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Com pneus velhos convertidos em blocos de 200 a 300 quilos, construtora na Colômbia ergue casas verdes e transforma um passivo ambiental em parede praticamente eterna

Escrito por Bruno Teles
Publicado el 03/03/2026 a las 22:14
Actualizado el 03/03/2026 a las 22:15
Pneus na Colômbia viram casas em Choachi pelas mãos de Alexandra Posada, que transforma descarte difícil em parede, telhado e estrutura quase eterna.
Pneus na Colômbia viram casas em Choachi pelas mãos de Alexandra Posada, que transforma descarte difícil em parede, telhado e estrutura quase eterna.
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Na Colômbia, Alexandra Posada usa pneus descartados para levantar casas em Choachi com blocos de 200 a 300 quilos cheios de terra, criando telhados impermeáveis, isolamento contra calor e frio e uma resposta construtiva a um país que descarta 5,3 milhões de pneus por ano sem tratamento suficiente até hoje.

Os pneus que costumam terminar abandonados em estradas e terrenos da Colômbia ganharam outro destino nas montanhas de Choachi. Sob comando de Alexandra Posada, eles deixam de ser passivo ambiental e passam a formar paredes, telhados, terraços e degraus de uma casa que se sustenta justamente sobre aquilo que o país não consegue descartar direito.

A ideia parece improvável à primeira vista, mas o método é direto. Caminhões descarregam os pneus, a equipe os enche de terra e transforma cada peça em um bloco de 200 a 300 quilos, que depois é empilhado em torno de barras de ferro. O que era lixo volumoso vira estrutura pesada, flexível e durável, em um tipo de construção que tenta resolver ao mesmo tempo moradia e resíduo.

Como Alexandra Posada transformou pneus em blocos de construção

Pneus na Colômbia viram casas em Choachi pelas mãos de Alexandra Posada, que transforma descarte difícil em parede, telhado e estrutura quase eterna.

Alexandra Posada diz que consegue os pneus de graça porque descartá-los já é, por si só, um problema para muita gente.

A lógica do projeto nasce exatamente desse impasse. Se o material leva milhares de anos para se decompor e ainda ocupa espaço, polui a paisagem e frequentemente acaba queimado, então usá-lo como base estrutural passa a ser uma forma de converter um problema em recurso.

Em Choachi, Alexandra Posada e sua equipe pegam desde pneus de caminhão até pneus de carro e os preenchem com terra. Cada unidade vira um bloco enorme e pesado, com massa suficiente para formar a base das casas.

Não há sofisticação vazia nesse processo: a força da proposta está em usar um resíduo abundante, barato e difícil de remover como componente principal da alvenaria.

O desenho final também foge do padrão retilíneo convencional. As casas lembram pequenos iglus deslocados na paisagem, com estruturas circulares erguidas ao redor de barras de ferro.

Essa forma não é só estética. Ela ajuda a distribuir carga, reforçar estabilidade e manter a flexibilidade do conjunto, algo importante em uma região andina com atividade sísmica.

Ao descrever o resultado, Alexandra Posada resume a lógica de modo quase brutal: se os pneus demoram milênios para se decompor, então, usados na construção, podem se tornar “tijolos praticamente eternos”.

A frase é simples, mas diz muito sobre o projeto. A parede nasce do mesmo material que o descarte não consegue destruir.

Por que essas casas resistem ao clima e aos tremores

Pneus na Colômbia viram casas em Choachi pelas mãos de Alexandra Posada, que transforma descarte difícil em parede, telhado e estrutura quase eterna.

As casas construídas em Choachi não dependem apenas do peso dos pneus. O sistema funciona porque combina massa, elasticidade e camadas complementares.

Os blocos são empilhados para formar estruturas ao mesmo tempo sólidas e flexíveis, capazes de isolar contra calor e frio e, segundo a proposta apresentada, também de suportar melhor os terremotos comuns nessa faixa dos Andes.

Nos quartos e na cozinha, os tetos são arredondados e feitos com cimento e aço. Já sobre a sala de estar e a sala de jantar aparecem tetos planos de tábuas de madeira.

