Na cidade amazônica mais antiga do Brasil, Santarém combina mais de mil anos de ocupação indígena, encontro de rios que não se misturam, mercados cheios de frutas estranhas, remédios naturais poderosos, farinha feita no braço e uma vida ribeirinha que resiste ao tempo e às secas recentes na região hoje.
A cidade amazônica mais antiga do Brasil não nasceu com os portugueses, nem começou com qualquer “descobrimento oficial”. Santarém surgiu de uma ocupação organizada que já passava dos 1.000 anos de história quando o Brasil ainda nem se chamava Brasil, bem na confluência dos rios Tapajós e Amazonas, num ponto estratégico da floresta.
Hoje, essa mesma cidade mistura arqueologia milenar, barcos de madeira, remédios de raiz, farinha estalando de crocante e um encontro de rios que não se misturam de cara, criando um cenário que parece fantasia, mas é pura realidade amazônica. Quem chega achando que vai ver “apenas mais uma cidade do interior” descobre um lugar que tem tamanho de país, memória de império indígena e rotina ribeirinha puxada.
Onde fica a cidade amazônica mais antiga do Brasil e por que ela é tão diferente

Santarém fica no oeste do Pará, a cerca de 1.167 km de Belém, com aproximadamente 357 mil habitantes espalhados por quase 18 mil km² de território, uma área maior que países como o Líbano ou Montenegro. É cidade média no mapa, mas com escala de continente.
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Os estudos arqueológicos mostram que há mais de mil anos existe povoamento contínuo na foz do Tapajós, exatamente onde hoje está o centro urbano.
Muito antes das igrejas, das avenidas e do Mercadão 2000, ali já havia uma “metrópole indígena”, organizada, populosa e conectada com outros povos da região. Pesquisas recentes indicam que essas cidades amazônicas pré-coloniais poderiam ter dezenas de milhares de habitantes, mesmo sem deixar prédios de pedra nem documentos escritos.
Cartas e mapas antigos de espanhóis, ingleses, holandeses e franceses já marcavam, no século XVI, uma cidade na foz do Tapajós, muito antes da presença portuguesa se firmar na Amazônia.
Quando Santarém hoje celebra a elevação oficial de vila a cidade, no século XVII, a verdade é que a vida ali já corria solta havia séculos. É isso que dá peso à expressão cidade amazônica mais antiga do Brasil.
Mercadão 2000: laboratório de sabores que você nem sabia que existiam

Se você quer entender a alma da cidade amazônica mais antiga do Brasil, não começa em museu, começa em feira. O Mercadão 2000, criado em 1985 para receber o “futuro” do ano 2000, parecia grande demais quando nasceu. Hoje, mal dá conta da avalanche de produtos da floresta e do campo.
Ali, tudo é excesso: tacacá fumegando, cheiro verde em montanhas, frutas comuns e frutas que parecem inventadas, como pupunha cozida, pitomba, ingá, cupuaçu, maracujá doce do mato, melão regional e muito mais. No meio disso, farinha boa, daquela que estala na boca e acompanha de peixe a pato no tucupi.
Os vendedores não ficam parados. É grito, piada, papo e simpatia o tempo todo, aquele estilo malandro de feira amazônica: “chega mais, minha querida, prova essa fruta aqui, isso é remédio, isso é vida”. No Mercadão, a conversa vale tanto quanto o produto.
E ainda tem os itens que carregam memória: perira de açaí, cofo pra carvão, utensílios que já foram padrão do dia a dia e hoje resistem como lembrança viva de um passado não tão distante, quando tudo chegava no braço e no remo.
Remédios da floresta: farmácia viva no coração da cidade
Na mesma área onde se compra peixe, farinha e frutas, você encontra outra instituição da cidade amazônica mais antiga do Brasil: a banca dos remédios naturais. Não é misticismo barato, é tradição de décadas, às vezes séculos.
Lá aparecem xaropes para gripe, resfriado, tosse braba, sinusite, asma, chiado no peito. Kumaru, mastruz, leite do Amapá, chá emagrecedor com dezenas de ervas, fora as garrafadas com nomes criativos que todo mundo conhece de ouvir falar.
