Décadas depois de um pânico sobre cultos satânicos tomar os EUA, o Brasil vive uma nova onda de medo alimentada por redes sociais, com alvos diferentes, mas com a mesma mecânica de desinformação e pavor.
A história parece se repetir, mas com novos personagens e tecnologias. Nos anos 1980, os Estados Unidos foram tomados por um medo coletivo conhecido como «Pânico Satânico», onde a sociedade acreditava em uma rede secreta de cultos que abusavam de crianças. Hoje, no Brasil, vemos um fenômeno parecido, mas com outros nomes: as teorias da conspiração sobre a «Agenda 2030» da ONU e o chamado «Globalismo».
Embora os temas sejam diferentes, a forma como o medo se espalha é a mesma. O que antes eram livros e programas de TV, hoje são grupos de WhatsApp e Telegram. A desinformação encontra terreno fértil em momentos de incerteza, e o resultado é uma sociedade dividida e desconfiada, assombrada por inimigos imaginários.
O Pânico Satânico original: a histeria causada pelo livro «Michelle Remembers» em 1980 e o caso da pré-escola McMartin (1983-1990)
A histeria que tomou conta dos EUA nos anos 80 começou com um livro. Publicado em 1980, «Michelle Remembers» contava a história de uma mulher que, através de terapia, teria recuperado memórias de ter sido abusada por um culto satânico na infância. O livro virou uma febre e espalhou a ideia de que uma conspiração maligna estava em andamento.
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O auge do pânico foi o caso da pré-escola McMartin, que começou em 1983 na Califórnia. Os donos e professores da escola foram acusados de abusar de centenas de crianças em rituais satânicos. As alegações incluíam histórias bizarras de túneis secretos e bruxas voadoras.
Após um julgamento que durou sete anos e se tornou o mais caro da história americana até então, ninguém foi condenado. Ficou provado que as crianças foram pressionadas pelos terapeutas a inventar as histórias. Apesar disso, o caso alimentou o medo em todo o país.
As teorias da conspiração no Brasil: o que é a Agenda 2030 da ONU e a ideia de Globalismo

No Brasil, o medo hoje tem outros alvos. O primeiro é a «Agenda 2030», um plano real da ONU, assinado por 193 países em 2015, com metas para combater a pobreza e promover a sustentabilidade. Nas teorias da conspiração, no entanto, ela é retratada como um plano secreto para implantar uma «Nova Ordem Mundial» e controlar a população.
O segundo alvo é o «Globalismo», termo popularizado no Brasil. A ideia é que uma elite global, formada por bilionários e organizações como a ONU e a OMS, estaria trabalhando para destruir a soberania dos países. Essas ideias ganharam força em setores radicais e foram usadas para atacar adversários políticos e instituições.
Os mesmos medos, novas ferramentas
Nos anos 80, o Pânico Satânico foi espalhado pela mídia tradicional. Programas de TV sensacionalistas, como um especial de 1987 do apresentador Geraldo Rivera, e reportagens em jornais e revistas, levaram a histeria para dentro das casas das pessoas.
Hoje, a mecânica é muito mais rápida e descentralizada. As teorias da conspiração sobre a Agenda 2030 e o Globalismo se espalham principalmente por grupos de WhatsApp e Telegram.
Um relatório do InternetLab, que analisou o uso do Telegram durante as eleições de 2022 no Brasil, mostrou como esses grupos funcionam como câmaras de eco, onde mentiras são repetidas à exaustão e reforçadas sem nenhum tipo de filtro ou verificação.
A anatomia da mentira

Tanto o pânico antigo quanto o novo se baseiam em «provas» que não resistem a uma análise séria. No Pânico Satânico, a principal «evidência» eram as «memórias recuperadas» através de terapia, uma prática hoje totalmente desacreditada pela psicologia. Os testemunhos das crianças no caso McMartin também foram obtidos com técnicas que as induziam a mentir.
Nas teorias da conspiração atuais, as «provas» são criadas de outra forma. Seus promotores pegam um documento real, como a Agenda 2030 da ONU, e distorcem completamente seu significado.
Metas sobre igualdade de gênero viram «ideologia de gênero», e objetivos de sustentabilidade se tornam um plano para controlar a produção de alimentos. A tática é criar uma narrativa assustadora a partir de uma base real, mas mal interpretada de propósito.
O trabalho de agências de checagem e o debate em comunidades online como o r/brasil
Assim como no passado, hoje também existe uma forte resistência à desinformação. Agências de checagem de fatos como a Agência Lupa e o Aos Fatos trabalham diariamente para desmentir boatos e mostrar a verdade por trás das teorias da conspiração.
A Lupa, por exemplo, já publicou uma verificação explicando que a Agenda 2030 é um plano de metas voluntárias, e não uma imposição.
Comunidades online, como o fórum r/brasil na plataforma Reddit, também servem como um espaço para o debate. Nesses locais, usuários compartilham informações verificadas e discutem criticamente as narrativas que circulam nas redes sociais, ajudando a combater a desinformação. O desafio, no entanto, é fazer com que a verdade tenha o mesmo alcance e impacto emocional das mentiras.
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