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Como africanos cavaram milhões de poços em meia-lua no deserto do Saara e transformaram áreas áridas em terras férteis, freando o avanço da desertificação com uma técnica simples que aumenta a produção agrícola e retém a água da chuva

Escrito por Alisson Ficher
Publicado el 06/01/2026 a las 14:03
Técnica de covas em meia-lua ajuda comunidades do Sahel a reter água, recuperar solos degradados e avançar a Grande Muralha Verde africana.
Técnica de covas em meia-lua ajuda comunidades do Sahel a reter água, recuperar solos degradados e avançar a Grande Muralha Verde africana.
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Técnica ancestral usada por comunidades africanas altera dinâmica da água no Sahel, recupera solos degradados e integra a Grande Muralha Verde, iniciativa continental contra a desertificação que combina engenharia simples, adaptação climática e produção agrícola em áreas historicamente afetadas pela seca.

Milhões de cavidades escavadas em formato de meia-lua vêm alterando, de forma gradual, a dinâmica de áreas áridas no entorno do deserto do Saara, especialmente no Sahel, faixa semiárida que se estende de oeste a leste do continente africano.

A técnica, aplicada principalmente por comunidades rurais, tem como objetivo reduzir a velocidade do escoamento da água da chuva, aumentar a infiltração no solo e criar condições mínimas para a recuperação da vegetação em áreas degradadas.

Essas ações estão associadas a estratégias adotadas dentro da iniciativa da Grande Muralha Verde, lançada pela União Africana em 2007.

O cenário é marcado por pressões ambientais e sociais crescentes.

O Saara ocupa cerca de 9,2 milhões de quilômetros quadrados, área equivalente a quase um terço do território africano.

Estudos climáticos e geográficos indicam que, ao longo do século XX, as bordas do deserto avançaram, com uma expansão estimada entre 10% e 20% em comparação com o início dos anos 1920, a depender da metodologia utilizada e da variabilidade climática observada.

Chuva intensa e solo degradado explicam crise hídrica no Sahel

Em grande parte do Sahel, a escassez de água não se explica apenas pela quantidade de chuva.

Pesquisadores e organismos internacionais apontam que a degradação do solo é um fator central.

Video de YouTube

A perda de estrutura física e biológica faz com que a superfície se torne endurecida, dificultando a infiltração da água.

Nessas condições, as precipitações, que costumam ocorrer de forma concentrada e intensa, escoam rapidamente pela superfície, provocando erosão e enchentes localizadas.

A água, em vez de recarregar o subsolo, é perdida em poucas horas, sem beneficiar a agricultura ou os ecossistemas locais.

Especialistas em conservação de solos destacam que esse processo cria um ciclo difícil de interromper.

Períodos prolongados de seca fragilizam ainda mais o solo, e as chuvas seguintes acabam removendo os poucos nutrientes restantes, aprofundando a desertificação.

Grande Muralha Verde aposta em restauração de paisagens

Embora frequentemente descrita como um corredor contínuo de árvores, a Grande Muralha Verde passou a ser apresentada, por instituições africanas e organismos multilaterais, como um conjunto de ações de restauração de paisagens.

O programa busca combinar recuperação ambiental, adaptação às mudanças climáticas e geração de renda.

O traçado original prevê uma faixa de cerca de 8.000 quilômetros, ligando o oceano Atlântico ao mar Vermelho, atravessando mais de 20 países do Sahel.

Na prática, cada região aplica técnicas distintas, adaptadas à geologia, ao regime de chuvas e às formas de uso da terra existentes.

Como funcionam as covas em meia-lua usadas na agricultura

Técnica de covas em meia-lua ajuda comunidades do Sahel a reter água, recuperar solos degradados e avançar a Grande Muralha Verde africana.
Técnica de covas em meia-lua ajuda comunidades do Sahel a reter água, recuperar solos degradados e avançar a Grande Muralha Verde africana.

Entre essas técnicas, as covas em meia-lua se destacam pelo uso recorrente em áreas agrícolas degradadas.

