Singapura criou cavernas a 150 m sob o mar com 1,47 milhão m³ para armazenar combustíveis e liberar solo urbano, tornando-se referência global em infraestrutura subterrânea.
Singapura tem um problema que pouca gente imagina: território. Com apenas cerca de 728 km² para acomodar aeroportos, portos, centros financeiros, bairros residenciais, bases militares e um dos maiores clusters petroquímicos da Ásia, o país simplesmente não tem para onde expandir suas atividades estratégicas. Esse limite físico não é uma questão ambiental, mas geográfica, e ao mesmo tempo a economia singapurense nunca deixou de depender do polo petroquímico de Jurong Island, que reúne refinarias, crackers e indústrias associadas desde os anos 1990.
Foi nesse contexto que nasceu o projeto que hoje é considerado a primeira infraestrutura comercial subterrânea de armazenamento de combustíveis da Ásia: o Jurong Rock Caverns (JRC).
A origem do projeto Jurong Rock Caverns (JRC)
O conceito do Jurong Rock Caverns começou a ser discutido nos anos 2000, quando o governo identificou que o crescimento industrial em Jurong Island exigiria mais tanques de armazenamento. O problema é que cada tanque ocupa uma fração valiosa de superfície, e a expansão para novas ilhas artificiais seria extremamente cara.
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A agência estatal JTC Corporation, responsável pelo planejamento industrial, avaliou três alternativas: construir tanques tradicionais na superfície, criar ilhas adicionais dedicadas a armazenamento ou mover o armazenamento para o subsolo. A terceira opção não era a mais óbvia, mas se mostrou a única capaz de liberar espaço urbano e industrial sem deslocar indústrias estratégicas.
Em 2007, após estudos geológicos e financeiros, o governo aprovou oficialmente a construção da Fase 1 do Jurong Rock Caverns, com início das escavações no mesmo ano. O local escolhido está imediatamente abaixo da extensão leste de Jurong Island, onde o subsolo é formado pela chamada Jurong Formation, um conjunto de rochas densas e metamorfizadas com resistência adequada para câmaras subterrâneas profundas.
A geologia que viabilizou a obra com foco em estocar combustível
Projetos subterrâneos desse tipo não funcionam em solos instáveis. É por isso que quase todos os grandes depósitos subterrâneos do mundo estão em cavernas artificiais esculpidas em rocha dura.
No caso de Singapura, estudos conduzidos pelo Building and Construction Authority (BCA) e por consultorias geotécnicas internacionais mostraram que a região tinha dolomitos e rochas sedimentares silicificadas capazes de manter grandes vãos com deformação controlada.
Isso permitiu planejar câmaras com cerca de 340.000 m³ cada, dispostas em grandes corredores laterais e interligadas por galerias técnicas.
Outro fator essencial foi a possibilidade de escavar a aproximadamente 150 metros abaixo do fundo do mar, o que ofereceu isolamento térmico, confinamento natural e proteção adicional contra incêndios. A profundidade também minimizou interferências com instalações de superfície.
A construção subterrânea
Entre 2007 e 2014, a fase inicial do projeto executou a escavação, estabilização, impermeabilização e instrumentação de cinco grandes cavernas industriais, além de túneis de acesso e poços verticais.
Estima-se que mais de 1,3 milhão de m³ de rocha foram removidos, criando volumes internos que somam 1,47 milhão de m³. Para efeito comparativo, isso equivale a cerca de 580 piscinas olímpicas.
O processo de construção envolveu perfuração, detonação controlada, escavação mecânica, revestimento seletivo e sistemas de drenagem profunda para controlar infiltrações.
O acesso aos combustíveis é realizado por meio de oleodutos conectados ao terminal marítimo de Jurong Island, eliminando o tráfego de caminhões-tanque nas rodovias e reduzindo riscos logísticos.