Em ambos os casos, há outra camada de pneus por cima, formando um fechamento descrito por Alexandra Posada como quase não degradável e impermeável.

O resíduo não fica escondido apenas dentro da parede; ele sobe até o alto da casa e assume função de proteção total.

O acabamento final também tenta romper a associação automática entre material reciclado e aparência precária. As paredes recebem argamassa bege de cal e areia, ganhando aspecto liso de adobe.

Garrafas de vidro antigas são inseridas na alvenaria para quebrar a superfície com pontos de cor, enquanto outras garrafas são usadas verticalmente nos tetos para formar claraboias com efeito de vitral pixelado.

Isso ajuda a explicar por que o projeto não se limita a erguer abrigos improvisados. As casas de Choachi buscam conforto térmico, iluminação indireta e identidade visual própria.

A construção com pneus não aparece como solução feia que funciona apesar do material, mas como solução que tenta tirar beleza justamente do material rejeitado.

O tamanho do problema que a Colômbia joga fora todos os anos

Pneus na Colômbia viram casas em Choachi pelas mãos de Alexandra Posada, que transforma descarte difícil em parede, telhado e estrutura quase eterna.

A força do projeto só faz sentido completo quando se olha para a escala do descarte na Colômbia.

Segundo os dados citados na base, o país joga fora mais de 5,3 milhões de pneus por ano, quase 100 mil toneladas de borracha.

É um volume enorme de resíduo difícil de armazenar, difícil de recolher e lento demais para desaparecer por conta própria.

Boa parte desses pneus termina abandonada em pilhas ao longo das estradas ou queimada para sumir do mapa, acrescentando mais poluição ao ar.

Em Bogotá, cidade extensa e congestionada, esse descarte ajuda a agravar um cenário já pressionado por fumaça e saturação urbana.

O pneu velho não é apenas um resto de borracha; ele é um problema de espaço público, de paisagem e de ambiente.

Francisco Gomez, que chefia a resposta do Ministério do Meio Ambiente ao tema, resume isso de forma direta ao dizer que se trata de um problema enorme para o espaço público, o meio ambiente e a paisagem.

Fabricantes e importadores são obrigados a reciclar apenas cerca de 35% do consumo total do país.

Há ainda um entrave operacional que ajuda a explicar a permanência do problema. Os trabalhadores da limpeza urbana não são responsáveis pela retirada de pneus abandonados, porque o material é classificado como “resíduo especial”.

Isso cria uma espécie de zona cinzenta administrativa. Todo mundo reconhece o passivo, mas a estrutura de remoção continua pequena diante da montanha de borracha que a Colômbia produz.

Quando o lixo vira parede, telhado e aprendizado de obra

Até o momento descrito na base, Alexandra Posada já havia usado cerca de 9.000 pneus velhos em paredes, telhados, terraços e degraus de seus “iglus” de borracha.

Esse número ajuda a tirar o projeto do campo do exemplo simbólico e colocá-lo no campo da aplicação real.

Não se trata de uma unidade experimental isolada, mas de uma prática repetida em várias casas nas montanhas de Choachi.

O pedreiro William Clavijo, um dos trabalhadores da equipe, resume o efeito mais imediato da experiência ao dizer que o trabalho o ensinou a valorizar as coisas.

A frase parece simples, mas carrega o núcleo do projeto.

Aquilo que a cidade trata como sobra sem valor retorna na obra como estrutura essencial, escondido sob camadas de argamassa, mas sustentando a casa inteira.

Esse tipo de transformação também revela uma diferença importante entre reciclar e reaproveitar. No caso de Choachi, os pneus não passam por reprocessamento industrial complexo para virar outro produto.

Eles são usados quase diretamente, com terra, barras de ferro e revestimento, o que reduz etapas e preserva a lógica de baixo custo de um material obtido gratuitamente por Alexandra Posada.

No fim, o projeto mostra que a construção civil pode funcionar como destino final para resíduos que os sistemas formais não conseguem absorver em escala suficiente.

Mas ele também levanta uma pergunta maior para a Colômbia: quantos passivos ambientais continuam sendo tratados apenas como sujeira porque ninguém decidiu ainda redesenhá-los como matéria-prima?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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