Segundo estudos técnicos conduzidos na África Ocidental, o formato semicircular permite interceptar a água que desce pelas encostas, reduzindo sua velocidade e favorecendo a deposição de sedimentos finos e matéria orgânica.

As dimensões variam conforme o local, mas documentos técnicos citam, como referência comum, estruturas com cerca de 4 metros de diâmetro, profundidade entre 15 e 25 centímetros e espaçamento médio de 8 metros entre unidades.

A abertura da meia-lua costuma ficar voltada para a parte mais alta do terreno, enquanto a terra retirada forma um pequeno dique na borda externa.

Pesquisadores ressaltam que o objetivo não é armazenar água de forma permanente, mas retardar o escoamento pelo tempo suficiente para que o solo absorva a umidade.

Da retenção de água ao aumento da produção agrícola

Com a melhoria gradual das condições físicas do solo, gramíneas resistentes tendem a se estabelecer primeiro.

Esses vegetais ajudam a estabilizar a superfície e reduzem a erosão.

Em algumas áreas, segundo levantamentos de campo, essa cobertura inicial favorece, ao longo dos anos, a regeneração natural de arbustos e árvores nativas.

Os resultados, no entanto, não são uniformes.

Técnica de covas em meia-lua ajuda comunidades do Sahel a reter água, recuperar solos degradados e avançar a Grande Muralha Verde africana.
Técnica de covas em meia-lua ajuda comunidades do Sahel a reter água, recuperar solos degradados e avançar a Grande Muralha Verde africana.

Estudos realizados no Níger, Burkina Faso e Senegal indicam que os ganhos dependem de fatores como manejo, intensidade das chuvas, uso de adubação orgânica e controle do pastejo.

Ainda assim, pesquisas associam a aplicação contínua dessas técnicas a aumentos significativos de cobertura vegetal e redução da perda de solo.

No caso de estruturas complementares, como cordões de pedra construídos ao longo das curvas de nível, análises conduzidas em Burkina Faso apontam incrementos de produtividade agrícola da ordem de 30% em áreas tratadas, em comparação com terrenos sem intervenção, especialmente para culturas como milheto e sorgo.

Barragens de areia ampliam acesso à água no leste africano

Além das covas em meia-lua, comunidades do leste africano adotam barragens de areia em leitos de rios sazonais.

A técnica consiste na construção de pequenas paredes transversais que retêm sedimentos durante as cheias.

A água fica armazenada nos espaços entre os grãos de areia, reduzindo a evaporação.

Relatórios de organizações locais e estudos de caso no Quênia indicam que centenas de barragens desse tipo estão em operação.

Essas estruturas garantem acesso a água para consumo humano, irrigação de pequena escala e dessedentação de animais durante a estação seca.

Segundo especialistas, a eficácia depende das características do leito do rio e da manutenção das estruturas.

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Experiência chinesa amplia debate sobre desertificação

Fora da África, a China desenvolve desde 1978 o chamado Programa de Cinturão de Proteção dos Três Nortes.

O projeto é frequentemente comparado à Grande Muralha Verde africana.

A iniciativa busca reduzir a desertificação e as tempestades de poeira no norte do país por meio de reflorestamento, quebra-ventos e estabilização do solo.

Reportagens recentes indicam que a cobertura florestal chinesa aumentou de cerca de 10% em 1949 para mais de 25% em 2023, segundo dados oficiais.

Em 2024, foi anunciada a conclusão de um cinturão verde ao redor do deserto de Taklamakan, após décadas de intervenções.

Pesquisadores observam que projetos desse tipo enfrentam desafios semelhantes aos africanos.

Entre eles estão a escolha de espécies adequadas e a sobrevivência das plantas em ambientes extremamente secos.

Por isso, cresce o interesse por abordagens que priorizam a recuperação das funções básicas do solo antes do plantio intensivo.

Se técnicas simples e de baixo custo conseguem reorganizar o escoamento da água e melhorar a fertilidade em áreas degradadas, quais fatores ainda limitam a ampliação dessas soluções em regiões mais vulneráveis do Sahel?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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