Os campeões de venda são os óleos:
• Óleo de copaíba, chamado de “antibiótico natural” pelos vendedores, usado contra inflamação, tosse, problemas de pele e até questões mais sérias.
• Óleo de andiroba, outro clássico amazônico, famoso pelo uso em dores, inflamações e picadas de inseto.
Quem comanda a banca sabe explicar cada casca, folha e raiz, com uma segurança que não vem de livro, vem de geração em geração, de ribeirinho para ribeirinho. É uma farmácia viva no meio da cidade, onde o público vai do turista curioso ao morador que compra sempre “porque sempre funcionou”.
Encontro de rios que não se misturam: a assinatura da cidade
A imagem mais famosa da cidade amazônica mais antiga do Brasil não é prédio, não é praça, não é igreja. É a fusão de dois gigantes: o azul esverdeado e transparente do Tapajós de um lado, o barrento e imenso Amazonas do outro, correndo lado a lado sem se misturar de imediato.
Esse encontro pode ser visto de vários pontos de Santarém, mas fica ainda mais impressionante a bordo das embarcações que levam visitantes até o “coração” do fenômeno.
Guias e barqueiros explicam que diferença de temperatura, velocidade, cor e densidade das águas faz esse desenho perfeito na superfície, como se alguém tivesse traçado uma linha no meio do rio.
Desde 2014, essa região do encontro das águas é reconhecida como patrimônio cultural do Pará, um selo oficial para algo que o povo local já sabia faz tempo: aquilo ali é cartão de visitas da Amazônia, aula ao vivo de geografia, química, biologia e poesia.
No caminho, dá para ver botos, aves variadas e a floresta se espelhando na água. Mesmo em épocas de seca, quando o nível dos rios cai bastante, a sensação de grandeza permanece, e a paisagem continua parecendo de outro planeta.
Secas históricas, ribeirinhos em aperto e o rio que dita o ritmo da vida
Quem olha só a foto bonita do encontro dos rios não imagina o tamanho do aperto quando o nível das águas despenca.
Na gravação feita em novembro de 2024, a seca era tão severa que barqueiros mostravam canais que antes eram navegáveis e agora viraram apenas faixas de areia e lagoas isoladas.
Ribeirinhos que dependem do rio para transportar melancia, gado, farinha e outros produtos encontram dificuldade para sair das comunidades. Em alguns trechos, o barco simplesmente não passa. O turismo também sofre: passeios antes garantidos passam a depender do humor das águas.
Barqueiros veteranos dizem que a estiagem recente foi a mais forte que já viram em anos de trabalho, afetando tudo ao redor. Ainda assim, a lógica continua a mesma: o rio é estrada, supermercado, caixa-d’água, lugar de lazer e de trabalho.
Na cidade amazônica mais antiga do Brasil, quem manda no relógio é o nível do rio, não o ponteiro do relógio.
Barcos de madeira e carpinteiros navais que estão sumindo
Outro símbolo da cidade amazônica mais antiga do Brasil é a construção de embarcações de madeira, um ofício que fez de Santarém um dos principais polos navais do Norte.
No estaleiro simples à beira do rio, carpinteiros moldam barcos inteiros no olho, na trena e na experiência acumulada.
Um desses mestres é o seu Elito, carpinteiro naval que aprendeu com a família. Dos oito irmãos, sete seguiram o ofício, mas quase nenhum jovem novo quer aprender a arte de construir barcos de madeira. A pressão por embarcações de aço e alumínio, somada à falta de sucessores, faz essa profissão rara.
Ele mostra uma embarcação recém-finalizada, com orgulho de quem sabe que cada barco é, ao mesmo tempo, ferramenta de trabalho, transporte, casa, escola e conexão com o mundo para muitas famílias ribeirinhas. Mas admite que, se nada mudar, os artesãos dos rios podem virar peça de museu em poucas décadas.
A arqueologia que muda o que você aprendeu na escola
Quando a gente fala em “cidade antiga” no Brasil, logo vêm à cabeça nomes do litoral ou centros coloniais famosos. O que os estudos em Santarém mostram é outra história.
Pesquisadores apontam que na região do baixo Amazonas e Tapajós havia uma ocupação muito forte muito antes dos portugueses, com grandes aldeias, cidades dispersas, mas densas, conectadas por rios e caminhos internos. Cronistas europeus já relatavam margens de rios “muito habitadas”, com milhares de guerreiros indígenas preparados para a guerra.
