Fazendas chinesas revelam uma cadeia gigantesca e pouco conhecida, movimentada por tanques, estufas e milhões de tartarugas criadas para alimentação e produtos tradicionais, expondo a dimensão industrial de um mercado bilionário.
Agronegócio de tartarugas em escala industrial na China
Um setor pouco visível nas estatísticas globais de proteína animal movimenta centenas de milhões de animais por ano na China.
São as fazendas de tartarugas de água doce, estruturadas em tanques de concreto, viveiros escavados e estufas aquecidas, que abastecem um mercado voltado sobretudo à carne e aos derivados usados na medicina tradicional chinesa, com impacto econômico que chega à casa dos bilhões de dólares, segundo estudos científicos e relatórios internacionais.
A primeira grande fotografia desse setor foi traçada em um levantamento publicado em revista científica de conservação no fim dos anos 2000.
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Pesquisadores identificaram 1.499 fazendas registradas de tartarugas na China e receberam respostas completas de 684 empreendimentos.
Somadas, essas unidades declararam mais de 300 milhões de tartarugas vendidas por ano, com valor aproximado de 750 milhões de dólares, e os autores estimaram que o volume real poderia ser ainda maior, já que mais da metade das fazendas não respondeu ao questionário.
Predomínio da tartaruga-de-casco-mole chinesa

Os dados desse estudo mostram que a esmagadora maioria dos animais criados nas fazendas é de uma única espécie: a tartaruga-de-casco-mole chinesa (Pelodiscus sinensis).
Informações compiladas em bases especializadas em répteis indicam que essa espécie responde por centenas de milhares de toneladas de carne ao ano e é considerada hoje o quelônio economicamente mais importante do mundo, com centenas de milhões de indivíduos destinados à alimentação humana e à indústria de produtos medicinais a cada ano.
Como funcionam as fazendas de criação
A estrutura dessas fazendas varia conforme a região, mas segue uma lógica de aquicultura intensiva.
Em províncias do leste e do sul da China, como Guangdong, Guangxi e Jiangsu, a produção ocorre em tanques de concreto, viveiros escavados e sistemas de monocultivo em viveiros de água doce.
Em áreas sujeitas a temperaturas mais baixas, juvenis são mantidos em estufas aquecidas, com a água mantida em torno de 30 °C por meio de caldeiras a carvão ou outros sistemas de aquecimento, para garantir crescimento contínuo durante o inverno.
Estudos técnicos descrevem estruturas com compartimentos separados por idade, monitoramento de qualidade da água, manejo de alimentação e rotinas de limpeza voltadas a reduzir mortalidade e perdas por doenças.
Além dos modelos de tanques intensivos, pesquisadores detalham sistemas de co-cultivo com arroz, em que as tartarugas-de-casco-mole utilizam o ambiente de plantio como habitat.
Nesse arranjo, os dejetos ajudam a fertilizar o solo, reduzindo o uso de insumos químicos e melhorando indicadores de qualidade da água, embora ainda existam desafios ligados à alimentação e à sanidade dos plantéis.
Avaliações econômicas desses modelos mostram diferenças importantes na conversão alimentar e na rentabilidade, dependendo da densidade de estocagem e do equilíbrio entre produtividade agrícola e aquícola.
Reprodução e manejo intensivo
O ciclo produtivo tem como base a reprodução em cativeiro.
Fêmeas adultas depositam ovos em áreas secas dos tanques ou em estruturas preparadas, e os ovos são coletados ou protegidos para incubação.
Após a eclosão, filhotes são direcionados para unidades específicas de recria, muitas vezes em estufas aquecidas, onde recebem ração balanceada com alto teor de proteína.
Estudos de manejo indicam o uso de dietas formuladas, observação de parâmetros como taxa de crescimento e conversão alimentar e controle da densidade para minimizar disputas e canibalismo, prática registrada em sistemas intensivos com tartarugas.
Carne, plastrões e exportações

O destino dos animais criados nas fazendas é dividido entre o mercado de carne, o fornecimento de plastrões e outros subprodutos destinados à medicina tradicional chinesa, além de exportações regionais.
Trabalhos sobre comércio de casco de tartaruga mostram que o plastrão da tartaruga-de-casco-mole é utilizado como insumo em preparações medicinais, enquanto a carne é consumida em pratos típicos, sopas e caldos.
Em alguns casos, os cascos processados na China também entram em cadeias de exportação para países vizinhos, como parte de um mercado pouco regulado e de difícil rastreamento, que inclui produtos de fazendas e de animais capturados na natureza ou importados de outros países asiáticos.
Crescimento sustentado e impacto econômico
Dados recentes reunidos por organismos internacionais e por pesquisadores indicam que o volume de produção se mantém elevado.
Séries estatísticas mostram crescimento consistente da aquicultura de tartaruga-de-casco-mole desde a década de 1990, com a produção global, liderada pela China, atingindo centenas de milhares de toneladas por ano na década de 2010.
Um estudo técnico citou valor de aproximadamente 350 mil toneladas de carne em 2015, com valor de indústria estimado em cerca de 5,2 bilhões de dólares, evidenciando que o segmento se aproxima, em faturamento, de cadeias conhecidas da aquicultura asiática.
Um agronegócio pouco visível, mas gigantesco

Apesar dessa escala, o agronegócio das tartarugas permanece em grande medida oculto para o público internacional.
Em relatórios amplos sobre aquicultura, a produção aparece diluída em categorias agregadas, e os dados sobre número de fazendas, espécies criadas e destino dos produtos são fragmentados.
Ao mesmo tempo, bases especializadas em biodiversidade e conservação ressaltam o peso econômico da espécie Pelodiscus sinensis e o fato de que centenas de milhões de indivíduos são movimentados anualmente, algo pouco refletido em debates sobre segurança alimentar e proteína animal.
Conservação, impactos e desafios
A expansão desse sistema de produção gerou uma relação ambígua com a conservação.
Documentos ligados à Convenção sobre Diversidade Biológica e avaliações de organizações de fauna apontam que a exploração histórica de tartarugas para alimentação e medicina tradicional levou várias espécies de água doce à condição de ameaçadas, inclusive na Ásia.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de fazendas de grande escala para espécies como a tartaruga-de-casco-mole é citado por alguns autores como forma de reduzir a pressão sobre populações selvagens, ao menos para táxons que já contam com ciclos completos de cativeiro estabelecidos.
Persistem, porém, preocupações sobre captura ilegal para abastecer criatórios, impactos genéticos da mistura de populações e efeitos de doenças associadas à criação em alta densidade.
Mudanças regionais e incertezas atuais
Nos últimos anos, reportagens regionais registraram o declínio de fazendas em áreas urbanizadas, como Humen, no sul da China, onde o aumento do custo da terra reduziu o espaço para unidades de criação.
Ainda assim, artigos técnicos publicados em 2025 confirmam que a tartaruga-de-casco-mole permanece como espécie-chave da aquicultura chinesa, com produção crescente ao longo de quase três décadas e status de produto aquático de alto valor.
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