslocamento até o curral, a ordenha começa por volta das 5h30.
O filho, José Vítor, acompanha a rotina.
Em dias de aula, sai de van para a escola na cidade. Nos demais dias, dorme no carro até o início do trabalho, ajuda a colocar sal nos cochos e circula entre as vacas com naturalidade.
A imagem da criança no curral, repetindo gestos que viu dos avós, simboliza a força da tradição da família aplicada a uma nova geração de produtores, agora sob a liderança de uma jovem pecuarista.
Manejo de curral, ração e água limpa para segurar a produção
Dentro da ordenha, cada lote recebe ração formulada por zootecnista, com 3 quilos pela manhã, 3 quilos à tarde, polpa adicional e sal proteinado em cada coxo.
Istella e o marido umedecem a mistura, formando um “sopão” que facilita o consumo e reduz desperdício.
Nada é improvisado: a dieta é calculada para que vacas de diferentes produções não ultrapassem o limite que o bezerro consegue consumir nem sofram queda brusca de leite.
O controle sanitário inclui o teste da caneca em todas as vacas, duas vezes por dia. A cada ordenha, os primeiros jatos vão para o teste visual, identificando grumos, alterações de textura ou sinais de mastite clínica e subclínica.
Em paralelo, bezerros recebem ração peletizada para evitar poeira no pulmão e estimular consumo precoce.
Pastos são divididos em 12 piquetes, com rodízio a cada dois ou três dias, evitando que os animais passem a arrancar brotos novos e prejudiquem a rebrota.
A água vem de poço artesiano e bebedouros são limpos com frequência. Istella sabe que água limpa e sombra adequada impactam diretamente o volume do tanque.
Na seca, o sistema muda: a alimentação passa a girar em torno de silagem de milho e caroço de algodão em baterias de cocho, reduzindo deslocamento e aproximando as vacas do “come e dorme”.
Foi nesse cenário que o rebanho chegou a 1.000 litros por dia em períodos anteriores.
Crise do leite, oito animais perdidos e o teste emocional
O primeiro ano no comando da fazenda não foi só de resultados positivos. Istella enfrentou uma combinação difícil de crise de preços do leite com perdas dentro do rebanho.
Em determinado período, oito vacas morreram, somando casos de animais com problemas pré-existentes, queda no curral, fraturas e até ataque de cobra.
Para quem está começando, perder oito vacas é um golpe pesado na estrutura financeira e emocional.
Ela admite que pensou em desistir.
Ao mesmo tempo em que via os custos subirem, acompanhava o leite pago abaixo do esperado, em uma fase em que o casal ainda ajustava manejo, reprodução e fluxo de caixa. Foi nesse momento que a rede de apoio se mostrou decisiva.
O pai, com décadas de experiência, lembrava que já tinha passado por situações piores, reforçando que a tradição da família está justamente em resistir às fases ruins e continuar produzindo.
Reprodução, genética e planejamento da próxima safra de leite
Mesmo em meio à crise, a fazenda não parou de pensar no futuro do rebanho.
Istella já iniciou protocolos reprodutivos, com inseminação em parte das vacas e novilhas, buscando melhorar gradualmente a base genética sem perder docilidade e adaptabilidade ao sistema de pasto e silagem.
Vacas prenhas recebem ração específica de pré-parto, sombra e calendário de vacina para garantir bezerros saudáveis.
Uma das referências do plantel é a vaca Estrela, novilha de primeira cria que já produziu cerca de 40 litros por dia em seu pico de lactação.
Atualmente em descanso e prenha novamente, ela representa o potencial da fazenda em trabalhar com animais de alta produção e bom temperamento.
Ao redor dela, novilhas criadas por Istella ainda na fazenda do pai agora entram na fila de produção, fechando um ciclo em que a tradição da família gera genética própria e sustentabilidade técnica para a atividade.
Sucessão, fé e o peso de honrar o sobrenome no campo
A história da fazenda São Sebastião não se resume a números de litros ou cabeças.
Ela está diretamente ligada à capela da comunidade, às rezas mensais, ao terço no dia 26 e à fé cultivada na mesma paisagem que abriga pastos, currais e bebedouros.
Istella e a família seguem a rotina religiosa da comunidade, enxergando a fé como parte do manejo emocional necessário para atravessar crises de preço, secas e perdas inesperadas no rebanho.
Na mesa de café, queijo feito com leite da própria fazenda, pão de queijo recém-assado e produtos da cooperativa regional reforçam a integração entre propriedade, indústria local e mercado consumidor.
No violão, herdado do pai, Istella toca modas que aprendeu em casa, conectando passado e presente.
Para ela, a fazenda em seu nome não é apenas um ativo econômico, mas a prova de que a tradição da família pode se adaptar, se profissionalizar e continuar viva nas mãos de uma mulher, de um marido recém-convertido à lida do campo e de um filho que cresce dentro do curral.
Com esse primeiro ano de 58 vacas, 860 litros diários e muita aprendizagem acumulada, a produtora projeta um futuro com mais litros, mais organização e menos improviso, sem abrir mão da raiz que a formou.
No horizonte, o objetivo é chegar a patamares muito maiores de produção, sempre com manejo ajustado à realidade do clima, dos preços e da própria família.
E você, olhando para a sua própria história, até que ponto acha que a tradição da família ainda pesa nas decisões sobre ficar ou sair do campo?
Tenho admiração por pessoas decididas, corajosas o suficiente pra comandar e saber administrar os bens concedidos. Administrar não é pra qualquer um, cada um com seu potencial
Que exemplo, muitas BENÇÃOS a ela. Parabéns e sucesso. Felicidades sempre. Nunca perca a esperança, siga sempre em frente e com o ALTÍSSIMO PAI NOSSO.
Gostaria de saber, como foi está sucessão familiar? E a outra irmã?