Hoje, com escavações e estudos mais modernos, essas narrativas ganham peso. Fragmentos, cerâmicas, vestígios de ocupações antigas e análises de solo reforçam que Santarém, a atual cidade amazônica mais antiga do Brasil, já era um polo importante quando a Europa ainda nem sabia direito que esse pedaço de mundo existia.
Os mapas do século XVI marcam uma cidade na foz do Tapajós reconhecida por espanhóis, ingleses e holandeses, o que combina com a ideia de “Metrópole dos Tapajós”, muito anterior ao batismo católico de “Missão de Nossa Senhora da Conceição entre os índios Tapajó”, em 1661.
Vida na roça, farinha de respeito e colorau feito em casa
A poucos quilômetros do centro, na comunidade do Curuçunã, a vida corre em outro ritmo. Dona Celina e seu Luís tocam um sítio onde se planta de tudo um pouco, no modelo clássico de agricultura familiar amazônica.
O destaque é a mandioca, que depois de cerca de um ano é colhida para virar farinha. Farinha boa de verdade, feita no braço, no calor, na prensa, na casa de farinha, seguindo um ritual que mistura trabalho pesado, técnica e tradição.
É dessa farinha que nascem os acompanhamentos perfeitos para peixe frito, pato no tucupi, caldos e o que mais aparecer na mesa.
Dona Celina não para na mandioca. Ela faz o próprio colorau com urucum, usa massa de mandioca ou macaxeira, prepara açafrão em casa e prefere tudo natural, sem depender de tempero industrializado.
O sol forte, o calor quase o ano inteiro e a rotina de “cuidar de galinha, pato, planta, lavar roupa no igarapé” formam um retrato bem diferente da imagem urbana que muita gente tem da Amazônia.
Sabores que definem a identidade: pato no tucupi e maracujá doce
Se tem um prato que resume a personalidade do Pará, ele está na mesa de Dona Celina: pato no tucupi. O caldo amarelo, ácido e perfumado, vem direto da mandioca, passa por processo de cozimento cuidadoso e vira base para um prato que é meio sopa, meio ritual, meio abraço da floresta.
O tucupi aparece na feira, em garrafas de vários tamanhos, saindo das mãos de quem produz, vende e consome desde criança.
Quando o pato cai no prato com tucupi e uma boa farinha crocante por cima, a experiência deixa de ser apenas gustativa, vira parte do entendimento de onde se está.
Na mesma Santarém, você encontra o maracujá doce, aquele que se come rasgando a casca com a mão, crocância no caroço e sabor que surpreende quem só conhece o maracujá azedo do suco com açúcar.
“É um dos mais gostosos que eu já comi”, confessa o apresentador, no meio da feira, com a sacolinha cheia.
Por que essa cidade amazônica mais antiga do Brasil ainda guarda tantos segredos
Santarém mostra que o Brasil é bem maior do que o desenho do mapa e do que o resumo apressado dos livros didáticos. A cidade amazônica mais antiga do Brasil condensa numa mesma paisagem:
• Rios que se encontram sem se misturar de imediato
• Feiras que parecem museus vivos de frutas, temperos e remédios
• Estaleiros simples que constroem o futuro em madeira
• Comunidades rurais que produzem o próprio alimento e o próprio tempero
• Memórias arqueológicas que reposicionam a Amazônia como berço de grandes centros humanos
Tudo isso num cenário em que a fé, a roça, o barco, o mercado e a ciência caminham lado a lado, sem pedir licença para estereótipo nenhum.
Se você chegou até aqui, já sabe que essa cidade é muito mais do que “interior do Pará”. Então me conta nos comentários: qual pedaço da cidade amazônica mais antiga do Brasil mais te chamou atenção, o encontro dos rios, o Mercadão 2000 ou a vida simples na roça com tucupi e farinha?
Minha cidade. Eu acho Santarém maravilhosa e a reportagem está perfeita. Parabéns para o jornalista que reuniu todas as informações de forma bem clara e verdadeira. Obrigada
Tudo é importante. É maravilhoso saber dos meandros históricos de Santarém.
O encontro dos rios e um fenômeno natural espetacular.