Por que mover combustível para o subsolo faz sentido em Singapura
Diferente dos Estados Unidos, que usam cavernas para armazenar petróleo estratégico, o Jurong Rock Caverns foi projetado principalmente para armazenar nafta, condensados e outros produtos petroquímicos intermediários usados como matéria-prima para refinarias e crackers.
Os benefícios são claros:
- liberação de solo superficial para indústrias que não podem operar no subsolo
- redução de riscos de incêndio em áreas urbanas densas
- melhor controle térmico para líquidos inflamáveis
- eliminação de interferências visuais em áreas portuárias
- economia de espaço industrial, um recurso escasso no país
Segundo dados oficiais divulgados pela própria JTC na ocasião da inauguração, a Fase 1 permitiria liberar dezenas de hectares de superfície que normalmente seriam ocupados por tanques metálicos e dutos externos.
O papel logístico dentro de Jurong Island
Jurong Island é hoje um dos maiores hubs petroquímicos integrados do mundo. Empresas como ExxonMobil, Shell, Chevron Oronite, Lanxess, BASF e Mitsui Chemicals operam plantas interconectadas por oleodutos subterrâneos, formando uma cadeia industrial que funciona quase como um “complexo químico único”.
O Jurong Rock Caverns adicionou um novo nível a essa integração: o nível subterrâneo. Ele permite estocar insumos e produtos intermediários sem ocupar os níveis de superfície, que podem ser usados para plantas químicas compactas, sistemas logísticos, instalações portuárias e expansão industrial.
A operação de bombeamento é totalmente automatizada e possui redundância elétrica e mecânica. Sensores monitoram vazões, temperatura, pressão e composição das misturas, enquanto sistemas de drenagem garantem que qualquer infiltração seja isolada e tratada.
Segurança operacional e vantagens ambientais do projeto Jurong Rock Cavern
Armazenar líquidos inflamáveis na superfície envolve riscos: incêndios podem irradiar calor para tanques adjacentes, explosões podem atingir áreas urbanas e falhas térmicas podem danificar estruturas. No subsolo, o risco é reduzido por três fatores físicos:
- isolamento térmico natural da rocha
- confinamento mecânico de altas pressões
- menor exposição a impactos externos
Em caso de incêndio na superfície, as câmaras subterrâneas permanecem isoladas. Além disso, a evaporação de compostos voláteis é menor devido à temperatura natural do subsolo, reduzindo emissões de COVs.
Do ponto de vista urbano, outra vantagem é a eliminação da “paisagem industrial”. O projeto removeu da superfície tanques metálicos enormes, torres de segurança e tubulações expostas, integrando melhor Jurong Island à paisagem portuária.
Valor urbano e industrial criado
O impacto do Jurong Rock Caverns não está apenas no setor petroquímico, mas na relação entre infraestrutura e planejamento urbano.
Em Singapura, liberar solo significa uma oportunidade econômica imediata, porque cada metro quadrado pode ser destinado a parques científicos, áreas residenciais, centros logísticos ou indústrias de maior valor agregado.
À medida que o país avança em direção a setores de biotecnologia, semicondutores e fintech, o armazenamento subterrâneo permite deslocar setores mais pesados para camadas inferiores, mantendo na superfície setores intensivos em talento humano e inovação.
Versão futura do projeto
A Fase 1 foi inaugurada em outubro de 2014. A Fase 2, prevista para dobrar a capacidade de armazenamento, foi estudada entre 2016 e 2018, com expansão projetada para mais 1,3 milhão de m³, mas o cronograma foi desacelerado devido à reestruturação global do setor petroquímico e a mudanças na demanda industrial asiática.
Mesmo assim, o Jurong Rock Caverns se consolidou como um projeto que reúne geologia, engenharia, logística e urbanismo em um país que não pode expandir suas fronteiras para lugar nenhum.
Abaixo de refinarias, terminais, navios e arranha-céus, existem câmaras colossais de combustível fluindo silenciosamente, sem ocupar nenhum centímetro da superfície.

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